Post da Semana

Olimpíadas: Rio de Janeiro 2016 e Pyeongchang 2018!

Semana passada, no átomo:

Chocolate! Chocolate! Eu só quero chocolate!

De volta ao passado

Releia o primeiro post da série sobre as Olimpíadas!

Você se lembra?

11 de novembro de 2013: O Poderoso Chefão

E já que o assunto da semana é esportes...

Horseball! Eu preferia cavalobol, mas tudo bem...

domingo, 22 de abril de 2018

Olimpíadas (XXVII)

Quatro anos já se passaram desde meu último post sobre as Olimpíadas aqui no átomo. Isso significa duas coisas: primeiro, que eu estou ficando velho, segundo, que já está na hora de mais um. Sem mais delongas, vamos a ele!

Rio de Janeiro 2016

O sonho do Brasil de sediar uma Olimpíada não é tão recente quanto se imagina: a primeira vez em que o Rio de Janeiro se candidatou a sede olímpica foi para os Jogos de 1936, embora, na ocasião, não tenha recebido um único voto sequer. Após uma pré-candidatura de Brasília a sede dos Jogos de 2000, desistindo antes de a votação começar, o Rio de Janeiro voltaria a ser candidato a sede para 2004, com uma campanha que incluiu criação de logotipo, venda de produtos com a marca e propagandas em rádio e TV, mas a cidade seria reprovada ainda durante a inspeção do COI, antes mesmo de se iniciar a votação. O mesmo aconteceria em 2012, na terceira vez em que o Rio de Janeiro se candidataria, mais uma vez sendo reprovado na inspeção do COI e não chegando à votação.

Após a derrota em 2012, o Comitê Olímpico Brasileiro decidiria ousar e apresentar uma nova candidatura, totalmente reformulada, já para a edição seguinte dos Jogos, em 2016. Deu certo - embora houve quem estranhasse o fato de uma cidade rejeitada antes mesmo da votação em uma edição vencer a votação na edição seguinte, suspeitando de compra de votos e corrupção no COI, o que nunca foi provado. Após quatro rodadas de votação, o Rio de Janeiro superaria a norte-americana Chicago, a japonesa Tóquio e a espanhola Madri para se tornar a primeira cidade brasileira a sediar uma Olimpíada.

O Comitê Organizador Local optaria por dividir as competições em quatro polos: Maracanã, Copacabana, Barra da Tijuca e Deodoro. A maior parte das instalações usadas ficaria na Barra, no moderno Parque Olímpico, que seria construído para o evento no local do antigo Autódromo Internacional Nelson Piquet, reaproveitando algumas das construções feitas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, sediados também pelo Rio de Janeiro, e incluiria a Arena Carioca 1 (basquete), a Arena Carioca 2 (judô e luta olímpica), a Arena Carioca 3 (esgrima e taekwondo), a Arena do Futuro (handebol), a Arena Rio Olímpico (ginástica), o Parque Aquático Maria Lenk (saltos ornamentais, nado sincronizado e polo aquático), o Estádio Aquático Olímpico (natação e polo aquático), O Centro Olímpico de Tênis e um novo Velódromo, já que o do Pan não pôde ser aproveitado por não ter sido construído de acordo com as regras da União Ciclística Internacional. A promessa feita pelo governo era de que, após o fim das Olimpíadas, a Arena do Futuro seria desmontada e seus materiais reaproveitados em escolas públicas da cidade, a Arena Carioca 3 se transformaria ela mesma em uma escola pública, e o Estádio Aquático seria convertido em duas piscinas olímpicas para uso da população; a realidade, infelizmente, é que, desde o final de 2016, o Parque Olímpico se encontra fechado, à beira do abandono.

Dois dos esportes mais populares das Olimpíadas, entretanto, não seriam disputados no Parque Olímpico. O atletismo teria como casa o Estádio João Havelange (hoje rebatizado para Estádio Nílton Santos, mas mais conhecido por seu apelido, Engenhão, por se localizar no bairro do Engenho de Dentro), outra das instalações originalmente construídas para o Pan, enquanto o futebol não pôde deixar passar a chance de ter suas partidas na cidade disputadas no tradicional Estádio Mário Filho, mundialmente conhecido como Maracanã - que também foi palco das Cerimônias de Abertura e de Encerramento. Como já é tradicional nas Olimpíadas, o Rio de Janeiro, apesar de sede do evento, não seria a única sede do futebol, que, além de jogos no Maracanã e no Engenhão, teria partidas realizadas em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Manaus - todas em estádios construídos para a Copa do Mundo de Futebol, que seria realizada no Brasil dois anos antes das Olimpíadas, em 2014.

O Comitê Organizador e a Prefeitura do Rio de Janeiro também demonstrariam grande preocupação em tornar os jogos ecologicamente corretos: elementos como os pódios e placas de publicidade seriam 100% feitos de materiais recicláveis, e até mesmo as medalhas de prata e bronze, além das faixas usadas para pendurar todos os três tipos de medalhas nos pescoços dos atletas, contariam com materiais reciclados em sua composição. Uma das maiores tradições das Olimpíadas, a de os atletas receberem um pequeno buquê de flores junto com a medalha, seria quebrada no Rio de Janeiro, sob a alegação de que isso seria desperdício de recursos naturais, já que estudos demonstravam que quase a totalidade dos atletas descartavam as flores pouco após a cerimônia. A Pira Olímpica também seria bem menor que as das edições anteriores, usando um efeito de movimento para fazer parecer que suas chamas eram maiores do que na realidade, para economizar gás - embora a Prefeitura tenha decidido instalar uma segunda Pira na Candelária, em local aberto, para visitação e fotos, já que a original ficava dentro do Estádio do Maracanã, ao qual só se tinha acesso com ingressos, então, no fim das contas, as duas Piras juntas acabaram consumindo até mais gás, por exemplo, que a Pira de 2012, que era bem maior. Outros projetos ecológicos, como a despoluição da Baía de Guanabara, reformas no sistema de esgotos da cidade e o plantio de 24 milhões de árvores para compensar o impacto ambiental das obras realizadas para os Jogos, teriam resultados bem abaixo do esperado, por motivos financeiros ou por atrasos, o que também acabou impactando no projeto original.

O revezamento da Tocha Olímpica, por determinação do COI, deveria ficar restrito à Grécia e ao país-sede, para evitar voltas ao mundo como as que ocorreram em 2004 e 2008; para 2016, porém, o presidente do COI, o alemão Thomas Bach - em sua primeira edição dos Jogos Olímpicos à frente do Comitê - abriria uma exceção: após sair da Grécia, a Tocha passaria pela Suíça, onde ficaria alguns dias exposta na sede do COI, no Museu Olímpico (ambos em Lausanne) e no Escritório das Nações Unidas em Genebra, antes de partir para o revezamento propriamente dito, que percorreria nada menos que 328 cidades brasileiras, incluindo a capital federal, Brasília, e as capitais dos outros 25 estados. Como de costume, a Tocha chegaria ao Maracanã no momento da Cerimônia de Abertura, entrando no estádio pelas mãos de Gustavo Kuerten, o Guga, tenista tricampeão do Aberto da França, em Roland Garros. Guga passaria a Tocha para Hortência Marcari, campeã mundial de basquete em 1994 e considerada por muitos como a maior jogadora de basquete da história do Brasil, que, por sua vez, a passaria a Vanderlei Cordeiro de Lima, maratonista que, nos Jogos Olímpicos de 2004, foi atacado durante a prova pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan, mas, mesmo assim, concluiu a prova em terceiro lugar, ganhando uma Medalha de Bronze. Coube a Vanderlei a honra de acender a Pira, em uma homenagem mais que justa a seu espírito olímpico - após a cerimônia, chegou-se a noticiar que, na verdade, quem acenderia a Pira seria Pelé, tricampeão mundial de futebol e considerado por muitos como o maior jogador de futebol da história do planeta, que teria declinado do convite por motivos de saúde, mas essas notícias não foram confirmadas.

Os Jogos do Rio de Janeiro seriam realizados entre 5 e 21 de agosto de 2016 - o que fez com que essa fosse a primeira edição de uma Olimpíada de Verão integralmente disputada durante o inverno - e estabeleceriam um novo recorde no número de atletas participantes, nada menos que 11.238, representando 207 delegações. Dentre elas, uma grande novidade: pela primeira vez, competiu em uma Olimpíada o Time Olímpico de Refugiados, composto por dez atletas que tiveram de fugir de seus países de origem e buscar abrigo em outras nações devido à guerra, à fome ou à perseguição étnica, política ou religiosa. Esses atletas competiram não sob a bandeira de seu país de origem ou do país que os acolheu, mas sob a bandeira dos anéis olímpicos, principalmente para que não contassem para o limite de atletas por prova nem do país de origem, nem do que os acolheu. Faziam parte do Time Olímpico de Refugiados cinco atletas do Sudão do Sul (acolhidos pelo Quênia), um da Etiópia (acolhido por Luxemburgo), dois da República Democrática do Congo (acolhidos pelo Brasil) e dois da Síria (um acolhido pela Bélgica, um pela Alemanha).

É importante não confundir o Time Olímpico de Refugiados com a equipe dos Participantes Independentes, que, no Rio de Janeiro, fez sua quinta aparição (as outras foram em 1992, 2000, 2012 e nas Olimpíadas de Inverno de 2014), dessa vez sendo composto por nove atletas do Kuwait, cujo comitê olímpico estava suspenso por interferência governamental, que obtiveram autorização para competir sob a bandeira dos anéis olímpicos. Os Participantes Independentes ganhariam no Rio de Janeiro sua primeira Medalha de Ouro na história dos Jogos, com Fehaid Al-Deehani na fossa dublê masculina, além de uma medalha de bronze com Abdullah Al-Rashidi no skeet masculino, ambas provas do tiro; como não podia ser tocado o hino do Kuwait, no pódio de Al-Deehani foi tocado o hino olímpico.

Uma das principais delegações do Jogos por pouco não ficou de fora dessa edição: às vésperas das Olimpíadas, em dezembro de 2014, começaram a surgir indícios de que havia um grande esquema de doping, com participação do governo, dentre os atletas da Rússia. Quase um ano depois, em novembro de 2015, a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) suspenderia a Rússia de todas as competições internacionais desse esporte, alegando não ser possível verificar se os atletas russos estavam competindo dopados ou não. Após denúncias de que houve um grande esquema governamental para acobertar doping que levaria a Rússia ao topo do quadro de medalhas das Olimpíadas de Inverno de 2014, realizadas em Sochi, naquele país, a Agência Mundial Anti-Doping (WADA) decidiria realizar vários testes e investigações para chegar ao fundo da questão, mas se veria impedida por membros do governo russo, que dificultariam as investigações de propósito e intimidariam os agentes da WADA. Diante disso, a WADA descredenciaria o laboratório russo responsável por testes anti-doping naquele país, e recomendaria ao COI que a Rússia fosse impedida de participar dos Jogos de 2016.

O COI, segundo muitos de forma política, optaria por não banir a Rússia, e sim deixar a decisão nas mãos de cada federação internacional separadamente. Com isso, atletas do levantamento de peso, não somente da Rússia, mas também do Azerbaijão, Romênia, Uzbequistão, Belarus, Moldova e Coreia do Norte, além da delegação inteira da Bulgária nesse esporte, seriam proibidos de competir no Rio de Janeiro pela Federação Internacional de Levantamento de Peso; e a Federação Internacional de Canoagem suspenderia as delegações completas de Romênia e Belarus. A IAAF seguiria com sua proibição, o que significou que nenhum atleta russo do atletismo pôde competir no Rio de Janeiro, nem mesmo a supercampeã Yelena Isinbayeva, que, assim, se viu impedida de participar de sua quarta Olimpíada. Isinbayeva chegou a sugerir que atletas que nunca tivessem testado positivo para doping na vida, como ela mesma, fossem liberados pela IAAF para participar, mas o órgão não aceitou seus argumentos. Apenas uma única atleta russa conseguiu competir no atletismo em 2016, Darya Klishina, do salto em distância, que recorreu à Corte Arbitral do Esporte alegando que morava nos Estados Unidos há 15 anos, e que sempre foi testada pelos laboratórios anti-doping norte-americanos, nunca pelos russos, e jamais testou positivo. No fim, a Rússia pôde participar dos Jogos, mas com um grande baque: dos 393 atletas classificados para as Olimpíadas, 111 seriam vetados por suas respectivas federações internacionais.

O mascote dessa edição seria Vinicius, cujo nome, em homenagem ao poeta, cantor e compositor Vinicius de Moraes, seria escolhido através de um concurso, que também escolheria o nome Tom, em homenagem ao cantor e compositor Tom Jobim, para o mascote das Paralimpíadas. Criado para representar toda a fauna brasileira, e que parecia uma mistura de gato, macaco e arara, com as cores da bandeira nacional, Vinicius seria um grande sucesso, principalmente por causa de seus fofíssimos bichinhos de pelúcia - em alguns esportes, como na luta olímpica, os bichinhos foram entregues aos técnicos para que eles os jogassem na direção do árbitro quando quisessem pedir desafio - e do bom humor dos voluntários que se vestiam como ele para animar a torcida, sempre com danças criativas que chamavam a atenção de todos.

O programa das Olimpíadas de 2016 contaria com 306 competições de 35 esportes: atletismo, badminton, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, equitação, esgrima, futebol, ginástica artística, ginástica rítmica, golfe, handebol, hóquei, judô, levantamento de peso, luta greco-romana, luta livre, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, pólo aquático, remo, rugby, saltos ornamentais, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro, tiro com arco, trampolim acrobático, triatlo, vela, vôlei e vôlei de praia. Ausente do programa desde 1924, o rugby retornaria não em sua versão tradicional, com 15 jogadores de cada lado, e sim com o rugby sevens, formato que conta com apenas sete jogadores de cada lado e no qual cada partida conta com apenas dois tempos de sete minutos cada (por isso o nome "sevens", que significa "setes" em inglês); esse formato permitiu que vários jogos fossem realizados em um único dia, condensando o torneio, diminuindo o número de instalações usadas (de fato, apenas uma, um estádio temporário construído em Deodoro) e permitindo que o número de atletas ainda se mantivesse dentro do aceitável (afinal, cada time tinha menos da metade de jogadores que teria se fosse o rugby union). Outro esporte que retornou depois de uma longa ausência, e põe longa nisso, foi o golfe, que havia aparecido no programa olímpico pela última vez, acreditem ou não, em 1904, mais de cem anos antes. Tanto o rugby quanto o golfe tiveram torneios masculinos e femininos, algo pouco provável de ocorrer na última vez em que estiveram nos Jogos.

O Brasil, com uma delegação de 465 atletas - a segunda maior, atrás apenas dos Estados Unidos, com 554 - estabeleceria uma meta ambiciosa: terminar os Jogos dentre os dez primeiros no quadro de medalhas. A meta não seria alcançada por pouco - o país terminaria na 13a posição - mas o Brasil bateria, em casa, tanto seu recorde de medalhas em uma única edição dos Jogos quanto o recorde de Medalhas de Ouro em uma única edição dos Jogos, terminando a competição com 7 ouros, 6 pratas e 6 bronzes, para um total de 19 medalhas (o recorde anterior era de 17 medalhas, em 2008 e 2012, e o de ouros era de 5, em 2004).

Uma das medalhas mais comemoradas do Brasil, sem dúvida, seria o ouro no futebol masculino, único título de expressão nesse esporte que o país ainda não havia conquistado - e com um tempero especial: a final, disputada no Maracanã, seria contra a Alemanha, que, dois anos antes, na Copa do Mundo, eliminou o Brasil, em casa, com um fragoroso 7 a 1. Tudo bem que o 7 a 1 não foi devolvido na final, que não eram os times principais (já que, nos times olímpicos, à exceção de três, os jogadores devem ter menos de 23 anos) e que a Medalha de Ouro foi decidida nos pênaltis, após empate de 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação - aliás, no último pênalti, perdido pelo jogador da Alemanha - mas, mesmo assim, pode-se dizer que essa Medalha de Ouro tirou um peso das costas do torcedor brasileiro. No futebol feminino, no mesmo Maracanã, a sorte não sorriria para o Brasil, que seria derrotado, também nos pênaltis, nas semifinais, pela Suécia; na disputa do Bronze, um time apático perderia para o Canadá e ficaria sem medalhas. O ouro no feminino ficaria, ora vejam só, com a Alemanha.

Muito mais emocionante que o ouro no futebol, entretanto, foi a Medalha de Ouro conquistada por Rafaela Silva na categoria até 57 kg do judô. Quatro anos antes, em Londres, Rafaela havia sido desclassificada por uso de golpe ilegal, e se tornado vítima de ataques racistas e misóginos. No Rio de Janeiro, competindo em casa, ela venceria categoricamente todos os seus oponentes, conquistando seu ouro sem que pairasse a menor sombra de dúvida sobre seu talento e determinação. Além do ouro de Rafaela, o Brasil conseguiria dois bronzes no judô, com Mayra Aguiar, categoria 78 kg, e Rafael Silva, o Baby, categoria acima de 100 kg.

O ouro mais inesperado de todos viria do atletismo, mais precisamente do salto com vara: o jovem Thiago Braz surpreenderia a todos os favoritos, inclusive o recordista olímpico, mundial e detentor da melhor marca do ano, o francês Renaud Lavillenie, e saltaria 6,03 m, novo recorde olímpico, para ficar com o ouro, deixando Lavillenie com a prata - posteriormente, Lavillenie, demonstrando falta de espírito olímpico, diria que só perdeu a prova porque a torcida brasileira era muito mal-educada e impedia sua concentração. Por outro lado, a maior esperança de medalhas do Brasil no salto com vara, Fabiana Murer, se recuperando de lesão, não saltaria nem a primeira marca, de 4,15 m, se despedindo da prova prematuramente.

Algo semelhante ocorreria no vôlei: todas as apostas quanto à Medalha de Ouro eram feitas no time feminino, atual bicampeão olímpico e um dos melhores times do mundo, mas que perderia nas quartas de final para uma China extremamente focada e talentosa, que acabaria chegando ao ouro. Já o vôlei masculino, passando por um momento de transição, e às vésperas da aposentadoria da seleção do técnico multicampeão Bernardinho, era visto como zebra, mesmo jogando em casa. O fato de o Brasil ter perdido para Estados Unidos e Itália na fase de grupos, e de ter perdido um set em cada um dos três jogos que ganhou, se classificando na bacia das almas em quarto lugar, não ajudou muito no panorama geral. A partir das quartas de final, porém, o Brasil foi ganhando volume de jogo, até chegar a uma final na qual derrotou a Itália com um indiscutível três sets a zero, conquistando mais uma medalha de ouro.

No outro vôlei, o de praia, o Brasil conseguiria um ouro e uma prata. O ouro viria no masculino, com Alison e Bruno Schmidt, e a prata no feminino, com Ágata e Bárbara. Na vela, classe 49er FX, Martine Grael e Kahena Kunze conseguiriam uma medalha de ouro emocionante, em uma disputa apertadíssima contra o barco da Nova Zelândia. E a sétima Medalha de Ouro do Brasil seria a primeira em um dos esportes mais populares das Olimpíadas, o boxe, no qual Robson Conceição, categoria leves, lutou com muito talento e concentração até alcançar o lugar mais alto do pódio.

Mesmo sem ouro, um atleta que merece destaque é Isaquias Queiroz, que ganhou nada menos que três medalhas, duas pratas e um bronze, na canoagem - o bronze no C1 200 m, uma das pratas no C1 1000 m, e a outra em dupla com Erlon Silva no C2 1000 m. Nascido em Ubaitaba, um município pobre do interior da Bahia, e sequestrado aos cinco anos de idade para ser vendido - sendo resgatado por sua própria mãe antes que a transação fosse concretizada - Isaquias ainda havia perdido um rim ao cair de uma árvore, e parte do dedo anelar esquerdo cortando um coco no alto de um coqueiro. Após descobrir a canoagem na adolescência, ele se tornaria o primeiro brasileiro a ganhar um ouro no Mundial de Canoagem, e seria destaque nas Olimpíadas não somente por seu desempenho, mas também por sua simpatia.

Na natação, a única medalha do Brasil foi um bronze de Poliana Okimoto na maratona aquática 10 km - na verdade, ela chegou em quarto, mas herdou a medalha porque a que chegou em segundo, a francesa Aurélie Muller, quase afogou a italiana Rachele Bruni, originalmente terceira, para bater sua mão primeiro, sendo desclassificada. No tiro, após quase cem anos, o Brasil voltou a ganhar uma medalha, prata com Felipe Wu na pistola de ar 10 m. Maicon Siqueira ganharia uma medalha inédita no taekwondo, um bronze. E as outras três medalhas do Brasil viriam da ginástica olímpica: Arthur Zanetti, ouro em Londres, seria prata nas argolas, e Diego Hypólito seria prata e Arthur Mariano bronze no solo.

Os Jogos de 2016 tiveram um recorde de 87 delegações ganhando pelo menos uma medalha cada, e um recorde de 59 delegações ganhando pelo menos uma medalha de ouro cada. Nada menos que dez delegações ganharam no Rio de Janeiro sua primeira medalha de ouro (outro recorde): os já citados Participantes Independentes e mais Kosovo, Fiji, Cingapura, Vietnã, Bahrein, Porto Rico, Jordânia, Tajiquistão e Costa do Marfim, sendo que, no caso de Kosovo, Fiji e Jordânia, foi a primeira medalha de qualquer cor - o estreante Kosovo já entraria em sua primeira Olimpíada com um ouro no judô feminino, categoria 52 kg, com Majlinda Kelmendi; a Jordânia, em sua décima participação, levaria um ouro no taekwondo masculino, com Ahmad Abu-Ghaush, categoria 68 kg; e Fiji, após outras 13 participações em branco, levaria o ouro no rugby masculino.

O que não foi novidade nenhuma foram os Estados Unidos terminando no topo do quadro de medalhas, pela quinta vez nas seis últimas Olimpíadas. Ainda o maior nome da delegação norte-americana, Michael Phelps, já próximo da aposentadoria, não seria tão arrebatador quanto nas edições anteriores, mas ainda assim levaria o ouro nos 200 m borboleta e nos 200 m medley, além de fazer parte da equipe que levou o ouro nos revezamentos 4 x 100 m e 4 x 200 m livre e 4 x 100 m medley, e de uma medalha de prata nos 100 m borboleta. A natação, aliás, seria o esporte que renderia mais ouros aos Estados Unidos: Ryan Murphy levaria dois, nos 100 m e nos 200 m costas; Anthony Erwin surpreenderia e ganharia os 50 m livre; o fenômeno Katie Ledecky, 19 anos, levaria três, nos 200 m, 400 m e 800 m livre; Maya DiRado (200 m costas), Lilly King (100 m costas) e Simone Manuel (100 m livre) levariam uma cada; e o revezamento feminino levaria o 4 x 100 m e o 4 x 200 m livre, para um total de 16. O atletismo viria em segundo com 13, incluindo os revezamentos 4 x 100 m e 4 x 400 m femininos e o 4 x 400 m masculino. Os norte-americanos também levariam o ouro no basquete masculino e feminino, no polo aquático feminino, no boxe feminino, categoria médios, com Claressa Shields, e no judô feminino, categoria 78 kg, com Kayla Harrison, dentre outros.

A maior revelação da delegação norte-americana foi a ginasta Simone Biles. Assim como Isaquias, ela teve uma infância difícil, com uma mãe alcóolatra e um pai que abandonou a família, e viu no esporte a chance de uma vida melhor. No Rio de Janeiro, ela ganharia nada menos que quatro ouros, no salto, no solo, nos exercícios combinados e nos exercícios combinados por equipes, se tornando a primeira ginasta norte-americana a conseguir tal feito, além de um bronze na trave de equilíbrio.

No atletismo, o destaque não poderia ter sido outro: Usain Bolt. Em sua terceira Olimpíada, o jamaicano mais uma vez mostrou estar no topo do mundo, e conquistou mais três medalhas de ouro para sua coleção, nos 100 m, 200 m e revezamento 4 x 100 m. No feminino, a também jamaicana Elaine Thompson quase repetiu a proeza, levando o ouro nos 100 m e nos 200 m, mas a prata no revezamento 4 x 100 m. Outros destaques no atletismo foram o britânico Mo Farah, ouro nos 5.000 m e 10.000 m; o sul-africano Wayde van Niekerk, que, sem estar dentre os favoritos, surpreendeu e levou o ouro dos 400 m, quebrando um recorde mundial que o norte-americano Michael Johnson havia estabelecido em 1999; e a belga Nafissatou Thiam, que, também sem estar dentre as favoritas, abiscoitou o ouro do heptatlo.

Já na natação, tirando os norte-americanos, o maior destaque foi a húngara Katinka Hosszú, ouro nos 100 m costas, 200 m medley e 400 m medley, esse último com recorde mundial, além de prata nos 200 m costas. A sueca Sarah Sjöström quebraria o recorde mundial e levaria o ouro nos 100 m borboleta, além de ficar com a prata nos 200 m livre e o bronze nos 100 m livre - nos 100 m livre, aliás, ocorreria um raro empate na medalha de ouro, com a norte-americana Simone Manuel e a canadense Penny Oleksiak, de apenas 16 anos, fazendo o exato mesmo tempo e ganhando um ouro cada uma. Algo semelhante ocorreria nos 100 m borboleta masculino: o ouro ficaria com Joseph Schooling, de Cingapura, a primeira medalha de ouro de seu país, enquanto o norte-americano Michael Phelps, o sul-africano Chad le Clos e o húngaro László Cseh fizeram o exato mesmo tempo e ganharam uma prata cada um.

No retorno do golfe, o ouro no masculino ficaria com o britânico Justin Rose, e o do feminino com a sul-coreana Inbee Park. No rugby, além do já citado ouro masculino de Fiji, teríamos uma final feminina bem tradicional entre Austrália e Nova Zelândia, com o ouro ficando com as australianas. No tênis, o ouro masculino seria do britânico Andy Murray, que fez a final contra o argentino Juan Martin del Potro; no feminino, Monica Puig, de Porto Rico, ganharia a primeira medalha de ouro da história de seu país; nas duplas masculinas, ouro para a Espanha, com Marc López e Rafael Nadal; nas duplas femininas, para a Rússia, com Ekaterina Makarova e Elena Vesnina, que derrotariam as suíças Timea Bacsinszky e Martina Hingis na final; e, nas duplas mistas, uma final entre duas duplas dos Estados Unidos, mas com a dupla favorita, composta por Venus Williams e Rajeev Ram, ficando com a prata, e o ouro indo para Bethanie Mattek-Sands e Jack Sock - as irmãs Williams, aliás, nas duplas femininas, perderiam logo em seu jogo de estreia, para as tchecas Lucie Safárová e Barbora Strycová, que terminariam o torneio com o bronze.

Dentre os momentos inusitados, podemos citar a lutadora Risako Kawai, que, ao ganhar o ouro na luta livre feminina, categoria 63 kg, decidiu comemorar derrubando seu próprio treinador com um golpe surpresa - o Japão, vale citar, dominou a luta livre feminina, ganhando quatro dos seis ouros em disputa e ainda uma prata. No revezamento 4 x 100 m masculino do atletismo, o time dos Estados Unidos, favorito ao ouro, seria desclassificado por deixar o bastão cair em uma das passagens; em compensação, nos 100 m com barreiras feminino, os Estados Unidos seriam ouro, prata e bronze, com Brianna Rollins, Nia Ali e Kristi Castlin, respectivamente. No triatlo masculino, o ouro ficaria com Alistair Brownlee, do Reino Unido, e a prata com seu irmão, Jonathan Brownlee. E, para ganhar a medalha de ouro nos 400 m feminino do atletismo, Shaunae Miller, de Bahamas, até então lado a lado com a norte-americana Allyson Felix, se jogou no chão próxima à linha de chegada - na entrevista após a prova, ela diria que não foi planejado, e que suas pernas não aguentaram; de qualquer forma, funcionou, pois ela ganhou por sete centésimos de segundo.

Pyeongchang 2018

Ninguém pode dizer que Pyeongchang não é uma cidade persistente: após se candidatar duas vezes e perder, em 2010 para Vancouver, em 2014 para Sochi, a cidade decidiria se candidatar pela terceira vez seguida - na primeira vez em que alguém tentou isso - e acabaria recompensada. A pequena cidade na Coreia do Sul derrotaria a gigantesca Munique, na Alemanha, que tentava se tornar a primeira cidade a sediar uma Olimpíada de Verão e uma de Inverno, e a pequenina Annecy, na França, para se tornar a terceira cidade asiática a sediar uma Olimpíada de Inverno, depois das japonesas Sapporo, em 1972, e Nagano, em 1998. Na época ainda não se sabia, mas Pyeongchang inauguraria uma trinca de Olimpíadas no extremo oriente: depois dela, teremos as Olimpíadas de 2020 em Tóquio, Japão, e as Olimpíadas de Inverno de 2022 em Pequim, China - que, aí sim, se tornará a primeira cidade a sediar uma Olimpíada de Verão e uma de Inverno.

Apesar de pequena, Pyeongchang conta com um dos mais famosos resorts de esqui da Coreia do Sul, o Alpensia Sports Park, no qual seriam realizadas as competições de esqui alpino, esqui cross-country, saltos com esqui, combinado nórdico, biatlo e snowboarding. Dentro dos limites do Alpensia, seriam construídos a Vila Olímpica, o Estádio Olímpico - em forma de pentágono, para simbolizar os cinco anéis olímpicos - e uma pista de trenó para as competições de bobsleding, luge e skeleton; o Estádio Olímpico, usado apenas para as Cerimônias de Abertura e Encerramento, após o fim dos Jogos seria desmontado e seus componentes reaproveitados em outras instalações esportivas do país, mas a pista de trenó será permanente, se tornando a primeira desse tipo na Coreia do Sul e a apenas a segunda em toda a Ásia - a outra fica em Nagano, e foi construída para as Olimpíadas de Inverno de 1998; para quem não sabe, a manutenção de uma pista permanente é caríssima, então é normal que elas sejam temporárias, sendo desmontadas após o final da competição a que se destinam. As competições do esqui estilo livre a algumas provas do snowboarding ocorreriam em outro resort, o Bogwang Phoenix Park, também em Pyeongchang, e algumas do esqui alpino seriam realizadas no Jeongseon Alpine Centre, na cidade vizinha de Jeongseon. Já as instalações do hóquei no gelo, curling e patinação, por opção do Comitê Organizador Local, não seriam construídas em Pyeongchang, e sim na cidade vizinha de Gangneung, uma cidade costeira e turística, que ganharia um moderno Parque Olímpico para ser adicionado às suas atrações.

Uma das principais preocupações da comunidade internacional quanto à realização de uma Olimpíada de Inverno em Pyeongchang era a crescente tensão no relacionamento entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos - localizada ao norte da Coreia do Sul, Pyeongchang fica relativamente próxima à fronteira, e poderia ser um alvo de um ataque norte-coreano. Surpreendentemente, entretanto, o governo norte-coreano se mostrou bastante favorável não somente à realização dos Jogos em seu vizinho, mas também a uma maior integração entre as duas Coreias durante a competição. Acordos foram firmados não somente para que ambas as delegações coreanas desfilassem juntas na Cerimônia de Abertura, da mesma forma que ocorreu nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, sob uma bandeira branca com o mapa das duas Coreias, unidas, em azul claro, mas também para que o time feminino de hóquei no gelo fosse uma equipe mista, composta por atletas tanto da Coreia do Sul quanto da Coreia do Norte, e competindo sob essa mesma bandeira - não sei se chegaram a combinar qual hino tocaria em caso de Medalha de Ouro, mas, como isso era extremamente improvável, talvez não.

A integração entre as Coreias seria responsável por dois momentos emocionantes na Cerimônia de Abertura: o primeiro, o desfile da delegação conjunta; o segundo, uma das passagens da Tocha. Como de costume, o revezamento começaria na Grécia e depois seguiria para a Coreia do Sul, onde visitaria 80 cidades antes de entrar no Estádio Olímpico. Lá, a golfista Inbee Park, medalha de ouro no golfe feminino em 2016, a passaria não para uma, mas para duas atletas: a sul-coreana Park Jong-ah e a norte-coreana Chung Su-hyon, ambas da recém-formada equipe de hóquei no gelo. As duas subiriam ovacionadas a escada que levava à Pira, e, por um momento, alguns até imaginaram que seriam elas a acendê-la, mas elas a passariam a Yuna Kim, uma verdadeira lenda da patinação artística. Kim realmente merecia acender a Pira Olímpica, mas foram Park e Chung que roubaram a cena.

Os Jogos de Pyeongchang seriam realizados entre 9 e 25 de fevereiro de 2018, e contariam com 102 competições de 15 esportes: biatlo, bobsleding, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui cross country, esqui estilo livre, hóquei no gelo, luge, patinação artística no gelo, patinação no gelo em velocidade, patinação no gelo em velocidade em pista curta, saltos com esqui, skeleton e snowboarding. Visando atrair mais público, principalmente o público jovem, o COI incluiria quatro modalidades novas em relação a 2014: a prova do big air no snowboarding, a de largada em massa na patinação de velocidade, um torneio de equipes mistas no esqui alpino e o torneio de duplas mistas do curling. Ao todo, participariam 2.922 atletas de 92 delegações, incluindo seis estreantes: Equador, Eritreia, Nigéria, Cingapura, Malásia e Kosovo. Assim como em 1988, em Seul, o mascote dos Jogos de Pyeongchang seria um tigre, mas dessa vez um tigre branco, chamado Soohorang.

Após o escândalo de doping governamental da Rússia nas Olimpíadas de Inverno de 2014, o COI decidiu seguir a recomendação da WADA e suspender a delegação inteira do país para 2018. A suspensão, porém, teve uma brecha: atletas que conseguissem provar estar "limpos", por jamais terem testado positivo em um antidoping e passarem por um rigoroso controle estabelecido pelo COI poderiam competir normalmente, mas sem representar a Rússia; esses atletas fariam parte de uma delegação conhecida como Atletas Olímpicos da Rússia, que, assim como os Participantes Independentes (que não estariam presentes nessa edição) competiria sob a bandeira dos anéis olímpicos, e ouviriam o hino olímpico caso ganhassem alguma medalha de ouro. Ao todo, a delegação dos Atletas Olímpicos da Rússia contaria com 168 atletas, que ganhariam duas medalhas de ouro (o time masculino de hóquei no gelo e Alina Zagitova na patinação artística individual feminina), seis de prata e nove de bronze; o controle do COI, porém, se mostraria não tão rigoroso assim, já que, originalmente, eram dez medalhas de bronze, mas Alexander Krushelnitskiy, das duplas mistas do curling, testaria positivo para uma substância proibida, o que custaria a medalha que ele havia ganhado junto com sua esposa Anastasia Bryzgalova - que testou negativo. Outra atleta russa, Nadezhda Sergeeva, do bobsleding, também testou positivo, mas, como o trenó pilotado por ela acabou a prova em 12o lugar, isso não influenciou o quadro de medalhas.

O Brasil se faria presente com nove atletas, sendo seis homens e três mulheres - as veteranas Jaqueline Mourão, do esqui cross country, em nada menos que sua sexta Olimpíada, e Isabel Clark, do snowboarding, em sua quarta participação; e a quase novata Isadora Williams, da patinação artística, competindo pela segunda vez nos Jogos. Após sua primeira apresentação no torneio individual feminino, com a qual se tornou a primeira atleta sul-americana a chegar a uma final olímpica da patinação artística, Isadora passou a ser a principal esperança do Brasil em conseguir que um atleta do país fique dentre os oito primeiros em uma prova - a melhor posição já alcançada por um brasileiro nas Olimpíadas de Inverno foi um nono lugar obtido por Isabel no snowboard cross em 2006 - mas uma queda na apresentação da final acabou com suas chances. Além de Isadora, o principal destaque do Brasil foi o bobsleding, no qual o país participou pela primeira vez com um trenó de duplas, terminando em 27o, e competiu pela primeira vez no trenó de quatro ocupantes com um trenó próprio - até então, competia com um alugado ou emprestado por outra delegação - terminando na 23a posição.

O maior destaque dos Jogos de 2018 seria a norueguesa Marit Bjørgen, que, antes de a competição começar, já era a atleta feminina com o maior número de medalhas em uma Olimpíadas de Inverno. Em 2018, aos 37 anos e em sua quinta Olimpíada, a atleta do esqui cross country ganharia um bronze no sprint por esquipes e o ouro nos 30 km, levando seu número total de medalhas para 15, superando o compatriota Ole Einar Bjørndalen, que tem 13, e se tornando a maior medalhista da história das Olimpíadas de Inverno. O ouro de Bjørgen nos 30 km também ajudaria a Noruega a conquistar outro recorde, o de 39 medalhas em uma mesma edição das Olimpíadas de Inverno, superando as 37 que os Estados Unidos haviam obtido em Vancouver, 2010.

Outro atleta com um recorde de respeito seria o japonês Noriaki Kasai, dos saltos com esqui, que, em Pyeongchang, aos 45 anos, participaria de nada menos que sua oitava Olimpíada - sua primeira participação foi em Lillehammer, em 1994, aos 22 anos. Já o holandês Sven Kramer, ouro nos 5.000 m da patinação em velocidade, se tornaria o primeiro atleta na história a ganhar a mesma prova em três edições das Olimpíadas de Inverno, com as outras duas tendo sido conquistadas em 2010 e 2014. Sua compatriota Ireen Wüst, também da patinação em velocidade, iria ainda mais longe, se tornando a primeira atleta a conquistar medalhas de ouro em quatro edições seguidas das Olimpíadas de Inverno: a seus ouros nos 3.000 m em Turim 2006, 1.500 m em Vancouver 2010, e 3.000 m e perseguição por equipes em Sochi 2014, ela adicionaria o dos 1.500 m em Pyeongchang - onde também seria prata nos 3.000 m e na perseguição por equipes. A Holanda, aliás, dominaria a patinação em velocidade, conquistando nada menos que a metade dos ouros em disputa - 7 dos 14 - além quatro pratas e cinco bronzes - incluindo um pódio completo na prova feminina dos 3.000 m, com Carlijn Achtereekte, Ireen Wüst e Antoinette de Jong - terminando com dez medalhas a mais que o segundo colocado Japão nesse esporte.

Teríamos em 2018 duas atletas polivalentes: a holandesa Jorien ter Mors se tornaria a primeira atleta a ganhar medalhas em provas de dois esportes diferentes em uma mesma edição das Olimpíadas de Inverno, após conquistar o ouro nos 1.000 m da patinação em velocidade e o bronze no revezamento 3.000 m da patinação em velocidade em pista curta. Quatro dias depois, a tcheca Ester Ledecká roubaria para si os holofotes ao se tornar a primeira atleta a conquistar Medalhas de Ouro em dois esportes diferentes em uma mesma Olimpíada de Inverno, no slalom gigante paralelo do snowboarding e no slalom super gigante do esqui alpino - detalhe: com esquis emprestados pela norte-americana Mikaela Shiffrin, e por um centésimo de segundo sobre a segunda colocada, a austríaca Anna Veith. Ledecká surpreenderia a todos ao aparecer para a entrevista coletiva após a prova de óculos escuros - segundo ela, porque não imaginava que iria ganhar, então não havia se maquiado antes da prova.

No bobsleding, a Alemanha conquistaria as três medalhas de ouro, no trenó de dois e no de quatro lugares masculino e no trenó de dois lugares feminino; nas provas masculinas, porém, ocorreriam acontecimentos inusitados: na prova do trenó de quatro lugares, haveria um empate pela prata, com o segundo trenó da Alemanha e o trenó da Coreia do Sul fazendo exatamente o mesmo tempo e ganhando uma prata cada um. Já na prova do trenó de dois lugares, o empate seria pela medalha de ouro, com os trenós da Alemanha e do Canadá fazendo o exato mesmo tempo e ganhando um ouro cada um. O domínio alemão também se faria no luge, onde o país ganharia três dos quatro ouros em disputa, no individual feminino, nas duplas masculinas e na prova do revezamento, com o ouro do individual masculino ficando com o austríaco David Gleirscher.

No curling, teríamos surpresas tanto no torneio masculino quanto no feminino. No masculino, os Estados Unidos ganhariam a primeira medalha de ouro de sua história nesse esporte ao derrotar a favorita Suécia na final, ficando a Suíça com o bronze. Já no feminino, o ouro não foi surpresa nenhuma, ficando com a Suécia, mas o restante do pódio sim: a prata ficaria com a Coreia do Sul, que chegaria pela primeira vez em sua história a uma final de um torneio internacional, e o bronze ficaria com o Japão, que derrotaria a Grã-Bretanha capitaneada por Eve Muirhead, considerada uma das maiores jogadoras de curling do planeta. Na estreia do torneio de duplas mistas, o ouro iria para o Canadá, a prata para a Suíça, e o bronze para a Noruega - que originalmente havia perdido a disputa dessa medalha para os Atletas Olímpicos da Rússia, posteriormente desclassificados por doping.

No hóquei no gelo feminino, o "time das Coreias" de fato não conseguiu ir muito longe, perdendo seus três jogos na fase de grupos - mas anotando um gol, contra o Japão, marcado por Randi Griffin, que é filha de uma sul-coreana com um norte-americano, e nasceu nos Estados Unidos. Estados Unidos que, aliás, surpreenderiam, derrotando o Canadá na final, algo que não ocorria desde 1998, em Nagano - talvez provando que o gelo da Ásia faça bem para as norte-americanas. No masculino, graças a um posicionamento da NHL (a liga norte-americana de hóquei no gelo, talvez o mais forte campeonato desse esporte no mundo), que proibiu os atletas que têm contrato com seus times de disputar as Olimpíadas de Inverno, alegando que, se eles se contundissem, a NHL é que sairia prejudicada, os Estados Unidos não passariam nem da fase de grupos, na qual teriam uma vitória e duas derrotas, terminando em terceiro em seu grupo. O Canadá, também bastante prejudicado, seria derrotado nas semifinais, e ficaria com a medalha de bronze. Com a maioria de seus jogadores atuando na KHL, a liga russa, para alguns a segunda mais forte do planeta depois da NHL, os Atletas Olímpicos da Rússia estreariam com derrota para a Eslováquia, mas depois não tomariam conhecimento de seus oponentes até chegarem à final contra uma surpreendente Alemanha, ganhando o ouro na prorrogação.

No snowboarding, tivemos momentos inusitados, dentre os quais podemos citar o austríaco Markus Schairer, do snowboard cross, que, na final, sofreu uma queda que fraturou sua quinta vértebra, mas conseguiu se levantar e terminar a prova em quarto lugar, se tornando, talvez, o primeiro atleta a concluir uma prova olímpica depois de quebrar o pescoço. Já o norte-americano Red Gerard, de apenas 17 anos, acordou atrasado no dia da final, perdeu sua jaqueta no meio do caminho para a prova, falou um palavrão ao vivo ao ser entrevistado para a TV de seu país, e, depois disso tudo, ganhou a primeira medalha de ouro dos Estados Unidos em 2018, na prova do slopestyle. Na prova do halfpipe, outro norte-americano, Shaun White, um dos maiores nomes do esporte, medalha de ouro em 2006 e 2010, mas que ficou fora do pódio em 2014, teve uma atuação impecável para ganhar o terceiro ouro de sua carreira.

Falando em halfpipe, uma das personagens mais controversas de 2018 seria Elizabeth Swaney, do esqui estilo livre. Nascida nos Estados Unidos, onde viveu sua vida inteira, Swaney tinha o sonho de participar de uma Olimpíada, e chegou a praticar remo na Universidade, sem, jamais, entretanto, conseguir resultados expressivos. Após se formar, ela decidiria tentar as Olimpíadas de Inverno, e tentaria praticar bobsleding, sendo sempre desencorajada por ser pequena e leve demais para esse esporte. Swaney então passaria para o skeleton, mas, sabendo que provavelmente jamais conseguiria derrotar as principais atletas norte-americanas, ela decidiria competir pela Venezuela, país no qual nasceu sua mãe. Como também não conseguir se classificar para uma Olimpíada de Inverno no skeleton pela Venezuela, ela passaria para o esqui cross country, que tinha um sistema de classificação mais simples - mas, sem obter nenhum resultado expressivo, também não conseguiu.

Swaney, então, descobriu uma espécie de porta dos fundos para o sonho olímpico: para se classificar no esqui estilo livre, um atleta precisa estar dentre os 30 primeiros no ranking de sua modalidade no ano anterior ao da Olimpíada de Inverno, e ter somado no mínimo 50.000 pontos - atribuídos de acordo com sua classificação em torneios internacionais - ao longo de sua carreira. Para que não haja muitos atletas de um mesmo país na mesma competição, há uma "cota" de 26 atletas por país, sendo no máximo 14 no masculino e 14 no feminino, somando todas as modalidades do esqui estilo livre. Swaney escolheria o halfpipe, modalidade que ainda tem poucas competidoras no feminino, e começaria, em 2013, a competir pela Hungria, país de onde vieram seus avós maternos. Ela conseguiria os 50.000 pontos competindo apenas em torneios com poucos participantes - chegou a competir em um, na China, com apenas 15 - o que garantia que ela, se não caísse, conseguisse uma boa colocação. Com essa estratégia, na data-limite para a seleção olímpica, ela estava na 34a posição - mas havia mais atletas dos Estados Unidos que as permitidas pela cota, e ela era a única "húngara", ou seja, após os cortes, Swaney, aos 33 anos, finalmente estava classificada para uma Olimpíada.

Acontece, porém, que ela não é uma esquiadora de halfpipe profissional - de fato, ela sabe fazer apenas as manobras mais básicas, somente o suficiente para ter ganhado os pontos na classificação. Assim, no dia da qualificatória em Pyeongchang, ela apenas desfilou pela pista, subindo e descendo sem realizar manobra nenhuma, ganhando a nota mínima possível e terminando em último lugar. Sua participação deu origem a um debate, no qual um grupo passou a defender que sua estratégia foi anti-ética, que somente aos melhores atletas poderia ser permitido participar de uma Olimpíada, e que sua classificação tirou o lugar de um atleta "verdadeiro". Seja como for, Swaney teve seus 15 minutos de fama, com sua história sendo contada por vários meios de comunicação, e ela tendo garantido várias entrevistas após a prova - em uma delas, inclusive, se disse chateada por não ter se classificado para a final olímpica.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Chocolate

Há um bom tempo, rolou uma discussão no meu trabalho sobre se "chocolate suíço" e "chocolate belga" são tipos de chocolate, assim como "chocolate ao leite" ou "chocolate meio amargo". Um grupo disse que sim, outro disse que era só o nome do lugar onde eles eram feitos, e houve até quem dissesse que só se pode chamar de chocolate belga se foi fabricado na Bélgica, porque, se foi fabricado aqui no Brasil, como é que vai ser chocolate belga - a quem foi respondido que, então, só podemos chamar de pão francês àqueles que forem feitos na França. Eu não quis dar minha opinião sem antes pesquisar, mas, envolvido com outras atividades, me esqueci completamente do assunto. Essa semana, entretanto, ao ver um sorvete de chocolate belga, resolvi finalmente pesquisar sobre o assunto (além de me lembrar da história do pão francês), e acabei concluindo que era um assunto tão bom para um post do átomo como qualquer outro. Assim, hoje é dia de chocolate no átomo!

O chocolate foi criado pelos povos antigos da América Central, com descobertas arqueológicas levando os pesquisadores a crer que o produto já era consumido desde, pelo menos, o ano 1.900 a.C.; inicialmente, entretanto, o chocolate não era consumido em barras como costumamos fazer hoje, e sim exclusivamente na forma de uma bebida, obtida através da polpa do cacau, fruta bastante abundante na região então. Um dos povos que mais consumia o chocolate era os maias, que usavam a bebida em cerimônias religiosas, em festas, e até mesmo no dia a dia, com registros em pinturas e esculturas de casas que tinham cacaueiros no quintal, para que seus donos pudessem produzir seu próprio chocolate. No século XV d.C., os aztecas passariam a controlar os territórios maias, e incorporariam o chocolate a seu dia a dia, inclusive atribuindo sua criação a um de seus principais deuses, Quetzalcoatl, que, segundo a lenda, teria se tornado um pária dentre os demais deuses por ter compartilhado o segredo do chocolate com os homens sem a sua permissão. Os aztecas, porém, viviam em terras mais altas, onde os cacaueiros não davam bons frutos, de forma que quase todo o chocolate consumido por eles precisava ser "importado" de outras regiões, se tornando uma bebida cara e restrita às classes mais altas; outra diferença era que os maias preferiam beber o chocolate quente, enquanto os aztecas o preferiam à temperatura ambiente.

Existem várias teorias de como a bebida teria ganhado seu nome, mas a mais popular é justamente a que faz alusão aos aztecas, já que, em seu idioma, a expressão "água amarga" - uma alusão ao fato de que, ainda sem a adição de açúcar, o chocolate original era, de fato, uma bebida amarga - seria xocolatl; se for esse o caso, o nome pelo qual os maias e os demais povos da região chamavam a bebida antes de os aztecas a conhecerem se perdeu no tempo - embora se saiba que os maias possuíam um glifo próprio para representar o chocolate em sua escrita, apenas não se sabe como ele era pronunciado.

O chocolate sairia da América Central um século depois de os aztecas o descobrirem. Dizem que o primeiro estrangeiro a provar a bebida teria sido o infame conquistador espanhol Hernán Cortés, convidado a beber uma caneca de chocolate com o Imperador Montezuma após um jantar; seja isso verdade ou não, o fato é que o chocolate logo se tornaria muito popular dentre os espanhóis que vinham conquistar as Américas, mesmo com os primeiros relatos dando conta de que a bebida tinha "sabor desagradável", mas que era boa para "curar catarro". Conforme alguns desses espanhóis, principalmente frades, começavam a voltar para a Europa, levavam consigo não somente o chocolate já pronto, mas também frutos e sementes de cacau e a fórmula para produzir a bebida, que logo se tornaria a favorita da corte espanhola. Em 1602, a bebida seria levada por monges para a Áustria, e de lá se espalharia pelo continente; em pouco tempo, o chocolate se tornaria tão popular na Europa que o Papa Alexandre VII, em 1662, declararia que, assim como água e sucos de frutas, era permitido beber chocolate durante o jejum religioso.

Os europeus, entretanto, continuaram implicando com o sabor amargo do chocolate, e, para torná-lo mais agradável a seu paladar, passaram a adicionar açúcar, mel ou baunilha - alguns iam além e adicionavam páprica, pimenta do reino e outros temperos ardidos, que potencializavam o aroma do chocolate, mas faziam com que ele causasse problemas de estômago se consumido em excesso, o que levaria o chocolate sem a adição de especiarias a ser comercializado como "chocolate saudável". Também é importante ressaltar que é impossível plantar cacau na Europa, então, para suprir a demanda cada vez maior de chocolate, as principais potências europeias tiveram de recorrer a plantações em suas colônias, nas quais escravos trabalhavam ininterruptamente para plantar e colher cacau. As primeiras plantações desse tipo, evidentemente, estavam localizadas na América Central, com os povos que criaram e durante tanto tempo apreciaram o chocolate agora sendo obrigados a fornecê-lo a seus novos mestres; conforme os povos indígenas das Américas sucumbiam à doença, entretanto, os colonizadores europeus começavam a substituí-los por escravos vindos de suas colônias na Ásia e África, até que Inglaterra e França decidiram dar um passo além, e começar a plantar cacau no oeste africano e no sudeste asiático, locais de condições climáticas semelhantes às da terra natal do fruto - hoje, quase toda a totalidade do cacau produzido no mundo vem dessas duas regiões.

No início, todo o processo de extração do cacau e fabricação do chocolate era manual, mas, conforme a demanda crescia, os europeus começariam a mecanizá-lo, primeiro com moinhos de vento e a vapor, e então, em 1732, com uma mesa que aquecia os frutos do cacau e facilitava a extração dos gomos, inventada na França. Mas a maior inovação veio em 1828, quando o químico holandês Coenraad van Houten criou uma prensa que conseguia extrair mais da metade da gordura presente no chocolate antes do estágio final de produção, o que não somente barateou o produto, mas o tornou mais consistente, tornando possível fazer chocolate de forma homogênea - todo o chocolate que saía das fábricas holandesas, fabricado com cacau plantado na Indonésia, à época colônia da Holanda, era igualzinho, enquanto os chocolates ingleses e franceses tinham variações de aroma, sabor e textura de acordo com o lote do cacau. Logo, evidentemente, os demais fabricantes de chocolate estavam usando a prensa de van Houten, cada um tornando seu chocolate homogêneo em relação ao restante de sua produção porém diferente em relação aos demais fabricantes, buscando cativar o consumidor.

O passo seguinte seria dado pelo inglês Joseph Fry em 1847: ele derreteria parte da gordura do cacau que sobrava após o processo criado por van Houten, e, reincorporando-a ao chocolate líquido - na época já conhecido como licor de chocolate - conseguiria criar um chocolate em estado sólido, que poderia ser comido ao invés de bebido. Ele chamaria sua invenção de Fry's Chocolate Cream, e começaria a produzi-la em massa e comercializá-la em 1866. Embora na verdade fosse composta de um núcleo de fondant envolto em chocolate, a Fry's Chocolate Cream é hoje considerada a primeira barra de chocolate a ser produzida no mundo.

Como de costume, logo todos os fabricantes de chocolate começariam a investir em barras, cada um tentando criar um diferencial que fizesse os consumidores comprarem mais as suas que as dos concorrentes. Em 1875, o suíço Daniel Peter teve uma ideia inusitada: pegou o licor de chocolate e, ao invés de adicionar a gordura de cacau derretida, adicionou leite em pó, produto que então era uma novidade, tendo sido criado em 1867 pelo seu amigo Henri Nestlé. A invenção de Peter, que ele, nada criativamente chamaria de "chocolate ao leite", se mostraria mais bem sucedida para cativar o gosto do público que a de Fry, mas sua fabricação também era bem mais complicada; isso mudaria em 1879, quando outro suíço, Rodolphe Lindt, criaria uma máquina conhecida como conche, que distribui igualmente todos os constituintes do chocolate ao longo da barra. Outro passo importante seria dado em 1893 pelo norte-americano Milton Hershey, que, ao invés de leite em pó, decidiria usar leite fresco para fabricar seus chocolates; como a lei dos Estados Unidos é muito rigorosa em relação ao uso do leite fresco em alimentos, ele acabou tendo de criar todo um processo de conservação e estabilização do leite, hoje usado por muitos outros fabricantes.

Ao longo do século XX, centenas de outros processos de fabricação e fórmulas de composição do chocolate seriam inventadas, e muitos fabricantes também começaria a adicionar nozes, castanhas e passas às suas barras, para criar um diferencial em relação aos concorrentes. Apesar disso, nem todo chocolate diferente é considerado um "tipo de chocolate" - o chocolate com castanha de caju nada mais é que um chocolate ao leite, só que com castanhas de caju. Respondendo à dúvida que rolou no meu trabalho, "chocolate suíço", "chocolate belga", "chocolate alpino" e que tais não são tipos, e sim receitas de chocolate. Tipos de chocolate só existem três: o chocolate ao leite, o chocolate escuro (mais conhecido no Brasil como amargo ou meio amargo) e o chocolate branco.

Antes que você corra lá para a caixa de comentários para dizer que "chocolate branco não é chocolate", deixe eu dizer que estou bastante ciente dessa polêmica. De fato, existe um grupo grande de pessoas, doceiros inclusive, que alegam que chocolate branco não seria um tipo chocolate, mas, por enquanto, isso é uma questão de opinião, já que existe um grupo igualmente grande que alega que seria sim. Eu, pessoalmente, acredito que chocolate branco seja chocolate, principalmente porque os dois órgãos de fiscalização e inspeção alimentar mais chatos do planeta, o FDA (Food and Drugs Administration), um órgão do governo dos Estados Unidos mais ou menos equivalente ao nosso Ministério da Agricultura, responsável por regular os alimentos e remédios vendidos no território norte-americano, e o EFSA (European Food Safe Authority), que determina quais alimentos podem ou não ser comercializados na União Europeia, consideram o chocolate branco como um tipo de chocolate. Mas, se você preferir achar que não é, também não tem problema nenhum, apenas acho que não vai nos levar a nada discutir isso aqui.

O que determina de qual dos três tipos vai ser o chocolate é a proporção entre três ingredientes, todos eles retirados do cacau. O principal é o licor de chocolate, que, hoje em dia, ainda é obtido da mesma forma que na época dos maias e astecas: os gomos do cacau são fermentados, secos, torrados, separados de suas peles, moídos e misturados até se tornarem um composto chamado massa de cacau, que é, então, derretida, se transformando no licor de chocolate. Uma vez que alcance a temperatura ambiente, o licor de chocolate permanecerá líquido; enquanto ele ainda está quente, porém, pode ser resfriado rapidamente através de um choque térmico para ser moldado em blocos, mais fáceis de serem armazenados e transportados do que a forma líquida. Esses blocos, quando derretidos, se tornam idênticos ao licor de chocolate antes do choque térmico, sem qualquer variação em sua composição, mas fabricantes de chocolates finos preferem comprar a massa de cacau e usá-la para obter o licor de chocolate, com apenas os fabricantes industriais já o comprando na forma de blocos. Elementos como o leite e o açúcar são misturados diretamente ao licor de chocolate, antes de ele ser adicionado aos demais componentes da receita.

O segundo componente é a manteiga de cacau. Existem dois métodos para se obter manteiga de cacau; o primeiro, conhecido como Processo Holandês e criado por van Houten em 1828, consiste em prensar o licor de chocolate, em um processo que separa mais da metade da gordura total do restante do licor, sendo essa gordura então solidificada para se transformar na manteiga de cacau. O segundo seria criado por acaso em 1865 por um trabalhador cujo nome se perdeu no tempo, que esqueceu uma bolsa cheia de massa de cacau pendurada dentro de uma sala trancada; ao retornar no dia seguinte, ele repararia que a manteiga de cacau havia se separado do restante da massa. Conhecido como Processo Broma (nome criado em homenagem ao nome científico do cacaueiro, theobroma cacao), esse método consiste em aquecer e peneirar a massa de cacau para que a manteiga se separe, sendo então filtrada e novamente solidificada. A manteiga de cacau obtida pelo Processo Broma é mais concentrada que a obtida pelo Processo Holandês, deixando o chocolate com um sabor mais forte.

A manteiga de cacau é o mais caro dos componentes do chocolate, e, há anos, os fabricantes vêm experimentando substituí-la por outros tipos de gordura, tendo descoberto que o uso da gordura vegetal hidrogenada mantém o chocolate com praticamente o mesmo sabor, enquanto barateia sua produção em mais da metade do custo. No mundo inteiro, os principais fabricantes de chocolate já substituem ou complementam a manteiga de cacau com gordura vegetal hidrogenada, inclusive no Brasil, onde até mesmo as multinacionais, como Nestlé e Hershey's, usam gordura vegetal hidrogenada, sendo a manteiga de cacau integralmente usada apenas em chocolates finos como os da Cacau Show e Kopenhagen; nos Estados Unidos, porém, o FDA jamais permitiu a substituição, e, em 2007, após uma forte pressão dos fabricantes, emitiu uma portaria dizendo que as barras que contivessem gordura vegetal hidrogenada deveriam ser identificadas como "confeito semelhante ao chocolate", sendo proibidos os fabricantes que adicionarem gordura vegetal de usarem o termo "barra de chocolate" em suas embalagens. Esse procedimento, ou procedimentos semelhantes, também é adotado em vários outros países: no Uruguai, por exemplo, chocolates que contenham gordura vegetal hidrogenada não podem ser anunciados como "barra de chocolate", devendo ser usado o termo "símile de chocolate", enquanto na União Europeia, Argentina, Emirados Árabes Unidos e Japão, a informação de que o chocolate contém gordura vegetal hidrogenada deve estar bem clara na embalagem. Aqui no Brasil chamam de chocolate mesmo, colocam a gordura vegetal lá no meio daquelas letras minúsculas dos ingredietnes, e tudo bem.

O terceiro componente são os sólidos de cacau. No Processo Holandês, os sólidos de cacau são extraídos após a prensagem do licor de chocolate, da massa que resulta após a extração da gordura. Já no Processo Broma, os sólidos de cacau são a parte dos gomos que sobra após toda a manteiga de cacau escorrer. Em ambos os casos, os sólidos de cacau costumam ser moídos e vendidos como cacau em pó; isso ocorre porque, diferentemente da manteiga de cacau, os sólidos são de longe o componente mais barato, já que são produzidos muito mais sólidos do que manteiga a cada extração.

O tipo de chocolate mais consumido no mundo é o chocolate ao leite, que leva, em sua receita, licor de chocolate, manteiga de cacau, sólidos de cacau, leite, açúcar e baunilha. Em termos de proporção entre os três ingredientes principais, o chocolate ao leite leva muita manteiga de cacau e pouco licor de chocolate. O leite usado pode ser em pó, líquido, ou até mesmo leite condensado, sendo o sabor apenas levemente alterado dependendo do tipo de leite usado; já para alterar a textura do chocolate, muda-se a quantidade de leite, sendo que, quanto mais leite, mais cremoso. Para baratear os custos, fabricantes menores podem adicionar lecitina de soja, para que o chocolate fique mais cremoso com menos leite, mas isso também altera bastante o sabor - assim como o uso exagerado da gordura vegetal hidrogenada.

Já o chocolate escuro é o exato oposto do chocolate ao leite, tendo, em termos de proporção, muito licor de chocolate e pouca manteiga de cacau. Aliás, ele só leva, em sua composição, licor de chocolate, manteiga de cacau, sólidos de cacau e açúcar. Como o licor de chocolate é naturalmente amargo, isso faz com que, mesmo com a adição do açúcar, o sabor do chocolate escuro seja bem mais amargo que o do chocolate ao leite; por isso, ele costuma ser também conhecido como "chocolate amargo" ou "chocolate meio amargo". Atualmente, está na moda entre os fabricantes identificar os chocolates escuros como "50% de cacau", "70% de cacau" e por aí vai; isso, na verdade, não diz respeito à quantidade de "cacau" no chocolate (até porque licor de chocolate, manteiga de cacau e sólidos de cacau são todos "cacau") e sim à proporção entre os sólidos de cacau e a manteiga de cacau na composição do chocolate - em outras palavras, um chocolate "70% cacau" tem 70% de sólidos de cacau e 30% de manteiga de cacau, sem levar em conta para esses 100% o licor de cacau e o açúcar.

Finalmente, temos o tão polêmico chocolate branco, que, em sua composição, leva manteiga de cacau, leite, açúcar e baunilha - em outras palavras, é um chocolate ao leite sem o licor de chocolate e sem os sólidos de cacau; a ausência desses dois componentes, aliás, é o maior argumento dos que defendem que chocolate branco não é chocolate. O chocolate branco foi inventado em 1930 pela Nestlé, e, na verdade, não é branco, e sim cor de marfim - embora os que levem gordura vegetal hidrogenada tendam mais para a cor amarela. Como os fabricantes também costumam substituir a manteiga de cacau pela gordura vegetal hidrogenada no chocolate branco, para que ninguém fabrique uma barra de gordura vegetal hidrogenada com leite e açúcar, foi estabelecido em 2004 pela União Europeia (e seguido por quase todos os outros países do mundo) que, para que uma barra de chocolate branco possa ser colocada no mercado, ela deve ter, no mínimo, 20% de manteiga de cacau.

É através da proporção entre os ingredientes e da técnica de fabricação do chocolate que são obtidas as diferentes receitas. Na Bélgica, por exemplo, o cacau é proveniente quase que exclusivamente da República do Congo, e o licor de chocolate é transportado de lá para a Europa em galões aquecidos, mantido em forma líquida mas acima da temperatura ambiente; na Suíça, por outro lado, o chocolate leva grandes quantidades de leite fresco, e muito mais açúcar do que sólidos de cacau. Assim, em qualquer lugar do mundo, se o chocolate foi feito com um licor aquecido que não foi solidificado e moldado em blocos, ele se torna um "chocolate belga"; se foi feito com quantidades absurdas de leite fresco e açúcar, se torna um "chocolate suíço". Para comer os legítimos chocolates belga e suíço, entretanto, você vai ter de viajar para a Bélgica ou para a Suíça - ou pelo menos encontrar uma loja que venda importados.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Pesca Esportiva

Depois de escrever o(s) post(s) sobre esportes aéreos, resolvi fazer uma lista de todos os esportes que já fizeram parte do programa dos World Games, para saber se eu estava longe de abordá-lo por completo. Assim que terminei, olhei para alguns deles e pensei algo como "pff, sobre esse aqui eu nunca vou falar", como, por exemplo, a pesca esportiva. Mas aí, tomado pela curiosidade, resolvi pesquisar um pouco sobre pesca esportiva, e achei que um post sobre esse esporte seria interessante. Assim, preparem-se para uma frase que eu jamais pensei que fosse escrever: hoje é dia de pesca esportiva no átomo.

Existem três tipos de pesca esportiva, cada uma regulada por uma federação internacional diferente. Vamos começar por aquela que já fez parte do programa dos World Games, o casting - que, até onde eu consegui apurar, não tem nome em português, sendo chamado no Brasil, simplesmente, de "pesca esportiva". O casting está para a pesca assim como o tiro esportivo está para a caça, ou seja, não são usados peixes de verdade, e sim equipamentos que simulam a pesca, capazes de conferir pontos aos competidores para determinar quem foi o vencedor de cada prova. O casting surgiu na metade do século XIX na Inglaterra, mas não há como se precisar quem o teria inventado, sendo a teoria mais aceita a de que diversos grupos de pescadores decidiram quase ao mesmo tempo criar regras para que a habilidade de um pescador pudesse ser testada sem que ele efetivamente estivesse pescando. O primeiro torneio de casting do qual se tem registro foi disputado em Londres, em 1881.

Pouco após sua criação, o esporte chegou aos Estados Unidos, onde um novo conjunto de regras, mais de acordo com o gosto dos norte-americanos, foi desenvolvido. A partir do final do século XIX, o casting também começaria a se espalhar pela Europa, mais uma vez ganhando variações nas regras de acordo com a forma como a pesca era realizada em cada local. Para que fosse possível uma competição internacional, era necessário unificar essas regras todas, de forma que, em 1955, representantes de 14 federações nacionais de casting, sendo 13 europeus e mais os Estados Unidos, se uniram para formar a Federação Internacional de Casting (ICF, da sigla em inglês, até 1981, quando mudou de nome para ICSF, incluindo a palavra sport). Hoje, a ICSF conta com 31 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil, representado pela Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS).

Atualmente, a ICSF reconhece 16 disciplinas do casting. Curiosamente, nove delas são agrupadas sob o nome disciplinas 1-9, enquanto outras seis fazem parte do flycasting, sendo a restante conhecida como surfcasting. É interessante registrar que a ICSF reconhece cada um desses grupos como uma modalidade em separado, ou seja, segundo o estatuto da ICSF, eles não regulam uma, mas três modalidades da pesca esportiva, o casting (disciplinas 1-9), o flycasting e o surfcasting. Vale dizer também que a CBPDS só regula, em âmbito nacional, o flycasting e o surfcasting, ou seja, pelo menos na teoria, brasileiros não podem participar de torneios das disciplinas 1-9. Vale citar, também, que, até os anos 1970, todas as disciplinas do casting eram disputadas em corpos de água naturais, como rios e lagos; desde então, a ICSF criou regras para que possam ser usados locais próprios de competição, inclusive cobertos, como estádios e ginásios - a única exceção é o surfcasting, que continua sendo disputado obrigatoriamente em uma praia.

A primeira das disciplinas 1-9 é a da precisão. O local onde a prova de precisão é disputada consiste de uma plataforma de madeira, de 50 cm de altura, mínimo de 1,5 m de comprimento e mínimo de 1,2 m de largura, e mais cinco "alvos", dispostos em posições específicas em relação à plataforma: o centro do alvo de número 1 fica 8 m à esquerda do centro da parte frontal da plataforma, e o centro do alvo de número 5 fica a 13 m à direita do centro da parte frontal da plataforma, ambos formando um ângulo de 90o com o centro da parte frontal da plataforma; os alvos de 2 a 4 ficam em linha reta entre os alvos 1 e 5, sendo que o centro do alvo 3 fica diretamente à frente do centro do parte frontal da plataforma, e a distância do centro do alvo 3 para os centros dos alvos 2 e 4 é de 1,8 m. Cada um dos alvos é um círculo de plástico, semelhante a um bambolê, de 60 cm de diâmetro e 3 cm de altura; caso a prova esteja sendo disputada em um corpo de água (como um lago ou represa), o círculo é preso ao fundo por arames finos, mas, caso a prova seja disputada em um local seco (como um gramado ou ginásio), cada círculo é colocado sobre uma lona e seu interior é preenchido com água.

A vara usada pelos competidores deve ser do tipo padrão para uma mão, com no máximo 3 metros de comprimento; o molinete também deve ser do tipo padrão, sem quaisquer componentes extras, e de tamanho capaz de comportar, enrolado, toda a linha e todo o líder (o componente que prende o anzol à linha). A linha deve ser do tipo comum, sem componentes de metal, e ter no mínimo 13,5 m de comprimento. As iscas devem ser do tipo fly, que imita um inseto, de cor branca, amarela ou vermelha, de categoria 10 (de acordo com as especificações da ICSF) e com diâmetro entre 16 e 20 mm; não pode ser usado anzol, com a isca devendo ser presa diretamente ao líder, que deve ter no mínimo 1,8 m de comprimento, com ponta de no mínimo 30 cm de comprimento e no máximo 0,5 mm de diâmetro, e não pode ser transparente. O competidor deve usar apenas uma das mãos para arremessar a linha em direção a cada alvo, e deve sempre ter um dos pés mais à frente que o outro.

Cada competidor deverá passar por duas fases, a primeira usando isca seca (que boia na água) e a segunda usando isca molhada (que afunda na água). Na fase da isca seca, o competidor se posiciona em qualquer local da plataforma, e, de lá, deve realizar dez lançamentos na direção dos alvos, na seguinte ordem: 3-1-4-2-5-3-1-4-2-5. Antes do primeiro lançamento, a linha (mas não o líder) deve estar totalmente enrolada no molinete, mas, após cada lançamento, o competidor não poderá usar o molinete para alterar o comprimento da linha, devendo fazê-lo através do chamado "lançamento falso", um movimento da vara que enrola ou desenrola a linha, sendo não somente permitida como também obrigatória a realização de um (e apenas um) lançamento falso antes de cada lançamento válido. Depois de realizar os dez lançamentos com isca seca, o competidor mudará a isca e realizará dez lançamentos com isca molhada, na ordem normal dos alvos (1-2-3-4-5-1-2-3-4-5). Na fase da isca molhada não são permitidos lançamentos falsos, devendo o competidor regular a linha, usando o molinete, antes do primeiro lançamento, e podendo recolhê-la (mas não estendê-la) após o quinto lançamento, mas devendo realizar todos os demais lançamentos com a quantidade de linha usada em cada lançamento anterior. Não cumprir qualquer uma dessas regras resulta em desclassificação imediata.

A pontuação é bastante simples: cada vez que o competidor acerta a isca dentro de um círculo, ele ganha 5 pontos, para uma pontuação máxima de 100 pontos (20 alvos x 5 pontos cada). Cada competidor tem um tempo máximo de 5 minutos e 30 segundos para completar a prova (que começa a contar do momento em que ele sobe na plataforma, e inclui a troca de isca, os lançamentos falsos e as regulagem de linha na fase da isca molhada), mas estourar esse tempo não resulta em eliminação, apenas faz com que o competidor mantenha a pontuação que tinha quando o tempo estourou. Em caso de empate em pontos entre dois ou mais competidores, o tempo restante é usado como desempate, ficando à frente o que precisou de menos tempo para alcançar aquela pontuação.

A segunda disciplina é a da distância com uma das mãos. A vara, a isca (seca) e o líder são os mesmos da precisão, mas o líder deve ter no máximo 3 m de comprimento; o molinete é livre, podendo ser usado qualquer modelo; mas a linha deve ser de um tipo especial chamado "linha laranja", porque é dessa cor, devendo ter comprimento mínimo de 13,5 m e peso máximo de 38 g no masculino e 34 g no feminino, sendo proibidas, além disso, quaisquer diferenças em relação a uma linha laranja padrão conforme os regulamentos da ICSF. A plataforma usada para os competidores também é a mesma da precisão, mas não há alvos; o objetivo é simplesmente lançar a isca o mais longe possível, sendo que cada metro vale um ponto, e o competidor com mais pontos vence. A isca deve permanecer no ar durante todo o lançamento, com a distância sendo aferida assim que ela toca o solo (ou a água, no caso de a prova estar sendo realizada em um lago, rio ou represa). Cada competidor tem direito a realizar quantos lançamentos conseguir durante 5 minutos, sendo válidos os dois maiores lançamentos, que são somados para se determinar a pontuação final. A isca deve permanecer dentro dos limites da área válida de "pouso" - que tem 25 m de largura, com a plataforma posicionada bem no meio - em todos os momentos, seja quando estiver no ar, seja quando a linha estiver sendo recolhida, sob pena de desclassificação do competidor; a linha, por outro lado, pode ultrapassar os limites da área válida sem problemas. Na maioria dos torneios, a área válida tem 50 m de comprimento, mas é permitido que a isca caia depois dessa distância - o atual recorde mundial é de 72 metros.

A terceira disciplina é a do arenberg, que tem esse nome por causa do tipo de alvo usado: um quadrado de lona no qual são traçados cinco círculos concêntricos, de 0,75, 1,35, 1,95, 2,55 e 3,15 m de diâmetro. Esses círculos são traçados com linhas brancas, de no máximo 2 cm de largura, e o único opaco é o menor de todos, de cor preta, sendo todos os demais sem preenchimento. Esse tipo de alvo é conhecido no meio do casting como "alvo arenberg", em homenagem à região da Alemanha na qual a prova foi criada. Do menor círculo para o maior, a pontuação conferida quando a isca atinge um dos círculos é de 10-8-6-4-2 pontos.

Além do alvo, a área de competição do arenberg possui cinco "estações de lançamento", cinco tábuas de 1 m de comprimento, 2 cm de largura e no máximo 10 cm de altura, dispostas em relação ao alvo mais ou menos da mesma forma em que os alvos estão dispostos em relação à plataforma na prova da precisão: a estação 1 fica à esquerda, com seu centro a 10 m do centro do alvo, e a estação 5 à direita, com seu centro a 16 m do centro do alvo, essas duas estações formando com o centro do alvo um ângulo de 90 graus; as estações 2, 3 e 4 formam uma linha reta com as estações 1 e 5, sendo que a estação 3 fica diretamente em frente ao centro do alvo, e a distância do centro de uma estação para o centro da estação seguinte é de 2 m. Cada competidor realiza dois lançamentos seguidos de cada estação, em ordem numérica (ou seja, 1-1-2-2-3-3-4-4-5-5), sendo que cada estação tem regras próprias para seus lançamentos: na estação 1, é permitida qualquer postura do competidor, mas o lançamento deve começar com a isca posicionada abaixo da vara; na estação 2, o competidor deve segurar a vara apenas com a mão direita, a vara só pode se movimentar na horizontal e pelo lado direito do competidor, a ponta da vara deve percorrer no mínimo 1 m durante o lançamento, e a isca não pode tocar o chão enquanto estiver sendo recolhida; na estação 3, qualquer postura é permitida, mas a vara deve percorrer um movimento de forma que a isca passe por cima da cabeça do competidor ao ser lançada; a estação 4 possui a mesma regra da estação 2, mas com a vara na mão esquerda e se movimentando à esquerda do competidor ao invés de à direita; e na estação 5 a técnica de lançamento é livre, podendo, inclusive, ser usada uma técnica diferente em cada um dos dois lançamentos. O competidor deve se dirigir para o primeiro lançamento na estação 1 e deixar a estação 5 após o último lançamento com a isca na mão, e recolher a linha totalmente, usando o molinete, após cada um dos lançamentos. O tempo-limite total para realizar todos os lançamentos é de cinco minutos, contado do momento em que o competidor começa a se mover na direção da estação 1 até o momento em que ele deixa a estação 5 com a isca na mão.

A vara usada no arenberg é a para uma mão, com no mínimo 1,37 m e no máximo 2,5 m de comprimento, no mínimo 3 anéis de diâmetro máximo de 50 mm cada no corpo e um anel de diâmetro máximo 10 mm na ponta, e cujo cabo não seja maior que 1/4 do tamanho total da vara; o molinete deve ser do tipo aberto ou do tipo spool padrão ou equivalente; a linha pode ser de qualquer tipo, mas deve ter no mínimo 20 m de comprimento livre (ou seja, que não estão tocando o molinete ou a vara) e deve ter o mesmo diâmetro em toda a sua extensão; a isca deve ser do tipo plug, que se parece com um peixinho, pesar entre 7,35 e 7,65 g, ter superfície uniforme, comprimento de 53 mm, diâmetro de 18,5 mm (ambas essas medidas com tolerância de 0,3 mm para mais ou para menos), diâmetro do olho entre 4 e 6 mm, e ser da cor branca.

A quarta disciplina é a da precisão com molinete. A vara, molinete, linha e isca usados são os mesmos do arenberg, assim como as estações de lançamento; os alvos, porém, se parecem com os alvos da precisão: são cinco círculos de plástico com 75 cm de diâmetro e 10 cm de altura cada, cheios de água, de cor amarela, e montados de forma que fiquem inclinados na direção do competidor, com a borda virada para o competidor estando a 5 cm de altura e a borda oposta a 17 cm de altura. A distância entre o centro de uma estação para o da seguinte é de 1,5 m, e a distância do centro da estação 1 para o centro do alvo 1, posicionado diretamente à sua frente, é de 10 m; da estação 2 em diante, cada alvo está 2 m mais distante que o anterior, ou seja, 12, 14, 16 e então 18 m do centro da estação 5 para o centro do alvo 5. Cada competidor realiza dois lançamentos para cada alvo, em ordem numérica (1-1-2-2-3-3-4-4-5-5), ganhando 5 pontos em cada caso acerte dentro do círculo, para um total de 100 pontos no máximo. Assim como no arenberg, o competidor deve se encaminhar à estação 1 e deixar a estação 5 com a isca na mão, e recolher a linha usando o molinete entre um lançamento e outro. O tempo-limite para completar toda a prova é de 8 minutos.

A quinta disciplina é a da distância com uma das mãos e molinete. A vara, o molinete e a isca são os mesmos do arenberg, mas a linha deve ter diâmetro mínimo de 0,18 mm em toda sua extensão, e deve ser usado um líder, de 0,25 mm de diâmetro mínimo, comprimento mínimo de uma volta completa no molinete, e que não pode ser transparente. A área de competição é idêntica à da prova de distância com uma das mãos, mas com o dobro do tamanho (50 m de largura, 100 m de comprimento) e uma única estação de lançamento no lugar da plataforma. Cada competidor se posiciona atrás da estação e efetua três lançamentos não consecutivos (ou seja, são três rodadas, com cada rodada se encerrando após todos os competidores tendo lançado), valendo a maior distância obtida. Cada metro obtido vale 1,5 ponto. O estilo de lançamento é livre, mas o competidor só pode manter uma das mãos na vara durante o lançamento. Cada competidor tem 60 segundos para realizar seu lançamento após seu nome ser chamado.

A sexta disciplina é a da distância com duas mãos. A vara deve ser do tipo padrão para duas mãos, com comprimento máximo de 5,2 m, e a linha deve ser do tipo comum, sem componentes de metal, ter no mínimo 15 m de comprimento e pesar no máximo 120 g. A área de competição, o molinete, a isca e o líder são os mesmos da distância com uma das mãos, mas o líder tem comprimento máximo de 5,2 m. As regras também são as mesmas da distância com uma das mãos, mas, obviamente, o lançamento é realizado com as duas mãos, e o tempo-limite é de 6 minutos. Em competições da ICSF, as provas de distância com duas mãos são exclusivamente masculinas.

A sétima disciplina é a da distância com duas mãos e molinete. A escolha de vara e molinete é livre por parte do competidor, mas o molinete deve ser do tipo aberto. A linha também é livre, mas deve ter diâmetro mínimo de 0,25 mm e o mesmo diâmetro em toda sua extensão; o líder deve ter 0,35 mm de diâmetro mínimo, comprimento mínimo de uma volta completa no molinete, e não pode ser transparente. A isca é do tipo plug, deve pesar entre 17,7 e 18,3 g, ter superfície uniforme, comprimento de 38 mm, diâmetro de 22 mm (ambas essas medidas com tolerância de 0,3 mm para mais ou para menos), diâmetro do olho entre 5 e 7 mm, e ser da cor branca. A área de competição e as regras são as mesmas da distância com uma das mãos e molinete, mas, evidentemente, o competidor deve manter ambas as mãos na vara durante o lançamento. Assim como na distância com duas mãos, em competições da ICSF as provas de distância com duas mãos e molinete são exclusivamente masculinas.

A oitava disciplina é a da precisão com multiplicador. A escolha de vara, molinete e linha é livre, mas a vara deve ser para uma das mãos e ter comprimento máximo de 2,5 m, a linha deve ter o mesmo diâmetro em toda a sua extensão e comprimento mínimo de 22 m, e o molinete deve ser do tipo multiplicador com spool padrão; a isca é a mesma da distância com duas mãos e molinete. A área de competição e as regras são as mesmas da precisão com molinete, mas a distância dos alvos para as estações de lançamento é maior: o centro do alvo 1 está a 12 m do centro da estação 1, e então 14, 16, 18 e 20 m de distância do centro do alvo 5 para o centro da estação 5.

A nona e última disciplina é a da distância com duas mãos e multiplicador. A escolha de vara é totalmente livre; a linha e a isca são as mesmas da distância com duas mãos e molinete; e o molinete é o mesmo da precisão com multiplicador. A área de competição e as regras são as mesmas da distância com duas mãos e molinete, mas cada competidor tem dois minutos para realizar cada lançamento (incluindo se dirigir à estação, lançar, recolher a linha e sair da estação), com o lançamento sendo invalidado caso esse tempo seja ultrapassado.

Todas as provas com mais de 12 competidores no masculino ou 9 no feminino são disputadas em duas etapas, sendo que todos os competidores participam da primeira etapa, mas apenas os 8 melhores no masculino ou os 6 melhores no feminino disputam a final. Todos começam a final com sua pontuação zerada, ou seja, a pontuação da primeira etapa não é levada em conta.

Além de provas separadas para cada uma das disciplinas, a ICSF também regula três tipos de provas combinadas: no pentatlo, cada competidor disputa as disciplinas de 1 a 5, com seus pontos em cada uma delas sendo somados para se determinar o vencedor, que será aquele com a maior pontuação após serem realizadas as cinco provas; o pentatlo é disputado no individual masculino, no individual feminino, por equipes masculinas ou por equipes femininas, sendo que as equipes masculinas são compostas por 4 competidores, e as equipes femininas por 2 competidoras - nas provas por equipes, simplesmente somam-se os pontos de todos os competidores de uma mesma equipe, e a equipe com mais pontos após a realização das cinco provas será a vencedora. Já o heptatlo é disputado exclusivamente no individual masculino, e segue as mesmas regras do pentatlo, sendo disputadas, porém, provas das disciplinas de 1 a 7. Finalmente, temos o all-round, que, no individual masculino, é composto por nove provas (uma de cada disciplina), e, no individual feminino, é composto de sete provas (das disciplinas 1, 2, 3, 4, 5, 8 e 9). Todas as provas combinadas são disputadas em uma única etapa, sem final.

Enquanto as disciplinas 1-9 visam medir a habilidade do competidor no manejo do equipamento de pesca, as disciplinas do flycasting visam avaliar como ele se comportaria em uma situação de pesca real, e, por isso, possuem nomes até bem engraçados. A primeira delas, por exemplo, se chama truta precisão, porque simula uma pesca à truta. A área de competição é formada por quatro alvos, cada um composto de três círculos concêntricos, de 60 cm, 1,2 m e 1,8 m de diâmetro. O mais próximo deles fica a 8 m de distância do local no qual o competidor vai se posicionar, e o mais distante a 15 m de distância; os quatro alvos, entretanto, não são posicionados em linha reta, e sim em posições aleatórias dentro de um quadrado imaginário de 7 m de lado, sendo que a distância da linha imaginária que corta o centro de um alvo para a linha imaginária que corta o centro do seguinte deve ser de 1,75 m. O local onde o competidor vai se posicionar é simplesmente um quadrado, de 1,2 m de lado.

A vara usada pode ser de qualquer tipo, mas deve ter comprimento máximo de 2,75 m. A escolha do molinete é livre por parte do competidor. A linha deve ser do tipo laranja, com comprimento máximo de 36,57 m. O líder deve ser de monofilamento, com comprimento mínimo de 2,5 m, comprimento máximo da ponta de 40 cm, e diâmetro máximo de 0,3 mm. A isca é do tipo fly, e fornecida pela organização do evento. Ao começar a prova, o competidor deve estar com a isca na mão, e o comprimento da linha livre não pode ser maior que o comprimento da vara; quaisquer ajustes no comprimento da linha durante a prova só podem ser feitos com lançamentos falsos, nunca com o molinete. Em todos os lançamentos, a vara deve percorrer um movimento de forma que a isca passe por cima da cabeça do competidor ao ser lançada.

Cada competidor possui um tempo-limite de 5 minutos para efetuar 16 lançamentos, contra os alvos em ordem numérica (1-2-3-4-1-2-3-4-1-2-3-4-1-2-3-4). Acertar dentro do círculo central ou em sua borda vale 5 pontos, acertar dentro do círculo intermediário ou em sua borda vale 3 pontos, acertar dentro do círculo exterior ou em sua borda vale 1 ponto, e acertar fora do círculo confere uma pontuação de 0 e obriga o competidor a passar para o alvo seguinte - mesmo que a isca tenha tocado fora do círculo "sem querer", como, por exemplo, durante um lançamento falso. Se dois ou mais competidores terminarem empatados em pontos, o desempate se dará pelo tempo total que cada um deles levou para efetuar os 16 lançamentos.

A segunda disciplina é a da truta distância. A vara, o molinete e a linha são as mesmas da truta precisão, mas a única exigência para o líder é que ele tenha comprimento máximo de 3 m; a isca é fornecida pela organização, e trata-se de uma bolota de cortiça ou lã. A área de competição é composta de uma plataforma de madeira retangular, com 2 m de comprimento e entre 5 e 10 m de largura, a partir da qual são traçadas duas linhas-limite, de no mínimo 50 m de comprimento. O objetivo do competidor é, posicionando-se na plataforma, lançar a isca o mais longe possível, com a isca mantendo-se dentro dos limites das linhas paralelas do momento do lançamento até quando tocar o solo (ou a água). Cada competidor tem 4 minutos para realizar quantos lançamentos conseguir, sendo considerado apenas o que alcançou a maior distância - exceto se dois ou mais competidores empatarem, quando serão comparados os segundos melhores lançamentos de cada um, e assim por diante.

A terceira disciplina é a da truta marinha distância, que tem a mesma área de competição e as mesmas regras da truta distância (mas com distância mínima das linhas paralelas de 60 m ao invés de 50 m), mas equipamento levemente diferente: o molinete, o líder e a isca (fornecida pela organização) são os mesmos, mas a vara deve ter no máximo 3,06 m de comprimento, e a linha deve ser de material sintético, com diâmetro máximo de 2 mm e peso máximo de 27 g.

A quarta disciplina é a do salmão distância, novamente com a mesma área de competição e mesmas regras da truta distância (mas com distância mínima das linhas paralelas de 70 m e tempo-limite de 5 minutos), mas equipamento diferente: a vara deve ter no máximo 4,6 m de comprimento; a linha deve ser sintética, com no máximo 3 mm de diâmetro e 55 g de peso; e o líder deve ser de monofilamento, com comprimento máximo de 5 m - o molinete é de livre escolha do competidor, e a isca, mesma da truta distância, é fornecida pela organização.

A quinta disciplina é do spey distância 15'1". Spey é o nome de um rio, localizado na Escócia, onde o tipo de técnica utilizado nessa prova foi criado, e 15'1" é o comprimento máximo da vara: 15 pés e uma polegada, que equivalem a 4,5974 m; como a ICSF é camarada, ela arredonda para 4,6 m. O molinete é livre, a isca (mesma das demais provas de distância) é fornecida pela organização, e a linha e o líder são os mesmos do salmão distância.

A prova do spey deve ser disputada obrigatoriamente na água, com profundidade mínima de 60 cm; os competidores devem ficar dentro da água, dentro dos limites de um quadrado (imaginário ou demarcado no fundo) de 1 m de lado. Do centro do lado desse quadrado diretamente em frente ao competidor saem duas linhas na diagonal de no mínimo 60 m de comprimento, que formam um ângulo de 40 graus. Cada competidor tem um tempo-limite de 6 minutos, e deve realizar, obrigatoriamente, dois tipos de lançamento: um no qual a vara se mova da esquerda para a direita e um no qual a vara se mova da direita para a esquerda, sempre com a isca passando por cima de uma linha imaginária que passa pelos ombros do competidor - a mão com a qual o competidor vai segurar a vara é livre. Para se determinar o vencedor, são somadas as maiores distâncias obtidas em cada um dos dois tipos de lançamento, com as segundas maiores distâncias (e daí por diante) sendo usadas em caso de empate.

A sexta e última disciplina é a do spey distância 16'/18' com esses números fazendo referência ao comprimento máximo da vara: no feminino, 16 pés (4,8768 m, arredondado para 4,89 m), e, no masculino, 18 pés (5,4864 m, arredondado para 5,5 m); o restante do equipamento é idêntico ao da outra prova de spey. A área de competição também fica na água, com o competidor dentro d'água e dentro de um quadrado de 1 m de lado, mas as linhas que partem do centro do lado frontal do quadrado têm no mínimo 70 m de comprimento, e formam um ângulo de 30 graus. Não há obrigatoriedade de estilo de lançamento, e é considerado apenas o lançamento que alcançar a maior distância de cada competidor, sem somas - mas ainda com os seguintes sendo usados para desempate.

Todas as provas do flycasting com mais de 15 competidores são disputadas em duas fases, sendo uma fase realizada por dia, e com os seis primeiros da primeira fase se classificando para a fase final, na qual os pontos da primeira fase não são levados em conta - ou seja, somente os pontos obtidos na final determinam o vencedor. Caso a competição tenha menos de 15 participantes, é disputada somente uma fase, e aquele com mais pontos é declarado campeão.

Finalmente, temos o surfcasting, disputado sempre em uma praia, com os competidores se posicionando na beira do mar. É usada uma vara própria, com entre 3 e 4 m de comprimento, que deve ser segurada com as duas mãos; a linha, o molinete, o líder e a isca são os mesmos da prova de distância com duas mãos. A prova do surfcasting é de distância, com os competidores fazendo um lançamento com um movimento próprio, e aquele que obtiver a maior distância após três lançamentos não consecutivos será o vencedor. A vara e a técnica do surfcasting permitem que sejam alcançadas distâncias muito maiores que nas demais provas - o atual recorde mundial de distância no surfcasting é de 286,63 m.

O principal campeonato do casting é o Campeonato Mundial de Casting, disputado anualmente desde 1957 no masculino e desde 1981 no feminino, com provas das disciplinas 1-9. Desde 2014, a ICSF também organiza, anualmente, no masculino e no feminino, o Campeonato Mundial de Flycasting, somente com as disciplinas do flycasting. O casting fez parte do programa dos World Games entre 1981 e 2005 (exceto em 1989), com provas masculinas e femininas das disciplinas 1-9; desde então, a ICSF vem tentando incluir novamente suas provas no programa, mas esbarra em má-vontade dos organizadores, que alegam que o casting demanda muita organização e atrai pouco público. Retornar aos World Games é o primeiro passo para tentar alcançar a maior ambição da ICSF, a de incluir o casting nas Olimpíadas, o que não vai ser fácil, já que ele sequer está dentre os esportes reconhecidos pelo Comitê Olímpico Internacional.

O segundo tipo de pesca esportiva é o angling, para o qual eu também não consegui encontrar um nome em português. O angling é a pesca esportiva propriamente dita, na qual cada competidor pega um peixe, eles são avaliados por jurados, e o melhor peixe de acordo com as regras da competição ganha - e todos os peixes são devolvidos à água depois, não vão pra panela nem nada assim. O angling é muito mais antigo que o casting, com a primeira referência escrita à atividade de pescar como esporte ao invés de como meio de sustento ou sobrevivência datando de 1496, na Inglaterra; os primeiros clubes de pesca e as primeiras competições com regras bem definidas, entretanto, datam do início do século XIX, no mesmo país. No final do século XIX, o angling se popularizaria imensamente nos Estados Unidos, graças a novas técnicas e novos livros escritos sobre a pesca da truta; de lá, o esporte se espalharia pelo mundo, e hoje já temos competições de angling em todos os cinco continentes.

Existem três modalidades do angling, cada uma regulada por uma federação internacional própria. Duas delas usam iscas vivas ou iscas artificiais do tipo plug, a pesca esportiva em água doce, regulada pela Federação Internacional de Pesca Esportiva em Água Doce (FIPSed, da sigla em francês) e a pesca esportiva marítima, regulada pela Federação Internacional de Pesca Esportiva Marítima (FIPS-M); a terceira, a pesca esportiva com isca artificial, regulada pela Federação Internacional de Pesca Esportiva com Mosca (FIPS-mouche), usa iscas artificiais do tipo fly (palavra que, aliás, significa "mosca" em inglês). Em 1952, essas três federações se uniram e formaram a Confederação Internacional de Pesca Esportiva (CIPS), que, desde então, é o órgão reconhecido como responsável por dar a palavra final em todos os assuntos sobre angling - é a CIPS, por exemplo, que atualmente faz campanha para que o angling seja incluído nas Olimpíadas. Embora os torneios sejam organizados diretamente pelas federações, e elas possuam autonomia em termos de regras, a CIPS dita linhas gerais que devem ser seguidas por cada uma das três.

Competições de angling são sempre realizadas em corpos d'água naturais, como rios, lagos e praias. Todos os competidores pescam ao mesmo tempo, para que seja assegurada a igualdade de condições; como é impossível todos pescarem no mesmo ponto, os "melhores" lugares são reservados aos melhor ranqueados ou melhor classificados, com os demais ficando cada vez mais afastados. Dependendo da prova, os pescadores podem ficar posicionados na margem ou dentro de um barco; no caso do barco, se for necessário, é usado mais de um, com os grupos de cada barco sendo sorteados para maior justiça. As regras de todas as provas de angling são semelhantes, com o básico sendo que cada competidor tem um tempo-limite para pegar um peixe (contado em horas, espalhadas por vários dias, diferentemente do tempo do casting, contado em minutos), que, então, é avaliado pelos jurados, com o melhor peixe de acordo com as regras daquela prova (normalmente o mais pesado, mas raramente pode ser o de melhor aparência) determinando o vencedor; dependendo da prova, podem ser permitidos dois ou mais peixes dentro do tempo-limite, com o competidor escolhendo qual será julgado. A escolha do material, como vara, molinete, linha, isca etc. é livre por parte do competidor, com apenas algumas poucas restrições - em competições da FIPSed, por exemplo, a linha deve ter um comprimento máximo de 11,5 m no feminino e 13 m no masculino.

A FIPSed regula oito disciplinas do angling: pesca de truta com isca viva, pesca de achigã, pesca de carpa, pesca de peixe vulgar (qualquer peixe que não seja achigã, carpa, truta ou salmão), pesca de peixe vulgar com feeder (uma espécie de gaiola usada no lugar do anzol), pesca de peixe carnívoro a partir da margem, pesca de peixe carnívoro a partir de barco (sendo essa a única disciplina da FIPSed na qual os competidores não pescam da margem), e pesca no gelo (na qual, como nos desenhos animados, os competidores fazem um buraco redondo no gelo e pescam nele). Já a FIPS-mouche regula apenas duas discipinas, a pesca a partir da margem e a pesca a partir de barco, com o tipo de peixe válido sendo determinado pela organização de cada prova e variando de acordo com o local da prova. A FIPS-mouche também é a única que organiza provas por equipes, nas quais os resultados de todos os competidores de uma mesma equipe são somados para se determinar a equipe campeã.

A FIPS-M eu deixei para o final porque é a mais variada, regulando nada menos que 17 disciplinas, divididas em cinco grupos. No grupo da pesca a partir da margem (shore angling), temos a pesca a partir de praia (na qual os competidores se posicionam na beira do mar, em uma praia), a pesca a partir de pedra (na qual os competidores se posicionam em uma estrutura natural à beira-mar), a pesca a partir de píer ou porto (na qual os competidores se posicionam em uma estrutura artificial à beira-mar), e a pesca a partir de flutuador (na qual uma estrutura flutuante é montada no mar e os competidores se posicionam nela). No grupo da pesca a partir de barco, temos a pesca a partir de barco ancorado (parado em um local específico), a pesca a partir de barco ancorado sem vara (com os competidores segurando a linha com suas próprias mãos), a pesca a partir de barco à deriva (em movimento, mas bem lentamente, levado pelo movimento do mar), a pesca a partir de barco à deriva com atração artificial (na qual é usado um equipamento chamado pirk ou pilker, que atrai os peixes na direção do barco), e a pesca a partir de barco à deriva com jig (um tipo de isca que lembra um peixinho mole na vertical, diferente do plug, que é rígido e na horizontal). No grupo da pesca de peixes grandes temos a pesca a partir da praia, a pesca a partir de barco ancorado, o trolling (no qual o barco se move pela água relativamente rápido, arrastando a linha na água), o drifting (no qual o barco se move lentamente, e é o competidor quem arrasta a linha na água, em um movimento lateral), a pesca em águas rasas com isca do tipo plug, e a pesca em águas rasas com isca do tipo fly. No grupo da pesca longa com pesos, temos uma única disciplina com esse mesmo nome, na qual é usado um peso, de 100, 125, 150 ou 175 g, preso à ponta da linha, próximo ao anzol, para que ela vá mais longe durante o arremesso e mais fundo na água. Finalmente, temos o grupo da pesca em barcos leves, que também conta com apenas uma disciplina de mesmo nome, na qual são usados barcos pequenos, à deriva, e, a cada dia, os competidores participam de um grupo (e de um barco) diferente.

Não existe um "campeonato mundial de angling", e sim vários Mundiais, de acordo com as disciplinas presentes em cada um deles. A FIPSed organiza o Campeonato Mundial de Pesca de Peixes Vulgares (anualmente desde 1954 no masculino, desde 1994 no feminino e desde 1999 em versão paralímpica, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca de Truta (anualmente desde 1993, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca de Carpa (anualmente desde 1999, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca de Peixes Carnívoros a Partir da Margem (anualmente desde 2003, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca no Gelo (anualmente desde 2004, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca de Achigã (anualmente desde 2005, masculino e feminino), o Campeonato Mundial de Pesca de Peixes Carnívoros a Partir de Barcos (anualmente desde 2008, masculino e feminino) e o Campeonato Mundial de Feeder (anualmente desde 2009, misto). Já a FIPS-M organiza o Campeonato Mundial de Pesca Esportiva Marítima a Partir de Barco (anualmente desde 1965, misto), o Campeonato Mundial de Pesca Esportiva Marítima a Partir da Praia (anualmente desde 1984 no masculino e 1993 no feminino), o Campeonato Mundial de Pesca Esportiva Marítima de Peixes Grandes (anualmente desde 1992, somente masculino) e o Campeonato Mundial de Pesca Esportiva Marítima Longa com Pesos (anualmente desde 1998, apenas masculino). Finalmente, a FIPS-mouche organiza, anualmente desde 1983, o Campeonato Mundial de Pesca com Mosca, que é exclusivamente masculino.

Atualmente, a CIPS se encontra em campanha para tentar incluir pelo menos uma disciplina do angling nas Olimpíadas, mas o fato de que são usados peixes vivos durante as provas, aliado ao detalhe de que uma única prova pode durar até quatro dias, contribui negativamente para a percepção desse esporte, que encontra grande resistência da comunidade internacional atualmente. Assim como o casting, o angling ainda não é um esporte reconhecido pelo COI, reconhecimento este obrigatório para sua inclusão nos Jogos Olímpicos.

O terceiro tipo de pesca esportiva é a pesca submarina, regulada pela Confederação Mundial de Atividades Subaquáticas (CMAS), também responsável por regular outros esportes disputados sob a água sobre os quais eu já falei aqui, como o finswimming, o aquathlon e o hóquei subaquático. O equipamento usado na pesca submarina consiste de uma arma que dispara um arpão, que pode ser do tipo com elástico ou que usa ar comprimido, mas que deve ser recarregada usando a força do competidor, não sendo permitidos recarregadores automáticos; nadadeiras, luvas, máscara, óculos de mergulho, snorkel, roupa protetora de neoprene, um gancho e uma faca para situações de emergência, um peso para ajudar o competidor a submergir, uma boia de emergência caso ele precise subir rapidamente, cronômetro, bússola, medidor de profundidade, lâmpada submarina, sonar portátil e GPS. Notem que eu não escrevi "tanque de oxigênio", porque, assim como em outras competições da CMAS, não é permitido respirar durante a prova, devendo o competidor submergir, pescar e voltar à superfície em um único fôlego.

Assim como uma prova de angling, uma prova de pesca submarina pode durar vários dias, com os competidores usando períodos de 4, 5 ou 6 horas consecutivas a cada dia. O objetivo também é o mesmo: pescar um peixe e submetê-lo à avaliação dos juízes, sendo que o melhor peixe (normalmente o mais pesado) é que determina o vencedor da prova. Diferentemente de no angling, entretanto, "pescar" na pesca submarina envolve nadar para encontrar o peixe, arpoá-lo, buscá-lo e subir com ele à superfície. É interessante notar, também, que cada competidor possui uma boia designada na superfície, e, durante a prova, não pode se afastar mais de 25 metros dessa boia em qualquer direção, não somente por razões de segurança, mas também para que não invada a zona de pesca de outro competidor ou pesque além dos limites permitidos pela organização. Os competidores são levados até suas boias de barco, e recolhidos ao final da prova; barcos de apoio patrulham a área caso algum competidor precise de ajuda ou surja alguma emergência.

O principal campeonato da pesca submarina é o Campeonato Mundial de Pesca Submarina, disputado desde 1957 em intervalos irregulares, mas a cada dois anos desde 1992, mesmo ano no qual começou a ser disputada a prova feminina (até então, o Mundial era exclusivamente masculino). Assim como o angling, a pesca submarina é alvo de muitos protestos - talvez mais ainda, porque os peixes arpoados morrem e não podem ser devolvidos ao mar - de forma que dificilmente a CMAS conseguirá incluir esse esporte em competições multidesportivas como os World Games ou as Olimpíadas - com a CMAS tendo a vantagem, porém, de que os esportes subaquáticos são reconhecidos pelo COI.

Para terminar por hoje, eu vou falar rapidinho sobre a fotografia submarina, porque, aí, eu finalmente termino de falar sobre todos os dez esportes regulados pela CMAS. A fotografia submarina segue as mesmas regras da pesca submarina, mas, ao invés de arpoar um peixe, o competidor deve tirar uma foto dele. Na avaliação, não é simplesmente o melhor peixe que ganha, e sim a melhor foto, sendo levados vários critérios artísticos em conta; por isso, o tipo de câmera usado em cada prova é determinado pela organização do torneio, para que a qualidade do equipamento não seja mais importante que a habilidade do competidor.

O principal campeonato da fotografia submarina é o Campeonato Mundial de Fotografia Submarina, disputado em intervalos irregulares desde 1985, mas a cada dois anos desde 2005; como ainda há um número baixo de competidores, as provas do Mundial são mistas. No Mundial de 2011, a CMAS incluiu uma nova modalidade, na qual, ao invés de tirar fotos, os competidores gravam vídeos dos peixes. Visando dar mais exposição a essa modalidade, ao invés de incluí-la no Mundial de 2013, a CMAS decidiu organizar um campeonato em separado, o Campeonato Mundial de Vídeo Submarino, em 2014. Infelizmente, o baixo número de participantes fez com que a edição seguinte, prevista para 2016, fosse cancelada, e não há previsão de quando uma nova edição será realizada. Aliás, na CMAS, a fotografia submarina é vista como uma alternativa ecológica à pesca submarina (já que, afinal, ela não mata os peixes), e há um movimento para que os atletas da pesca submarina passem a competir na fotografia submarina - que, até agora, não vem apresentando resultados significativos.