Ana Paula Arósio

Quando eu era mais jovem, era apaixonado pela Ana Paula Arósio. Quando comecei a namorar minha esposa, cheguei a brincar com ela, dizendo que, se algum dia a Ana Paula Arósio batesse na minha porta e dissesse que queria ficar comigo, ela seria trocada na hora. A resposta que ela deu foi bastante inteligente: "se você acha que eu vou me preocupar com isso, você tem algum problema". Ela realmente nunca bateu, e a paixão foi diminuindo, até que hoje eu já nem ligo muito pra ela. O fato de ela ter se aposentado e sumido da mídia também contribuiu bastante.

Ainda assim, quando eu estava separando os assuntos para o Mês do Brasil, achei que seria legal fazer um post sobre algum ator ou atriz brasileiro, e, evidentemente, ela foi a primeira que me veio à mente. Portanto, para encerrar esse mês temático, hoje é dia de Ana Paula Arósio no átomo!

Ana Paula nasceu em 16 de julho de 1975 em São Paulo. Seu pai, Carlos, era mecânico industrial, e sua mãe, Claudete, trabalhava como secretária em uma fábrica de macarrão. Devido a seus belos olhos azuis e a seus cabelos naturalmente cacheados, desde que ela tinha quatro anos de idade seus pais receberiam convites para que ela fosse fotografada para revistas e campanhas publicitárias, sempre recusando. Aos 11 anos, quando estava com sua mãe fazendo compras em um supermercado, ela foi abordada por uma publicitária, que convenceu sua mãe a levá-la para um teste na agência de modelos Galharufas. Ela começaria a trabalhar como modelo aos 12, posando para revistas voltadas a meninas adolescentes e para campanhas voltadas ao público infanto-juvenil. Ela faria tanto sucesso que, em 1989, quando ela tinha apenas 14 anos, conseguiria um contrato com a agência Stilo, que a convidaria para se mudar para o Japão, onde estrelaria diversas campanhas publicitárias. O sucesso na Terra do Sol Nascente, por sua vez, renderia vários convites para desfilar em semanas de moda na Europa e nos Estados Unidos. Com 1,71 m de altura, porém, ela não fazia muito sucesso nas passarelas, e acabaria voltando para as campanhas e capas de revista. Ela retornaria ao Brasil aos 17 anos, em 1992, quando conseguiria um lucrativo contrato para figurar nas capas dos cadernos da linha Click, da Tilibra. Aos 18 anos, Ana Paula já tinha aparecido em mais de 250 capas de revistas no mundo inteiro, sem contar as inúmeras páginas de propaganda.

Ela não pretendia, porém, ser modelo para sempre, e, após retornar ao Brasil, começaria a investir em uma carreira de atriz, frequentando aulas de teatro e fazendo testes para comerciais de TV. Sua presença nesses comerciais chamaria a atenção do diretor Walter Hugo Khouri, que a convidaria para um pequeno papel na produção ítalo-brasileira Forever, de 1993, estrelada por Ben Gazzara e Eva Grimaldi; Ana Paula interpretaria Berenice Rondi, mesma personagem de Grimaldi, em flashbacks que mostravam sua adolescência. No mesmo ano, ela faria um teste para protagonizar a minissérie Sex Appeal, na Rede Globo, mas o papel acabaria ficando com Luana Piovani. No final de 1993, ela também faria sua estreia no teatro, na peça infantil Um Passeio no Cometa, que ficaria em cartaz durante dois meses nas cidades de Santos e Guarujá, no litoral do estado de São Paulo.

A estreia de Ana Paula na TV só ocorreria em 1994, quando ela seria convidada para uma participação na novela Éramos Seis, exibida pelo SBT, escrita por Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, baseada no romance homônimo de Maria José Dupré. Essa era a quarta versão da novela - a primeira fora exibida em 1958 na TV Record, e a segunda e a terceira na TV Tupi, em 1967 e 1977 - e a personagem de Ana Paula, Amanda, não estava presente em nenhuma das três anteriores. Ela participaria de apenas dez dos 180 capítulos, vivendo um romance com Carlos (Jandir Ferrari), o filho mais velho dos protagonistas Lola (Irene Ravache) e Júlio (Othon Bastos). Apesar da curta participação, Ana Paula chamaria a atenção do diretor Celso Nunes, que a convidaria para um papel na peça de teatro Baton, que ficou em cartaz durante 11 meses no ano de 1995.

Ana Paula também chamaria a atenção do departamento de elenco do SBT, que a escalaria para um papel fixo na novela Razão de Viver, de 1996, mais uma vez uma refilmagem (no caso, da novela Meus Filhos, Minha Vida, exibida pelo próprio SBT em 1984). Curiosamente, sua personagem, Bruna, resistia aos esforços da irmã, Sílvia (Vera Zimmermann), que desejava transformá-la em uma modelo internacional, enquanto o que ela queria era se casar e ter filhos. A novela, infelizmente, seria um grande fracasso de crítica e público, com o SBT atribuindo as críticas negativas ao fato de a história original ter sido muito alterada, e a baixa audiência ao horário no qual a novela era exibida - que, ainda por cima, teve de ser alterado durante o mês de julho, por causa das transmissões dos eventos das Olimpíadas de 1996.

Em 1996, Ana Paula ainda tinha vários contratos como modelo, já recebia os primeiros elogios por suas participações no teatro e na TV, e planejava, inclusive, passar uma temporada em Nova Iorque, estudando no famoso Actor's Studio, uma das escolas de teatro mais famosas do planeta. Ela parecia estar vivendo um sonho, que, em novembro daquele ano, ganharia um componente de pesadelo: há cerca de seis meses, Ana Paula namorava o empresário Luiz Carlos Tjurs, oito anos mais velho que ela e herdeiro da rede de hotéis Horsa. Apaixonados, eles chegaram a marcar o casamento para o mês de dezembro, mas, quarenta dias antes da cerimônia, ele se suicidaria com um tiro na boca na sua frente. Ana Paula ficaria imensamente abalada pelo fato, tendo de ser sedada para ser retirada do apartamento do noivo, desmaiando três vezes durante o depoimento à polícia, e ficando internada em uma clínica de repouso durante dois dias. O motivo do suicídio foi ciúmes que o empresário sentia: em vários bilhetes, ele questionava a fidelidade de Ana Paula, acusando-a de ter casos com o também empresário Luiz Simonsen Neto - com quem ela teve um breve relacionamento em 1992 - e até mesmo com o apresentador de TV Serginho Groisman. A infidelidade de Ana Paula jamais foi comprovada, e o incidente a marcaria pelo resto da vida.

Após recuperar-se parcialmente do trauma, Ana Paula retomaria sua carreira de atriz em 1997, em uma montagem da peça Fedra e na novela do SBT Os Ossos do Barão, na qual interpretava Isabel, a neta do Barão do título e objeto de desejo do protagonista Egisto (Juca de Oliveira), que quer se casar com ela para obter um título de nobreza. A partir de 1997, aos 22 anos, ela também diminuiria cada vez mais seus trabalhos como modelo, preferindo se dedicar plenamente à carreira de atriz.

O grande momento dessa carreira aconteceria em 1998, quando Ana Paula seria convidada pelo diretor Wolf Maya para ser a protagonista da minissérie Hilda Furacão, da TV Globo. Maya queria uma atriz relativamente desconhecida para o papel, e havia ficado impressionado com a atuação de Ana Paula em Fedra. Após sua participação em Os Ossos do Barão, porém, Ana Paula havia renovado seu contrato com o SBT por mais um ano, de forma que Globo e SBT tiveram que chegar a um acordo quanto à participação da atriz na minissérie - acordo esse que jamais foi revelado, mas que certamente contou com uma compensação financeira. Após o término da minissérie, com o contrato com o SBT encerrado, ela assinaria um contrato por tempo indeterminado com a Globo, algo reservado apenas aos atores e atrizes do primeiro time da emissora - e que não ocorreria por acaso.

No papel de uma moça de uma aristocrática família mineira da década de 1950, que se torna prostituta após desistir de se casar com um homem rico, e acaba seduzindo um padre (interpretado por Rodrigo Santoro), Ana Paula teve uma performance arrebatadora, elogiadíssima pela crítica, considerada um dos maiores motivos da excelente audiência da minissérie, e que lhe renderia o Troféu Imprensa de Revelação do Ano e o Troféu Melhores do Ano de Melhor Atriz Revelação de 1998. A modelo que tentava ser atriz provava que era uma atriz de verdade.

Com Ana Paula bombando, é lógico que a Globo iria querer mantê-la no ar pelo maior tempo possível; assim, ainda em 1998, ela faria um episódio da série Mulher, e um do famoso programa Você Decide. Curiosamente, ela também iria ao ar pelo SBT, em quatro episódios da série Teleteatro, gravados antes de Hilda Furacão. Finalmente, ela participaria de mais uma peça de teatro, Harmonia em Negro.

Sendo uma atriz do primeiro time, o próximo passo para Ana Paula seria protagonizar uma novela das oito, o que aconteceria em 1999, quando ela seria escalada para protagonizar Terra Nostra, um dos projetos mais ambiciosos da emissora, ao lado de Thiago Lacerda, que também estava fazendo muito sucesso na época. Escrita por Benedito Ruy Barbosa, Terra Nostra contaria a saga da imigração italiana no Brasil, sendo ambientada entre o final do século XIX e o início do século XX; os personagens de Ana Paula e Thiago, Giuliana e Matteo, eram um jovem casal de italianos que chegava ao Brasil de navio, se apaixonando durante a viagem, mas impedidos de ficarem juntos por várias circunstâncias que ocorreriam após sua chegada - como o filho do banqueiro para o qual Giuliana vai trabalhar se apaixonando por ela.

Terra Nostra seria uma superprodução, vendida para 95 países, e começaria com excelentes índices de audiência. Ana Paula teria mais uma vez uma atuação elogiadíssima, que lhe renderia mais um Troféu Imprensa de Melhor Atriz. O sucesso, entretanto, acabaria sendo prejudicial à novela: inicialmente, a saga de Giuliana e Matteo seria apenas a primeira fase da novela, que, segundo o planejamento do autor, começaria no século XIX e terminaria apenas nos dias atuais, mostrando várias gerações da família formada pelo jovem casal de italianos; com o grande sucesso da trama e do casal de protagonistas, porém, a Globo decidiria fazer com que essa primeira fase se tornasse a novela inteira, oferecendo a produção de duas novas novelas, que serviriam como segunda e terceira parte, para que Benedito concordasse. Conforme o tempo passava, porém, as tramas da novela ficavam cada vez mais confusas, até mesmo inverossímeis, o sofrimento sem fim de Giuliana atraía cada vez mais críticas, e, perto do final, a audiência já não era nem uma sombra dos altos números obtidos no início.

A imagem de Ana Paula, contudo, não seria arranhada pelo declínio da novela: enquanto a produção ainda estava no ar, ela seria contratada pela Embratel para uma grande campanha publicitária veiculada em todo o país durante nada menos que cinco anos, o que contribuiria para aumentar ainda mais sua fama. Após o fim de Terra Nostra, ela decidiria se manter um tempo longe da televisão, atuando apenas no teatro e cinema, participando da peça Diário Secreto de Adão e Eva, de 2000, e do filme Os Cristais Debaixo do Trono, de 1999, dirigido por Del Rangel - mesmo diretor de Éramos Seis e Razão de Viver - e que seria considerado um imenso fiasco, com baixo público e críticas negativas. No filme, Ana Paula interpreta Gilda, moça que desaprova o tórrido relacionamento entre seu pai e uma garota mais jovem que ela.

Ana Paula retornaria à televisão em 2001, na minissérie Os Maias, adaptação da obra de Eça de Queiroz na qual viveu Maria Eduarda da Maia, que, sem saber do fato, tem um relacionamento amoroso com o próprio irmão, interpretado por Fábio Assunção. Como é descrito no livro que Maria Eduarda tem olhos castanhos, a atriz teve de usar lentes de contato para o papel, não podendo exibir seus belos olhos azuis. A minissérie foi mais um grande sucesso, e a interpretação de Ana Paula mais uma vez foi bastante elogiada. Também em 2001, ela faria um episódio da série Brava Gente e um de Os Normais, no qual interpretou um ex-caso do protagonista Rui (Luiz Fernando Guimarães). Em 2002, ela participaria de uma montagem da peça de teatro Casa de Bonecas, do norueguês Henrik Ibsen, em uma atuação que seria bastante elogiada. Essa seria sua última atuação no teatro até hoje.

Ana Paula voltaria às novelas em 2002 em Esperança, aquela que seria a segunda parte de Terra Nostra; para ter mais liberdade de condução do texto, porém, Benedito Ruy Barbosa optaria por dissociar as duas obras, não fazendo de Esperança uma continuação de Terra Nostra, e sim mais uma novela centrada nos imigrantes italianos. Esperança é ambientada na década de 1930, e tem como protagonistas Maria (Priscilla Fantin) e Toni (Reynaldo Gianecchini), casal de italianos que, proibidos por suas famílias de se casarem, decidem fugir para o Brasil para casar e viver aqui; do dia da viagem, porém, o pai de Maria descobre e a impede, e Toni vem sozinho, prometendo buscá-la. Ana Paula interpreta Camille, jovem judia à frente de seu tempo, cujo comportamento não é bem aceito pela sociedade da época, e que seduz Toni após se apaixonar por ele. Camille seria a primeira vilã da carreira de Ana Paula, em mais uma atuação arrebatadora, que renderia seu terceiro Troféu Imprensa de Melhor Atriz, além de uma indicação ao Prêmio Contigo de Melhor Atriz, o qual perdeu para Priscila Fantin.

O desempenho da novela, por outro lado, não foi tão fantástico quanto o da atriz, com audiência baixa desde o início, e vários problemas ao longo da produção: em uma cena de briga entre Camille e Toni, Ana Paula atingiria Gianecchini acidentalmente com uma estátua, quebrando vários de seus dentes, o que fez com que o ator tivesse de ficar sem gravar por três dias e se submeter a uma restauração dentária; na mesma cena, a atriz torceria o tornozelo, tendo de gravar com uma bota ortopédica cuidadosamente escondida pela produção durante os dias seguintes; devido a cenas de violência e nudez, a novela foi ameaçada pelo Ministério da Justiça de ser reclassificada para ser apresentada apenas após as 22 horas, o que não aconteceu, mas, graças a uma classificação de imprópria para menores de 14 anos, jamais poderá ser exibida à tarde, como, por exemplo, no Vale a Pena Ver de Novo; em meio à produção, Benedito seria afastado pela direção da Globo e substituído por Walcyr Carrasco, para tentar reverter os baixos índices de audiência; e, próximo ao final da novela, Ana Paula teve um problema de saúde não divulgado, ficando ausente das gravações por várias semanas e tendo de concluí-las às pressas para que a novela pudesse terminar no tempo previsto. Com tudo isso, Benedito desistiria de fazer a terceira parte à qual tinha direito, interrompendo a saga dos italianos.

Vale citar também que, para tentar conseguir internacionalmente o sucesso que não teve no Brasil, a Globo investiria pesado em uma suposta ligação de Esperança com Terra Nostra: na América Latina, a novela seria vendida como Terra Speranza, enquanto na Itália a cara de pau seria ainda maior, e ela se chamaria Terra Nostra 2. Os países nos quais ela faria mais sucesso, entretanto, seriam Rússia, Uzbequistão e Israel, onde contava com uma versão da música da abertura cantada em hebraico, e a personagem de Ana Paula faria um gigantesco sucesso - o casamento de Camille e Toni foi responsável por um dos maiores índices de audiência já registrados na televisão daquele país.

Após uma pequena participação em apenas um episódio da fase final da novela Celebridade, em 2003, interpretando a motoqueira Alice, Ana Paula retornaria ao protagonismo na minissérie Um Só Coração, de 2004, produzida em homenagem aos 450 anos da cidade de São Paulo, na qual interpretava Yolanda Penteado, princesinha do café que se apaixona por Martim Pais (Erik Marmo), um jovem de família tradicional empobrecida que simpatiza com o movimento anarquista - sendo desnecessário dizer que sua família era contra o relacionamento. Yolanda e Martim, assim como outros personagens da minissérie, foram pessoas reais da história de São Paulo - a trama conta até mesmo com a presença dos modernistas Mário de Andrade (Pascoal da Conceição), Anita Malfatti (Betty Gofman), Tarsila do Amaral (Eliane Giardini) e Oswald de Andrade (José Rubens Chachá).

Ana Paula voltaria a fazer uma minissérie no ano seguinte, 2005, ao interpretar Consuelo, sobrevivente de um naufrágio de navio, em Mad Maria, mais uma obra de Benedito Ruy Barbosa, adaptação do livro homônimo de Márcio de Souza, que conta a saga da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, em plena selva amazônica, entre 1907 e 1912. Também em 2005, Ana Paula participaria de dois filmes, O Coronel e o Lobisomem, no qual interpretou Esmeraldina, paixão do Coronel do título (Diogo Vilella), mas casada com seu irmão de criação (Selton Mello); e Celeste e a Estrela, que tem como tema a dificuldade de se fazer cinema no Brasil, no qual interpreta Salete, recepcionista que ouve o avaliador de projetos de cinema Estrela (Fábio Nassar) contar a história de como conheceu e se apaixonou pela diretora Celeste (Dira Paes). Por sua atuação como Salete, Ana Paula ganharia o Prêmio do Festival de Varginha de Melhor Atriz Coadjuvante.

Em 2006, Ana Paula finalmente participaria de uma novela ambientada na época atual - até então, todas as novelas e minisséries nas quais atuou eram de época, ambientadas no passado (exceto a pequena participação em Celebridade). Essa "estreia" se daria em Páginas da Vida, de Manoel Carlos, na qual interpretou Olívia, uma proprietária de galeria de arte que se torna amiga da protagonista Nanda (Fernanda Vasconcellos), mas acaba tendo um caso com o namorado dela, Léo (Thiago Rodrigues). Em 2007, ela se arriscaria na comédia, ao interpretar vários personagens em um episódio de Casseta & Planeta, Urgente!. No mesmo ano, ela voltaria a uma campanha publicitária, se tornando a nova garota-propaganda da Avon, cargo que ocupou até 2010.

A última novela de Ana Paula seria Ciranda de Pedra, de Alcides Nogueira, exibida em 2008 e ambientada em 1958, na qual interpretava a protagonista Laura, que, apesar de um bom casamento e de uma família aparentemente feliz, sofre com distúrbios emocionais, estando ora tranquila e simpática, ora intragável e nervosa, o que acaba levando à sua internação em um sanatório.

Em 2010, ela estrelaria um novo filme, Como Esquecer, no papel da professora de inglês homossexual Júlia, que, após terminar com a namorada e entrar em depressão, decide se mudar para o Rio de Janeiro e morar com amigos; ao conhecer uma nova paixão (Arieta Corrêa), ela tem de lidar com a incapacidade de se envolver em um novo relacionamento. Ainda em 2010, ela estrelaria o seriado Na Forma da Lei, no papel da promotora Ana Beatriz.

Em 16 de julho de 2010, no dia do seu aniversário de 35 anos, Ana Paula se casou com o arquiteto Henrique Pinheiro, com quem namorava há cerca de um ano. A cerimônia foi no sítio de propriedade da atriz, em Santa Rita do Passa Quatro, interior do estado de São Paulo, no qual ela cria cavalos, sua grande paixão. O casal decidiria morar neste sítio, onde residem até hoje.

No final de 2010, Ana Paula seria escalada para protagonizar a novela Insensato Coração, de Gilberto Braga. Entretanto, por motivos desconhecidos, ela começou a faltar às gravações, até que se tornou impossível prosseguir sem ela; Ana Paula seria substituída por Paolla Oliveira, que assumiria seu papel e regravaria suas cenas, e desligada da produção, sendo colocada na "geladeira". Em dezembro, ela procuraria a Globo, rescindiria seu contrato, e passaria a viver em reclusão no sítio, longe da vida pública.

Ana Paula passaria quase cinco anos desaparecida dos olhares do público - em 2013, estraria nos cinemas Anita e Garibaldi, filme que conta a história do famoso casal, no qual ela interpretou Anita (com Gabriel Braga Nunes interpretando Garibaldi), mas este fora filmado antes do final de 2010, apenas demorando para estrear. Seu retorno efetivo à carreira de atriz se daria apenas em 2015, com o filme A Floresta que se Move, de Vinicius Coimbra, uma adaptação livre de Macbeth, de William Shakespeare, no qual interpreta Clara, esposa do executivo de banco Elias (também interpretado por Gabriel Braga Nunes), que vê sua vida mudar após consultar uma vidente.

Desde então, Ana Paula voltaria a viver escondida em seu sítio, com seu marido e seus cavalos. Ela não descarta um novo retorno à carreira de atriz, mas diz que, por enquanto, não está em seus planos.
Ler Mais

Os Karas

Ok, esse é um post que eu quero escrever desde que decidi que o átomo seria um blog para falar das coisas que eu gosto, lá em julho de 2003. Para vocês verem como essa dificuldade de encontrar informações atrapalha a minha vida. Aliás, eu ainda nem achei as informações que eu queria, mas vamos tentar escrever um post decente mesmo assim. Com mais de dez anos de atraso, hoje finalmente teremos Os Karas no átomo.

Admito que esse seja um assunto que muitos dos leitores desse blog desconhecem, então cabe explicar: os Karas são cinco adolescentes protagonistas de uma série de livros escritos entre 1984 e 2014 por Pedro Bandeira. Meu primeiro contato com eles foi na oitava série, lá no hoje longínquo ano de 1992, quando a professora de história, que na época nos ensinava sobre o nazismo, recomendou que lêssemos Anjo da Morte. A turma gostou tanto do livro que ela acabou fazendo uma atividade extra, na qual nos dividimos em grupos, e cada grupo deveria fazer sua própria interpretação do livro. Meu grupo fez uma maquete de um campo de concentração, usando isopor, cartolina e Playmobil.

Na verdade, a turma gostou tanto do livro que passamos a encher o saco da professora de literatura, para que ela nos passasse livros do Pedro Bandeira ao invés dos clássicos que costumava pedir. Não sei se contrariada, ela acabou cedendo, mas com uma pequena diferença em relação ao que fazia sempre: ao invés de passar o mesmo livro para a turma toda, dividiu-a em dois grupos; metade da turma deveria ler A Droga da Obediência, enquanto a outra metade leria Pântano de Sangue. A prova, evidentemente, seria de acordo com o livro que a gente leu. Eu caí no grupo do Pântano de Sangue, mas acabei pegando A Droga da Obediência com uma amiga do outro grupo e li também.

Na época, esses eram os três únicos livros da série que existiam. Alguns anos depois, já no CEFET, vi uma amiga minha lendo um que eu não conhecia, A Droga do Amor, que havia acabado de ser lançado. Pedi emprestado e li também. E, mais alguns anos depois, já na faculdade, ao ver que mais um, Droga de Americana!, tinha sido adicionado à série, resolvi comprar as três "Drogas" que eu não tinha e completar minha coleção. Ou não, já que, há pouco, descobri que, recentemente, foi lançado mais um, A Droga da Amizade. O que foi um dos motivos que me motivaram a tentar mais uma vez escrever sobre os Karas, e a incluí-los nesse Mês do Brasil.

Como eu disse na introdução, os Karas são uma criação de Pedro Bandeira. Nascido Pedro Bandeira de Luna Filho, em 9 de março de 1942, na cidade de Santos, São Paulo, Bandeira é o autor de literatura juvenil mais vendido do Brasil, com mais de 25 milhões de exemplares vendidos de seus mais de 80 títulos publicados. Ele também já ganhou os dois mais importantes prêmios da literatura infanto-juvenil brasileira, o Prêmio Jabuti (conferido pela Câmara Brasileira do Livro) e o Troféu APCA (conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte), ambos em 1986. Dois de seus livros são gigantescos sucessos, e leitura obrigatória em várias escolas de todo o país: A Marca de uma Lágrima, de 1985 (o qual nossa professora de literatura depois nos passou também), e O Fantástico Mistério de Feiurinha, de 1986.

Mas o primeiro livro dos Karas - que também costuma ser leitura obrigatória em escolas de Ensino Médio - é anterior a esses dois: A Droga da Obediência, publicado pela Editora Moderna em 1984. O título do livro é uma alusão a um remédio criado pelo Doutor Q.I., vilão do livro; tal remédio deixa as pessoas dóceis, porém avoadas, e, segundo o Doutor Q.I., seria usado para acabar com as dores do mundo - embora seu verdadeiro objetivo seja controlar a humanidade e, por consequência, o planeta - já que o remédio também as deixa suscetíveis a sugestões e ordens, por isso a alcunha de Droga da Obediência.

O Doutor Q.I. decide testar as drogas em estudantes antes de distribuí-la em larga escala, e é aí que entram os heróis da história. Quando somos apresentados a eles, os Karas eram quatro estudantes do Colégio Elite, um dos mais conceituados de São Paulo. O grupo foi formado, e atualmente é liderado, por Miguel, o presidente do Grêmio Estudantil do colégio, que tem grande espírito de aventura, e sempre sonhou em fazer parte de uma equipe que solucionasse mistérios, para isso recrutando três dos mais competentes alunos do colégio: Calu, ator e especialista em disfarces, graças à sua familiaridade com as maquiagens usadas em seu grupo de teatro; Magrí, da equipe de ginástica olímpica do colégio; e Crânio, que não tem esse apelido à toa, já que é um dos mais brilhantes alunos do Elite. Em sua primeira aventura, o grupo ganha um quinto integrante, Chumbinho, menino mais novo que eles e apaixonado por videogames e computadores, que prova ser digno de fazer parte do grupo ao investigá-los e descobrir todos os seus segredos - inclusive seu local secreto de reuniões, uma espécie de porão cujo acesso é feito através de um alçapão dentro de um armário de limpeza do colégio.

Os segredos, aliás, eram uma das melhores partes dos livros dos Karas. Para serem um digno grupo de adolescentes resolvedores de mistérios, eles criariam três códigos secretos: o mais simples, o Emergência Máxima, consistia de um K escrito na palma da mão esquerda, e, quando mostrado por um dos integrantes do grupo aos demais, simbolizava que todos precisavam se reunir imediatamente na sala secreta, pois algum evento necessitava da atenção do grupo. Já quando eles precisavam se comunicar em segredo, usavam o Código Vermelho, que consistia em trocar as vogais de uma palavra por códigos: A por "ais", E por "enter", I por "inis", O por "omber" e U por "ufter". Assim, átomo, por exemplo, virava "aistombermomber".

Mas o mais legal era o Código TENIS-POLAR. Tão legal que eu e meus amigos frequentemente trocávamos mensagens escritas em TENIS-POLAR, e até mesmo quando eu queria escrever alguma coisa que não queria que meus pais soubessem o que era, usava esse código. Usado quando um dos Karas desejava escrever uma mensagem que somente os Karas iriam compreender, o TENIS-POLAR consiste em trocar as letras presentes na palavra TENIS por suas correspondentes na mesma posição na palavra POLAR - todo T vira P, todo E vira O, e assim por diante. Escrito em TENIS-POLAR, "átomo" seria "ípeme".

Enfim, A Droga da Obediência foi o primeiro grande mistério solucionado pelos Karas, e o primeiro caso no qual Chumbinho fez parte do grupo, passando a ser integrante fixo desde então. O envolvimento do grupo começou quando Bronca, um dos alunos mais rebeldes do Colégio Elite, desaparece por um tempo e retorna com comportamento completamente diferente, muito mais dócil. Miguel reúne os Karas, que, revendo os fatos dos estranhos desaparecimentos, concluem que, até então, 27 estudantes já haviam sido sequestrados, sendo três de cada um dos principais colégios de São Paulo - como Bronca foi o de número 28, e o primeiro do Elite, isso significava que mais dois estavam por desaparecer. O grupo, então, decide investigar mais a fundo, e acaba chegando ao Doutor Q.I.

A investigação oficial é conduzida pelo Detetive Andrade, da Polícia de São Paulo, que, inicialmente, não gosta do envolvimento dos adolescentes - chegando a interrogar Chumbinho, o último a ver Bronca antes do desaparecimento - mas que, nos livros seguintes, acaba se tornando um valioso aliado para o grupo. Cabe dizer também que cada um dos Karas tem por volta de 15 anos - exceto Chumbinho, que tem por volta de 13 - e que nenhum dos livros conta com figuras que retratam sua aparência, nem com descrições delas (exceto por pequenos detalhes, como "Calu é o aluno mais bonito do colégio" ou "Magrí tem esse apelido por ser muito magra"). Isso seria uma estratégia de Bandeira, para que todos os adolescentes pudessem se identificar com os Karas, já que ninguém saberia com certeza como eles eram - confesso que eu mesmo imaginava a mim e a meus amigos como sendo os Karas, o que pode ser um atestado de que tal estratégia funcionou.

A segunda aventura dos Karas, Pântano de Sangue, seria lançada em 1987. Ela começa quando o professor de matemática de Crânio é encontrado morto no último dia de aula. Os Karas decidem investigar, e descobrem que o professor havia visitado o Pantanal. Como Crânio tem uma tia que mora no Mato Grosso, ele decide ir visitá-la como pretexto para investigar o caso, enquanto Miguel, Calu, Magrí e Chumbinho, com a ajuda do Detetive Andrade, tentam encontrar mais pistas em São Paulo. Pântano de Sangue tem suspense do começo ao fim, uma forte mensagem ecológica, e chama a atenção dos leitores para problemas como a matança dos jacarés, a exploração clandestina de ouro e a violência contra os povos indígenas - além de ter uma espécie de plot twist genial, envolvendo o suspeito Mike Serrabrava.

Ser professor dos Karas não devia ser a profissão mais segura do mundo, pois no terceiro livro, Anjo da Morte, de 1988, é o professor de teatro de Calu quem morre misteriosamente, com os Karas mais uma vez tentando descobrir quem foi o assassino. Seguindo a pista de um folheto neonazista deixado no local do crime - devido ao fato de que o professor era judeu - os Karas chegam até o ex-oficial alemão Kurt Kraut, que pode ser o Anjo da Morte, oficial nazista responsável pela morte de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Através de flashbacks, o leitor é levado até a Alemanha nazista da Segunda Guerra, e acompanha o sofrimento dos judeus em um campo de concentração.

O Doutor Q.I. voltaria a dar as caras (sem trocadilho) no quarto livro dos Karas, A Droga do Amor, de 1994. Desta vez o título é em alusão a um remédio que promete curar "o mal do século", "a doença que transforma o amor em morte", termos que são usados como eufemismos para a AIDS. Um dos cientistas que trabalham para a farmacêutica que está desenvolvendo esse remédio desaparece, e o principal suspeito é o Doutor Q.I., que acabou de fugir da prisão. Os adolescentes se envolvem quando a professora de ginástica de Magrí, que vinha dos Estados Unidos no mesmo voo de um representante da farmacêutica, é atacada por homens misteriosos no aeroporto (eu disse que ser professor dos Karas não era seguro). Os Karas estão um pouco mais velhos nesse livro, e enfrentam um problema inusitado: Miguel, Calu e Crânio estão, os três, apaixonados por Magrí, algo que leva, até mesmo, a uma dissolução temporária do grupo.

No quinto livro dos Karas, Droga de Americana!, de 1999, Peggy, a filha adolescente do Presidente dos Estados Unidos, vem ao Brasil participar de um campeonato de ginástica olímpica, e se torna alvo de sequestradores. Acontece que esses sequestradores confundem Magrí com Peggy, e levam a única menina dos Karas como refém, ameaçando matá-la se o Presidente não cumprir suas exigências dentro de seis horas. Os Karas decidem aproveitar esse espaço de tempo para agir e salvar sua amiga, com a ajuda de Peggy, que, por sua valentia e grande ajuda na solução do mistério, acaba se tornando membro honorário dos Karas antes de retornar aos Estados Unidos.

Embora haja um espaço de quinze anos entre o lançamento do primeiro e o do quinto livro, evidentemente essa passagem de tempo não foi respeitada na cronologia das histórias, com no máximo três anos tendo se passado entre os eventos de A Droga da Obediência e os de Droga de Americana!. De 1999 para cá, porém, o mundo começou a mudar muito rápido - telefones celulares, por exemplo, têm novas funções a cada lançamento - e, mesmo querendo atender ao pedido dos fãs de um novo livro dos Karas, Bandeira se viu diante de um desafio: nas histórias do grupo não existem vários elementos que hoje são comuns, que até seriam uma mão na roda na hora de solucionar os mistérios, mas que, entre 1984 e 1999, ou não existiam ou não eram de fácil acesso à maioria dos adolescentes, como, por exemplo, a internet. Mostrar os Karas usando orelhão de fichas e consultando o Guia Quatro Rodas seria anacrônico e poderia afastar os novos leitores; mostrá-los consultando o Google Maps e filmando os vilões com seus celulares, por outro lado, seria difícil de encaixar na cronologia das histórias. Por esse motivo, se passariam mais quinze anos antes que um sexto livro dos Karas se tornasse realidade.

Lançado em 2014, A Droga da Amizade é, segundo o próprio Bandeira, o último livro dos Karas - e a solução encontrada por ele foi até bastante interessante: no início da história, Miguel está com 40 anos, e encontra uma foto de sua adolescência, na qual todos os Karas estão reunidos. Ele começa, então, a se lembrar de várias aventuras do passado, que não foram retratadas nos livros anteriores. A Droga da Amizade conta como os Karas se reuniram pela primeira vez, como Chumbinho entrou definitivamente para a equipe, mostra uma nova aventura da equipe contando com Peggy como um de seus membros, explica por que Andrade tinha tanta confiança nos adolescentes, e, principalmente, mostra o que cada um dos Karas se tornou depois de adulto. É um livro para leitores de todas as idades, tanto para aqueles que cresceram lendo os Karas, como eu, quanto para os que os descobriram agora; para aqueles que se tornaram fãs na adolescência e para os que se encantaram com a equipe já depois de adultos.

De certa forma, é uma pena que os Karas não vão viver mais aventuras, mas, como diz o ditado, tudo, até mesmo as coisas boas, precisa chegar ao fim. O que importa é que as aventuras de Miguel, Calu, Crânio, Magrí e Chumbinho sempre terão um lugar na minha estante e no meu coração, assim como nos de milhões de brasileiros que provavelmente se apaixonaram pela leitura ao serem apresentados a um senhor chamado Pedro Bandeira.
Ler Mais

Legião Urbana

Dando continuidade ao Mês do Brasil no átomo, hoje é dia de Legião Urbana. A relação que eu tenho com Legião Urbana é mais ou menos a mesma que eu tenho com Queen: era uma das poucas bandas de rock das quais meu pai gostava, então era uma das poucas que eu ouvia quando criança - quando meu gosto musical era dominado por Trem da Alegria e Balão Mágico. Na minha adolescência, quando inventaram os CDs, todos os álbuns da Legião foram relançados em CD, e eu aproveitei para comprá-los. Hoje, ela é, com certeza, a minha banda nacional favorita - embora, quando me perguntem quais são minhas bandas favoritas, eu quase nunca me lembre de incluí-la na lista.

Aliás, quando me lembro, ao contrário de algumas pessoas que conheço, não tenho vergonha nenhuma de dizer que Legião Urbana é uma das minhas bandas favoritas. Recentemente, por algum motivo, muita gente os tem renegado, por conta de um movimento que surgiu nas redes sociais, e que prega que Legião Urbana (e U2, mas isso não vem ao caso agora) "é uma bosta". Não sei como isso começou, mas aposto que foi uma gracinha que alguém que não gosta da banda falou e um monte de gente saiu repetindo porque achou engraçado. A única coisa que eu tenho a dizer sobre isso é que, se você acha músicas como Índios, 1969 ou Perfeição "uma bosta", só me resta lamentar.


A história da Legião Urbana começa no início da década de 1980, na cidade de Brasília, com seu vocalista, Renato Russo. Nascido Renato Manfredini Jr., e adotando um nome artístico inspirado no filósofo Jean-Jacques Rousseau, Renato era vocalista de uma outra banda, chamada Aborto Elétrico, quando se desentendeu com seus dois outros integrantes, os irmãos Flávio e Fê Lemos. Conta a história que o estopim para a sua saída teria sido um show no qual Renato errou a letra da música Veraneio Vascaína, e Fê, o baterista, jogou uma das baquetas em sua cabeça enquanto ele ainda estava cantando. Renato, então, procuraria outros músicos para formar a Legião Urbana, e os irmãos Lemos se uniriam aos também irmãos Dinho e Ico Ouro Preto e fundariam a banda Capital Inicial.

A primeira formação da Legião Urbana teria Renato Russo nos vocais e no baixo, Marcelo Bonfá na bateria, Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados. Essa formação se apresentaria em apenas um único show, em 5 de setembro de 1982, na cidade de Patos de Minas, Minas Gerais, durante o festival Rock no Parque, que contaria com shows de nove bandas diferentes, todas relativamente desconhecidas - sendo a mais famosa delas a Plebe Rude. Curiosamente, a empresa responsável pela organização do festival havia contratado o Aborto Elétrico, e impresso centenas de cartazes anunciando o show da banda; como ela não existia mais, porém, Renato os convenceria a substituir o Aborto Elétrico por sua nova banda, a Legião Urbana, já que os irmãos Lemos não tinham um novo vocalista e ainda não haviam formado sua nova banda. Após essa única apresentação, Paraná e Paulista deixariam a banda, e Ico Ouro Preto seria o novo guitarrista durante alguns meses, até sair para formar o Capital Inicial. Em março de 1983, Dado Villa-Lobos assumiria a guitarra, mas a Legião jamais contrataria um novo tecladista, com o próprio Renato Russo assumindo os teclados quando necessário.

Em 1983, enquanto a Legião fazia pequenos shows esporádicos pelo interior do país, Herbert Vianna, vocalista da banda Os Paralamas do Sucesso, mostraria para Jorge Davidson, diretor artístico da gravadora com a qual os Paralamas tinham contrato, a EMI, uma fita cassete com gravações de Renato Russo, anteriores à formação da Legião Urbana. Davidson se interessaria, e chamaria a banda para gravar três músicas pela EMI, com eles escolhendo 18 e 21, Ainda É Cedo e Geração Coca-Cola. Os executivos da EMI, entretanto, optariam por não contratá-los, pois, segundo eles, a gravadora não estava querendo investir em bandas de rock na época, procurando por um som mais ao estilo folk, parecidas com as que Renato cantava na fita apresentada por Herbert. O produtor Mayrton Bahia, por outro lado, viu o potencial da banda e intercedeu a seu favor, servindo como mediador em várias reuniões entre a banda e os executivos. Após ambos os lados aceitarem fazer concessões, a Legião Urbana assinaria com a EMI em fevereiro de 1984.

O primeiro álbum da Legião, também chamado Legião Urbana, seria lançado um ano depois, em janeiro de 1985. Durante seu processo de criação, Renato Russo sofreria um ferimento que prejudicaria seu pulso e o impediria de tocar baixo, segundo alguns, devido a uma tentativa de suicídio; por indicação de Bonfá, o baixista Renato Rocha passaria a fazer parte da Legião, transformando o trio em um quarteto. Com letras politizadas e som influenciado por bandas como The Smiths, Joy Division e Talking Heads, o álbum seria extremamente bem recebido pela crítica, que faria da Legião Urbana uma das bandas brasileiras mais aclamadas da década de 1980. Suas principais faixas seriam Será, Ainda É Cedo, Geração Coca-Cola e Por Enquanto, considerada pelo crítico Arthur Dapieve "a melhor faixa de encerramento de um disco" de todos os tempos. O álbum venderia mais de um milhão de cópias, algo impressionante para uma época na qual apenas Roberto Carlos, Xuxa e ídolos internacionais como Michael Jackson e Madonna costumavam quebrar essa barreira, e receberia um Disco de Platina triplo da ABPD, a Associação Brasileira dos Produtores de Discos.

De acordo com as concessões feitas por parte da banda e da gravadora, o primeiro álbum foi de puro rock, com um estilo até meio punk, mas o segundo deveria ser mais ao estilo folk. A banda chegaria a planejar um álbum duplo, mas, temendo que os custos fossem muito altos, a EMI recusaria. Chamado Dois, o álbum, simples, seria lançado em julho de 1986, e venderia ainda mais que o anterior, com cerca de 1,5 milhões de cópias, rendendo um Disco de Diamante da ABPD. Sua principal música de trabalho, Eduardo e Mônica, foi considerada arriscada pela gravadora, por não conter um refrão, mas, mesmo assim, seria uma das mais tocadas nas rádios e cantadas pelos fãs, sendo até hoje um dos maiores sucessos da banda. Outras faixas de destaque do álbum são Quase Sem Querer, Tempo Perdido, Andrea Doria e Índios.

Mantendo o estilo de músicas com fortes críticas políticas e sociais, mas sem descambar para o panfletarismo, a banda lançaria, em dezembro de 1987, seu terceiro álbum, Que País É Este 1978/1987. As datas no título do álbum são uma referência ao período de tempo durante o qual suas faixas foram compostas: devido ao enorme sucesso de Dois, a EMI faria uma grande pressão para que a banda lançasse um terceiro álbum o mais rápido possível, mas Renato Russo não estava se sentindo à vontade para compor novas canções; a solução foi pegar um monte de músicas que já estavam prontas, mas eram inéditas, e regravá-las para criar o álbum. Aparentemente, a estratégia daria certo, com o álbum vendendo 1,3 milhão de cópias e rendendo mais um Disco de Diamante da ABPD.

Apenas duas das faixas de Que País É Este 1978/1987 foram compostas depois do lançamento de Dois, justamente as duas últimas do álbum, Angra dos Reis, que criticava a construção de uma usina nuclear no Rio de Janeiro, e Mais do Mesmo. Algumas outras faixas foram inicialmente compostas para Dois, mas descartadas depois que o álbum duplo virou um álbum simples, sendo, então, gravadas para o terceiro álbum. A música que dá nome ao álbum, Que País É Este, foi composta em 1978, quando Renato Russo ainda era vocalista do Aborto Elétrico, mas não era cantada pela banda em seus shows por ser uma crítica explícita ao governo da época - uma Ditadura Militar, então realmente não era de bom tom sair criticando o governo assim a céu aberto. Que País É Este e Mais do Mesmo (que, curiosamente, era a preferência de Renato Russo para nome do álbum) seriam censuradas pelo governo, e passariam anos sem poder ser executadas nas rádios.

Que País É Este não seria a única música do Aborto Elétrico a fazer parte do álbum: Química era um dos maiores sucessos da banda, foi a única música do Aborto Elétrico a ser gravada e vendida em LP e fita cassete, foi gravada pelos Paralamas do Sucesso em seu álbum Cinema Mudo, e era uma espécie de faixa-bônus de Dois, presente apenas na versão do álbum em fita cassete; a versão de Química presente em Que País É Este 1978/1987 foi regravada especialmente para o álbum. Também merece menção Eu Sei, originalmente chamada 18 e 21, tocada nos shows da Legião desde a primeira formação da banda, presente em sua primeira gravação com a EMI, mas que ainda não havia sido lançada em nenhum álbum.

A música mais famosa de Que País É Este 1978/1987, porém, é Faroeste Caboclo, uma narrativa de mais de nove minutos de duração, que conta, em 159 versos, sem refrão, a história de João de Santo Cristo, retirante nordestino que vai tentar a vida em Brasília e se envolve com a criminalidade. Considerada por Renato Russo sua Hurricane (canção igualmente longa de Bob Dylan, que conta a história real de um boxeador negro preso injustamente), a faixa é até hoje uma das mais famosas da Legião Urbana, com fãs que se orgulham de saber toda a sua enorme letra de cór. Composta em 1979, ela permaneceria inédita até o lançamento do álbum, e seria parcialmente censurada pelo governo, com os palavrões sendo eliminados da letra para execução nas rádios - e, como nada era colocado no lugar deles, a música dava uns pulos estranhos toda vez que vinha um palavrão.

Após o lançamento do terceiro álbum, a banda passaria mais de um ano sem um novo lançamento, reduziria sua agenda de shows e passaria a fazer músicas mais introspectivas, sem críticas tão explícitas - mas ainda contundentes. A razão para isso não seria a censura, e sim um incidente ocorrido no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em junho de 1988. Seria o primeiro show da Legião Urbana em sua cidade natal desde o lançamento de Dois, e, na época, a banda já contava com fãs insandecidos que os consideravam deuses na terra, a ponto de criar para a banda o apelido "Religião Urbana" - que Renato Russo detestava, criticava e pedia para que não fosse usado. A enorme expectativa criada em torno do show fez com que o Governo do Distrito Federal marcasse a apresentação para o maior estádio de futebol da cidade, com uma carga de 50 mil ingressos à venda; mesmo assim, a procura foi maior que isso, e, durante o show, milhares de fãs se amontoaram e tentaram derrubar os portões do estádio para entrar sem ingresso. Visando impedir uma tragédia maior, os organizadores do show decidiram abrir os portões e deixar todo mundo entrar, mas a medida acabou resultando em violência policial, pessoas pisoteadas, explosões de bombas caseiras e de gás lacrimogêneo, e em um fã alucinado que invadiu o palco, se agarrou a Renato Russo e se recusava a soltá-lo mesmo sendo atingido pelos cassetetes da polícia. O show foi imediatamente interrompido e a banda removida do palco e levada de volta ao hotel, enquanto uma verdadeira batalha campal ocorria no estádio. O saldo final foi de 21 mortos, mais de 300 feridos, 50 presos, e a Legião Urbana nunca mais se apresentando em Brasília enquanto Renato Russo viveu.

Alguns meses depois desse trágico show, Renato Rocha decidiria deixar a banda, alegando diferenças criativas irreconciliáveis com Bonfá e Villa-Lobos - que, por sua vez, alegavam que ele não se dedicava à banda tanto quanto eles. De início, após a saída de Rocha, Renato Russo tentaria voltar a ser o baixista da banda, mas depois, eles optariam por tocar com músicos contratados - para o quarto álbum da banda e os shows que o seguiram, seriam o baixista Bruno Araújo, o guitarrista Fred Nascimento e o tecladista Mu Carvalho - mas sem que estes fizessem, oficialmente, parte da banda, que, até o falecimento de Renato Russo, seria um trio, composto por Renato, Bonfá e Villa-Lobos.

O quarto álbum da banda, As Quatro Estações, seria lançado em outubro de 1989, e se tornaria o mais bem sucedido da história da banda, com mais de 2,5 milhões de unidades vendidas e um Disco de Diamante duplo da ABPD, além da aclamação total da crítica - até quem reclamou o fez com ressalvas. Apesar disso tudo, não havia como agradar a todos: muitos dos fãs mais antigos da banda, especialmente aqueles interessados em um som mais pesado e mais próximo do punk, como o de Que País É Este 1978/1987, ficariam extremamente insatisfeitos com As Quatro Estações, que tinha músicas mais lentas, um estilo mais pop e letras que falavam, principalmente, de amor, sem tantas críticas ao governo.

As Quatro Estações teve nada menos que nove músicas de trabalho - quase o álbum todo, já que o total é de onze. O principal destaque é Pais e Filhos, talvez o refrão mais famoso dentre todas as músicas da banda, e uma das mais pedidas pelos fãs - para o desespero de Renato Russo, já que a música fala de suicídio, e ele imaginava que ela não faria sucesso e ele não teria que cantá-la nem duas vezes, quem dirá centenas. Outro destaque é Monte Castelo, cuja letra traz citações do Soneto 11, do poeta Luiz de Camões, e da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, e cujo título faz referência ao local onde as Forças Armadas Brasileiras ganharam sua primeira grande batalha durante a Segunda Guerra Mundial. As outras sete músicas que tiveram destaque nas rádios foram Há Tempos, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto, 1965 (Duas Tribos), Maurício, Meninos e Meninas, Sete Cidades e Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.

Pouco tempo após o lançamento de As Quatro Estações, Renato Russo descobriu ser portador do vírus da AIDS. Isso levou a problemas em seu relacionamento com seu namorado, o norte-americano Robert Scott Hickmon, que, por sua vez, fizeram o músico recorrer ao alcoolismo. Essa fase turbulenta e complicada de sua vida deu origem ao álbum mais melancólico da Legião Urbana, chamado V, e lançado em novembro de 1991. Experimental e progressivo, V incluiria uma música cantada em português arcaico (Love Song), uma instrumental (A Ordem dos Templários) e a "interminável" Metal Contra as Nuvens, uma das músicas mais bonitas da banda, mas que, com mais de 11 minutos de duração, foi considerada inadequada para tocar nas rádios. As duas únicas músicas de trabalho foram O Teatro dos Vampiros, uma crítica à televisão e à crise econômica pela qual o país passava na época, e a belíssima Vento no Litoral, que fala de saudade e morte. V contaria com Bruno Araújo no baixo e venderia pouco mais de 800 mil cópias, rendendo mais um Disco de Platina triplo da ABPD.

Devido aos problemas de Renato, a banda se recolheria, participando de pouquíssimos shows no início da década de 1990, e sempre com público reduzido. Um desses shows ocorreu na cidade de São Paulo, em janeiro de 1992, e serviu como o segundo programa da série Acústico Mtv, a versão nacional do famoso programa Unplugged, no qual os artistas interpretam seus maiores sucessos em shows intimistas usando apenas instrumentos acústicos - sem componentes eletroeletrônicos que gerem sons, como, por exemplo, usando um piano ao invés de um teclado. A Legião tocaria seus maiores sucessos, como Faroeste Caboclo, Pais e Filhos, Há Tempos, Eu Sei, Índios, Mais do Mesmo, O Teatro dos Vampiros e até mesmo Metal Contra as Nuvens; algumas de suas músicas de menos sucesso, como Baader-Meinhoff Blues e Sereníssima; e quatro covers em inglês: On the Way Home, de Neil Young, Rise, da banda PIL, Head On, da banda The Jesus and Mary Chain, e The Last Time I Saw Richard, de Joni Mitchell. Mas a canção mais famosa do show, que acabaria sendo tocada repetidas vezes nas rádios, seria Hoje a Noite Não Tem Luar, versão de Carlos Colla para a canção Hoy Me Voy Para México, dos Menudos.

Vendo o grande sucesso do Acústico Mtv - que acabaria reprisado diversas vezes pela emissora - e devido à pequena quantidade de shows que a banda fazia, a EMI decidiria lançar um álbum duplo ao vivo, Música p/ Acampamentos, em novembro de 1992. Esse álbum tinha versões dos maiores sucessos da Legião Urbana e de alguns covers cantados pela banda (como de You've Lost That Loving Feeling, dos Righteous Brothers e de Gimme Shelter, dos Rolling Stones) cantados ao vivo durante shows realizado no Parque Antártica, em São Paulo, em agosto de 1990, e no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, em agosto de 1986, e durante apresentações ao vivo nas rádios Transamérica, em 1988 e 1992, e Cidade, em 1992, além de algumas das canções do Acústico Mtv. A única faixa de estúdio era a inédita A Canção do Senhor da Guerra, originalmente gravada para o álbum Legião Urbana, mas posteriormente descartada. Lançada como música de trabalho de Música p/ Acampamentos, A Canção do Senhor da Guerra seria bastante executada nas rádios, se tornando mais um sucesso da banda.

O sexto álbum da Legião, O Descobrimento do Brasil, seria lançado em dezembro de 1993. Gravado enquanto Renato Russo fazia tratamento para se livrar da dependência química, o álbum oscila entre a alegria e a tristeza, e, para alguns, é o mais delicado da banda - exceto, talvez, por Perfeição, uma crítica mordaz à sociedade brasileira, que continua atual ainda hoje. As músicas de trabalho seriam Perfeição, Giz (a música preferida de Renato Russo dentre todas as que compôs, segundo ele mesmo), Vamos Fazer um Filme e Só por Hoje. Assim como V, O Descobrimento do Brasil venderia pouco mais de 800 mil cópias, rendendo mais um Disco de Platina triplo da ABPD.

Em 1994, Renato Russo decidiria lançar seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert, contendo apenas covers de canções em inglês (como de Cherish, da Madonna, e Cathedral Song, de Tanita Tikaram, que ficaria famosa no Brasil pela versão em português Catedral, cantada por Zélia Duncan). Segundo Renato, o álbum era uma homenagem aos 25 anos da Rebelião de Stonewall, na qual membros da comunidade LGBT de Nova Iorque enfrentaram a polícia, que queria fechar o bar Stonewall Inn, frequentado pelos homossexuais da cidade, e é considerada como o evento que levou ao movimento da libertação gay e à luta pelos direitos dos LGBT nos Estados Unidos. Parte das vendas do álbum foi revertida para a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, e seu encarte trazia informações sobre como fazer doações para entidades como a Sociedade Viva Cazuza, o Grupo Gay da Bahia e o Greenpeace.

Renato lançaria mais um disco solo, Equilíbrio Distante, em 1995, dessa vez apenas com canções em italiano, sendo quatro delas (La Solitudine, Gente, Strani Amori e Lettera) covers da cantora Laura Pausini. O álbum seria gravado após uma viagem à Itália, na qual o músico buscou aprender mais sobre sua família e sua ascendência, e sua capa, que trazia o Coliseu, o Maracanã, o Pão de Açúcar e a Torre de Pisa (identificada como "Torre de Pizza"), seria desenhada pelo filho de Renato, Giuliano Manfredini. O videoclipe de Strani Amori seria o último gravado por Renato Russo em sua vida.

O último show da Legião Urbana aconteceria em janeiro de 1995, na cidade de Santos, São Paulo. Depois disso, Renato viajaria à Itália, se envolveria com as gravações de Equilíbrio Distante, e, ao retornar para a banda, já estava muito debilitado para participar de shows. Até mesmo as gravações do sétimo álbum da banda, A Tempestade ou O Livro dos Dias ficariam prejudicadas: exceto pela principal música de trabalho, A Via Láctea, todas as faixas teriam apenas a voz-guia gravada por Renato, que, se sentindo mal, não retornaria ao estúdio para gravar a voz definitiva - a voz-guia é gravada para ser usada quando os músicos forem gravar seus instrumentos; após todos terem gravado, o vocalista, usando os sons dos instrumentos como guia, grava a voz definitiva, que foi o que Renato Russo não conseguiu fazer. As fotos do encarte também foram todas tiradas quando da gravação, exceto as de Renato, aproveitadas de uma sessão de fotos de Equilíbrio Distante, pois ele mesmo, se achando "com aparência de doente", não quis posar para uma nova sessão.

Assim como ocorreu com Dois, A Tempestade foi inicialmente planejado para ser um álbum duplo, mas as baixas vendagens dos dois álbuns anteriores fizeram com que a EMI recusasse o projeto e ele fosse lançado como um álbum simples. Assim como V, o álbum é melancólico, com a maior parte das canções sendo introspectiva ou triste. O álbum contaria com a participação de Carlos Trilha no baixo e nos teclados, e suas músicas de trabalho seriam A Via Láctea e Dezesseis, que conta a história de um adolescente que morre em um pega de automóveis. A Tempestade venderia cerca de 1,1 milhão de cópias, rendendo um Disco de Diamente da ABPD.

A Tempestade seria lançado em 20 de setembro de 1996. 21 dias depois, em 11 de outubro, Renato Russo faleceria, vítima de complicações causadas pela AIDS. Onze dias depois, em 22 de outubro, Bonfá e Villa-Lobos anunciariam o fim oficial da banda.

Em julho de 1997, seria lançado o oitavo e último álbum da Legião Urbana, Uma Outra Estação, um álbum póstumo composto por três canções antigas e doze originalmente criadas quando o plano era fazer de A Tempestade um álbum duplo, mas descartadas quando a EMI vetou a ideia; a maior parte dessas canções estava incompleta, contando apenas com arranjos preliminares e a voz-guia de Renato Russo, e foi finalizada por Bonfá e Villa-Lobos com a participação de Renato Rocha no baixo, Carlos Trilha nos teclados e Tom Capone na guitarra, além da participação especial de Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso, na faixa Travessia do Eixão, uma das três únicas músicas do álbum que não foram compostas por Renato Russo - as outras duas são High Noon (Do Not Forsake Me), uma canção popular norte-americana da década de 1950, e Schubert Ländler, canção instrumental de Franz Schubert interpretada por Carlos Trilha ao piano, escolhida pelo próprio Renato Russo na época da gravação de A Tempestade.

Duas das três músicas antigas foram compostas e gravadas por Renato Russo antes da formação da Legião Urbana: Mariane, cantada em inglês e composta em homenagem a uma namorada que Renato teve na adolescência, e Dado Viciado, que fala sobre problemas que um primo seu teve com drogas, e jamais foi gravada pela banda porque Renato temia que o público achasse que o Dado do título da música fosse Dado Villa-Lobos. A terceira, Marcianos Invadem a Terra, foi originalmente gravada para Dois, mas depois descartada, e não chegou a ser incluída em Que País É Este 1978/1987, ficando inédita até então. Das músicas criadas para A Tempestade e depois descartadas, apenas uma, Sagrado Coração, não tem os vocais de Renato Russo, que, já muito debilitado, não conseguiria gravar a voz-guia no dia marcado; a banda optaria por lançá-la em versão instrumental, mas com a letra constando no encarte.

Uma Outra Estação venderia cerca de 750 mil cópias, sendo o álbum de menor vendagem da Legião Urbana, mas, ainda assim, renderia um Disco de Platina duplo da ABPD. Suas músicas de trabalho seriam Antes das Seis, Flores do Mal e Marcianos Invadem a Terra.

Mesmo após a morte de Renato e o fim oficial da banda, a Legião Urbana continuaria atraindo novos fãs, com uma nova geração, que jamais havia visto Renato Russo cantar ao vivo, surgindo no final dos anos 1990 e início dos 2000. A grande procura pelos CDs da banda motivaria a EMI a lançar quatro álbuns póstumos com material gravado ao vivo: Acústico Mtv, com a gravação do programa de 1992, seria lançado em CD e DVD em 1999; Como É que Se Diz Eu Te Amo, CD duplo de 2001, seria a gravação de dois shows realizados em uma casa de espetáculos do Rio de Janeiro em 1994; outro álbum duplo, As Quatro Estações ao Vivo, lançado em 2004, seria o registro de dois shows realizados no Palestra Itália, em São Paulo, como parte da turnê do álbum As Quatro Estações, em 1990; e Legião Urbana e Paralamas Juntos, lançado em CD e DVD em 2009, seria a gravação de um especial de televisão exibido pela Rede Globo em 1988, que contou com a participação da Legião Urbana e dos Paralamas do Sucesso, inclusive com Renato Russo e Herbert Vianna fazendo um dueto na música Nada por Mim.

A EMI também lançaria dois discos póstumos de Renato Russo: O Último Solo, de 1997, continha músicas gravadas para The Stonewall Celebration Concert e Equilíbrio Distante, mas que ficaram de fora das versões finais dos respectivos álbuns; e Presente, de 2003, conta com gravações caseiras raras e trechos de entrevistas, selecionados dentre o acervo pessoal de Renato pelo jornalista Marcelo Fróes, com permissão da família. Em 2008, o selo independente Discobertas, em parceria com a gravadora Coqueiro Verde, lançaria O Trovador Solitário, álbum composto apenas de canções que Renato gravou sozinho, acompanhado apenas de seu violão, antes da formação da Legião Urbana.

Em setembro de 2009, surgiriam rumores sobre uma possível volta da Legião Urbana, que foram prontamente desmentidos por Bonfá e Villa-Lobos. Ambos participaram, desde então, acompanhados de artistas convidados, de vários tributos à Legião Urbana, mas sem usar o nome da banda, como um show no festival Porão do Rock ainda em 2009; uma apresentação durante o Rock in Rio 4, em 2011, na qual vocalistas de outras bandas, como Rogério Flausino e Toni Platão, cantaram sucessos da Legião acompanhados de Bonfá, Villa-Lobos e da Orquestra Sinfônica Brasileira; e um especial da série Mtv Ao Vivo, realizado em São Paulo em 2012 com o ator Wagner Moura nos vocais. A última apresentação oficial de Bonfá e Villa-Lobos em homenagem à Legião Urbana aconteceu em 2015, em uma série de shows que fizeram parte do projeto Legião Urbana XXX Anos, em comemoração aos trinta anos do lançamento do primeiro álbum da banda.
Ler Mais

Ayrton Senna

Podem parar de fingir, eu sei que, pelas minhas costas, vocês dizem que eu sou um traidor da pátria. Que só me interesso por assuntos estrangeiros. Que não dou valor à cultura nacional. E como vou negar, se, de 714 posts publicados até a semana passada, somente uns três tinham assuntos nacionais?

É claro que o parágrafo acima é uma brincadeira. Eu não acho que nenhum de vocês pensa isso de mim (embora não duvide de que possa haver quem pense), e não é verdade que eu só me interesse por assuntos estrangeiros. O que acontece é que, além de realmente eu me interessar por muito mais músicas, filmes e livros internacionais, é absurdamente mais difícil encontrar as informações que eu gostaria de colocar em um post quando os assuntos são brasileiros. Aliás, parece ser absurdamente difícil encontrar as informações que eu quero quando o assunto não é originário dos Estados Unidos, Grã-Bretanha ou Japão - há tempos, por exemplo, eu penso em fazer um post sobre Nina Persson, a ex-vocalista dos Cardigans em atual carreira solo, mas, enquanto é extremamente fácil encontrar a biografia completa de qualquer jovem cantora norte-americana de sucesso moderado, nem em páginas em sueco eu encontro uma biografia decente dela.

Enfim, já há algumas semanas eu venho matutando sobre isso, e acabei tendo uma ideia interessante. Já faz tempo que eu não faço um Mês Temático aqui no átomo - antigamente, eu costumava separar quatro assuntos ligados a um tema comum e ocupar um mês inteiro com eles, mas já nem me lembro qual foi a última vez em que fiz isso. Como temas nacionais são raros por aqui, eu decidi ressuscitar essa prática, e transformar esse mês de abril - não por acaso, o mês do "descobrimento" do Brasil - no Mês do Brasil no átomo. Isso mesmo, hoje e nas próximas três semanas, teremos temas nacionais por aqui. Começando por um post sobre Ayrton Senna - que eu penso em fazer desde que fiz o do Nigel Mansell, há mais de dez anos, mas sempre acabo desistindo por vários motivos, das primeiras vezes, justamente por não conseguir encontrar as informações que eu queria. Mas hoje não. Apagam-se as luzes vermelhas, sobe o giro dos motores, começa o Mês do Brasil no átomo!

Ayrton Senna da Silva nasceu em São Paulo, em 21 de março de 1960, filho do empresário Milton da Silva e de Neide Senna da Silva. Era o "irmão do meio", entre a mais velha, Viviane, e o mais novo, Leonardo. Até os quatro anos de idade, ele morou com a família em uma casa que pertencia a seu avô materno, João Senna, a poucos metros do Campo de Marte, um aeroporto na zona norte de São Paulo destinado a voos particulares de jatinhos e helicópteros, mas que, na década de 1960, também servia para entusiastas do kart testarem seus equipamentos. Desde os três anos de idade ele já demonstrava interesse por carros e corridas, e, aos quatro, dizia que queria ser piloto. Para agradá-lo, seu pai construiria um kart "caseiro", usando o motor de um cortador de grama.

A carreira efetiva de Senna no kart começaria aos 13 anos de idade, no Kartódromo de Interlagos, disputando o Campeonato Paulista. Já em sua primeira corrida, mesmo sendo o mais jovem na pista, ele faria a pole position (largaria da primeira posição; não custa nada explicar, vai que alguém aí não sabe) e lideraria a maior parte da corrida, até se envolver em um acidente com outro competidor. Paralelamente às corridas de kart, ele estudaria no Colégio Rio Branco, no bairro dos Jardins, onde se formaria em 1977, mesmo ano em que seria campeão pela primeira vez no Campeonato Brasileiro e no Campeonato Sul-Americano de Kart. Ele seria tricampeão em ambas as competições, conquistando ambos os títulos também em 1978 e 1980; em 1979, ele decidiria focar no Campeonato Mundial, mas acabaria com o vice-campeonato, em parte devido a uma punição que lhe custou os pontos obtidos em uma das baterias, por estar com o barulho do escapamento 0,5 dB acima do máximo permitido. Senna também seria vice-campeão mundial em 1980, ano no qual terminaria empatado em pontos com o holandês Peter de Bruijn, mas perderia nos critérios de desempate. Segundo o próprio Senna, jamais ter sido campeão mundial de kart seria uma das frustrações de sua carreira.

Apesar de todos os seus sucessos no kart, os pais de Senna não eram muito favoráveis a que ele seguisse uma carreira no automobilismo, preferindo que ele estudasse para assumir os negócios da família. Após concluir o colégio, ele chegaria a se matricular em uma faculdade de administração, mas, sem interesse, abandonaria após apenas três meses. Como as vitórias no kart continuavam acontecendo, seu pai decidiria investir em sua carreira mais um pouco, e até estimulou o filho quando ele recebeu um convite da equipe Van Diemen para disputar o campeonato inglês de Fórmula Ford 1600 de 1981. Com o nome de Ayrton da Silva, Senna se sagraria campeão, com 12 vitórias em 20 corridas.

Senna já havia até decidido respeitar a vontade dos pais, se aposentar do automobilismo e se dedicar à administração após o título da Fórmula Ford 1600, mas, ao retornar ao Brasil, receberia um convite da equipe Rushen Green para disputar, em 1982, o campeonato inglês e o campeonato europeu da categoria imediatamente superior, a Fórmula Ford 2000. Vendo que era isso que o filho queria, seus pais lhe deram permissão para que ele fosse morar na Inglaterra e competir, e seu pai ainda negociaria patrocínios com Banerj, o antigo Banco do Estado do Rio de Janeiro, e com a fábrica de roupas Pool. Como "da Silva" era um sobrenome muito comum no Brasil, ele pediria à equipe para usar o sobrenome de sua mãe, se tornando, então, Ayrton Senna.

Senna venceria ambos os campeonatos, com 15 vitórias em 18 provas do inglês e cinco vitórias em nove provas do europeu. Ele também disputaria o Mundial de Kart em 1981 e 1982, em busca do tão sonhado título, mas, focado nas corridas de Fórmula Ford, terminaria na 4a posição em 1981, e apenas na 14a posição em 1982. A boa performance de Senna na Fórmula Ford 2000 lhe renderia um convite da equipe West Surrey Race para disputar, em Thruxton, Inglaterra, uma corrida de Fórmula 3 que não valia pontos para o campeonato de 1982; Senna faria a pole position, a volta mais rápida, e ainda venceria a corrida, chegando 13 s à frente do segundo colocado.

Se isso foi alguma espécie de teste, Senna passou com louvor, sendo contratado pela West Surrey para disputar a temporada de 1983 da Fórmula 3 inglesa. Senna dominaria a primeira parte da temporada, vencendo as nove primeiras corridas, mas, na segunda, encontraria um adversário em Martin Brundle, da equipe Jordan, com quem travaria duelos memoráveis. Brundle alcançaria Senna na pontuação, mas o brasileiro ainda seria o campeão, com um total de 12 vitórias em 20 provas, após uma chegada apertada na última, mais uma vez em Thruxton. Naquele ano, Senna venceria seis das oito provas realizadas em Silverstone (chegando em segundo em uma das outras duas e abandonando a outra), o que faria com que a imprensa especializada inglesa, em sua homenagem, apelidasse o circuito de "Silvastone". Ainda em 1983, Senna seria o campeão, correndo pela Theodore Racing Team, do Grand Prix de Macau, a prova de Fórmula 3 de maior prestígio no mundo, que hoje faz parte do Campeonato Mundial, mas que na época podia ser disputada por qualquer piloto de Fórmula 3.

A performance de Senna em 1983 chamaria a atenção da Fórmula 1, e, no início de 1984, ele receberia convites para testar na Williams, na McLaren, na Brabham, na Toleman e na Lotus. Peter Warr, o diretor da Lotus, queria contratá-lo para o lugar de Nigel Mansell, mas a patrocinadora da equipe, a Imperial Tobacco, fabricante dos cigarros John Player Special, fazia questão de um piloto inglês, e o outro piloto da Lotus, o italiano Elio de Angelis, era considerado a maior esperança da equipe para o título. O mesmo aconteceria na Brabham: Senna impressionaria nos testes, sendo mais rápido até que o primeiro piloto da equipe, o também brasileiro Nelson Piquet, mas o patrocinador da equipe, a indústria de laticínios Parmalat, fazia questão de pelo menos um piloto italiano (que acabaria sendo Teo Fabi), e ninguém iria trocar Piquet, o campeão do ano anterior, por um estreante. Senna também seria mais rápido nos testes que os dois pilotos da Williams, mas, como a equipe já tinha Keke Rosberg (campeão em 1982) e Jacques Laffite, tentou convencer Senna a assinar como piloto de testes, com direito a uma vaga em 1985. Essa também foi a proposta da McLaren, que já contava com Niki Lauda (que viria a ser campeão em 1984) e Alain Prost. Senna, porém, queria começar a disputar o campeonato já em 1984, e acabaria assinando com a pequena Toleman, que tinha um fraco motor Hart, pneus Pirelli (considerados, na época, inferiores aos Goodyear e Michelin, os outros dois fornecedores da Fórmula 1 naquele ano) e, como primeiro piloto, o venezuelano Johnny Cecotto, que havia começado a carreira no motociclismo.

Senna faria sua estreia na Fórmula 1 em 25 de março de 1984, justamente no Grande Prêmio do Brasil, na época disputado no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o qual teve de abandonar na oitava volta após um estouro de motor. Na corrida seguinte, em Kyalami, África do Sul, terminaria em sexto, conquistando seus primeiros pontos na categoria, resultado que repetiria na corrida seguinte, em Zolder, Bélgica. Na quarta corrida do campeonato, em Ímola, San Marino, Senna não conseguiria se classificar (na época, nem todos os carros participavam automaticamente da corrida, apenas os 22 melhores dos treinos) devido a problemas com o carro, na única vez em que não se classificou para uma prova em toda a sua carreira. Senna abandonaria a quinta corrida, em Dijon, França, mas a sexta, em Mônaco, seria um dos pontos altos de sua carreira: sob forte chuva, Senna, que largou em 13o, veio passando todo mundo até chegar em segundo, atrás de Prost, que, desesperado, pedia para que a McLaren intercedesse junto aos comissários pela interrupção da corrida, que, segundo ele, não tinha condições de segurança para prosseguir devido ao temporal. A corrida seria interrompida na 32a volta, com Senna ultrapassando Prost logo após as bandeiras vermelhas serem mostradas; o regulamento, porém, determinava que valiam os resultados da volta anterior, e, quando completaram a 31a, Prost ainda era o primeiro, e Senna, o segundo. Esse foi o primeiro pódio da carreira de Senna, que sempre declarou que a corrida só havia sido interrompida para favorecer Prost e evitar sua vitória com a Toleman - os engenheiros da equipe, entretanto, mais tarde declarariam que o carro de Senna tinha um problema na suspensão e, se a corrida não tivesse sido interrompida, provavelmente ele teria quebrado e tido de abandonar.

Senna ainda conseguiria mais dois pódios em 1984, chegando em terceiro lugar em Brands Hatch, Inglaterra, e em Estoril, Portugal, a última das 16 corridas daquele ano. Ele terminaria o campeonato em nono lugar com 13 pontos, empatado com Mansell. Em agosto, ele assinaria com a Lotus, justamente para ocupar o lugar de Mansell, que iria para a Williams, se tornando o primeiro piloto da equipe a não ser escolhido pessoalmente pelo seu fundador, Colin Chapman, falecido em 1982. Sua ida para a Lotus seria considerada quebra de contrato pela Toleman, que tinha uma cláusula de preferência, e, como punição, Senna ficaria fora do GP da Itália de 1984, sendo substituído pelo sueco Stefan Johansson. Além de na Fórmula 1, Senna, em 1984, competiria na prova dos 1.000 Km de Nürburgring, dividindo o carro, um Porsche 956 da equipe Joest Racing, com Johansson e com o francês Henri Pescarolo, e terminando em oitavo; e de uma corrida especial, também disputada em Nürburgring, por vários pilotos e ex-pilotos de Fórmula 1, incluindo Prost, Lauda, Carlos Reutemann, Stirling Moss e os campeões Jack Brabham (1959, 1960 e 1966), Denny Hulme (1967) e Alan Jones (1980), todos guiando carros idênticos entre si construídos pela Mercedes; Senna largaria em segundo, atrás de Prost, mas o ultrapassaria já na primeira curva, vencendo a corrida de ponta a ponta.

Em seu primeiro ano na Lotus, Senna conseguiria sua primeira pole, sua primeira vitória, e seu primeiro hat trick (pole, vitória e volta mais rápida na mesma corrida), todos no GP de Portugal, segundo da temporada, disputado em Estoril, em 21 de abril, sob forte chuva. Já nessa corrida, aliás, Senna ganharia sua reputação de piloto excelente sob chuva: seu desempenho seria tão espetacular que ele colocaria uma volta sobre o terceiro colocado da prova, o francês Patrick Tambay, da Renault, e, por pouco, não ultrapassaria também o segundo, o italiano Michele Alboreto, da Ferrari, que cruzou a linha de chegada mais de um minuto depois de Senna. Ao longo da temporada, Senna conseguiria nada menos que sete poles, mas seu desempenho geral ainda não seria espetacular: no GP do Brasil, primeira prova da temporada, Senna abandonaria mais uma vez, dessa vez por pane elétrica, e, após o GP de Portugal, ele amargaria uma sequência de sete maus resultados, só voltando a pontuar em Österreichring, na Áustria, quando chegou em segundo atrás de Prost. Depois disso, ele teve uma sequência de quatro pódios seguidos - terceiro em Zandvoort, Holanda, e em Monza, Itália, primeiro em Spa-Francorchamps, Bélgica (mais uma vez sob chuva), e segundo em Brands Hatch, Inglaterra - e abandonou as duas últimas corridas, somando um total de 38 pontos que o deixariam em quarto lugar no campeonato, atrás de Prost, Alboreto e Rosberg. De Angelis, o companheiro de equipe de Senna, seria o quinto, com 33 pontos, mas, a partir da metade da temporada, a relação entre os dois azedaria - de Angelis acreditava que deveria ser o primeiro piloto, por ser mais experiente, mas a equipe dava o tratamento preferencial a Senna. Ao fim da temporada, irritado, ele decidiria trocar a Lotus pela Brabham.

Senna conseguiria seu primeiro pódio no GP do Brasil em 1986, chegando atrás apenas de Piquet. Na corrida seguinte, em Jerez de la Frontera, Espanha, ele conseguiria sua primeira vitória no seco, chegando à frente de Mansell por apenas 0,014 segundos, em uma das chegadas mais disputadas da história da Fórmula 1. Após essas duas corridas, Senna lideraria pela primeira vez o campeonato, mas seu carro se mostraria menos confiável que as Williams de Piquet e Mansell e que a McLaren de Prost, que dominariam o campeonato, com o francês conquistando seu segundo título. Senna conseguiria um total de oito poles e oito pódios, totalizando 55 pontos e terminando o campeonato mais uma vez em quarto, atrás de Prost, Mansell e Piquet. Um desses oito pódios seria mais uma vitória, no GP dos Estados Unidos, disputado em Detroit; a corrida seria realizada no dia seguinte à eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1986, e, para alegrar o povo brasileiro, Senna pediria a um dos fiscais de pista uma bandeira do Brasil, a qual seguraria enquanto dava a volta da vitória - aquela na qual os pilotos levam o carro da linha de chegada até os boxes após o fim da corrida. Esse gesto se tornaria um dos mais emblemáticos de Senna, e seria repetido em cada uma de suas vitórias desde então.

A temporada de 1987 começaria com muitas novidades para Senna: a Lotus deixaria de ser preta e passaria a ser amarela (com a Imperial Tobacco decidindo expor a marca Camel ao invés da John Player Special), seus motores deixariam de ser Renault e passariam a ser Honda (os mesmos da Williams), e seu companheiro de equipe passaria a ser o veterano japonês Satoru Nakajima (substituindo o escocês Johnny Dumfries, que tinha entrado no lugar de de Angelis); além disso, a Lotus estrearia nessa temporada uma nova suspensão ativa, que dava mais estabilidade e velocidade ao carro. A Williams ainda se mostraria bastante superior à Lotus, porém, com Mansell conseguindo sete poles, e Piquet outras quatro e ganhando o campeonato, no último de seus três títulos. Senna conseguiria apenas uma pole, em Ímola, na segunda corrida do campeonato, mas, no geral, faria um excelente campeonato, com oito pódios, incluindo duas vitórias - sua primeira em Mônaco, a primeira de um carro com suspensão ativa na Fórmula 1, e sua segunda em Detroit. Senna terminaria o campeonato em terceiro, com 57 pontos, atrás de Piquet e Mansell. Ao fim da temporada, ele receberia uma proposta da McLaren, e decidiria trocar a Lotus pelo time capitaneado por Ron Dennis (que, curiosamente, para 1988, também teria motores Honda, substituindo os Porsche).

Em 1988, com Senna e Prost, a McLaren teria uma das duplas de pilotos mais fortes de todos os tempos, e deixaria claro que nenhum deles seria "o primeiro", com ambos tendo permissão para disputar os pontos entre si. No início, Prost era favorável tanto à vinda de Senna para a equipe quanto à disputa de ambos pelo título, mas, à medida que os estilos, os temperamentos e as personalidades dos dois pilotos se mostravam completamente diferentes, uma rivalidade entre ambos se tornava cada vez mais aflorada, até se transformar em uma das maiores da história do esporte. Essa rivalidade se refletiria especialmente em duas corridas da temporada: em Mônaco, Senna bateria na volta 67, e, irritado por ver aquela que poderia ser sua segunda vitória seguida no Principado cair no colo de Prost, ao invés de retornar para os boxes, iria para casa (não para São Paulo, ele tinha um apartamento em Mônaco), só retornando à noite, quando a equipe já estava recolhendo tudo para ir embora; já em Estoril, Prost largaria na pole, Senna tentaria ultrapassá-lo já na primeira curva, e os dois teriam uma briga tão acirrada que Senna quase faria Prost bater no muro dos boxes a quase 300 Km/h, o que lhe renderia uma multa da FIA e um puxão de orelha da equipe, que o obrigaria a pedir desculpas publicamente ao francês. Depois desse incidente, Prost passaria a ver Senna como irresponsável, e a relação entre os dois azedaria de vez.

A rivalidade, porém, acabaria compensando para a McLaren, que venceria 15 das 16 provas do campeonato - a única que escaparia seria o GP da Itália, no qual Prost abandonaria com um problema de motor, Senna se envolveria em um acidente com a Williams do francês Jean-Louis Schlesser, e a Ferrari, com o austríaco Gerard Berger, que venceria a corrida com Alboreto chegando em segundo, conseguiria sua primeira dobradinha em Monza desde 1979, pouco menos de um mês após a morte do Comendador Enzo Ferrari, fundador da escuderia, o que motivou uma homenagem emocionada da equipe após a corrida.

Além do recorde de vitórias da McLaren, Senna conseguiria dois recordes pessoais em 1988, com 13 poles (o recorde anterior era de 9, de Piquet, em 1984) e oito vitórias (sendo o anterior de sete, de Jim Clark em 1963 e de Prost em 1984). Com 90 pontos, Senna se sagraria campeão, conquistando seu primeiro título, mas com uma ajuda do regulamento: originalmente, Prost é que havia conquistado mais pontos (105 do francês contra 94 de Senna), mas o regulamento da época determinava que apenas os 11 melhores resultados de cada piloto nas 16 corridas valiam para o título, e Prost, que, em todas as corridas que não abandonou, chegou em primeiro ou em segundo, acabou tendo de descartar três segundos lugares (enquanto Senna descartou um quarto e um sexto), terminando com apenas 87 pontos válidos, três a menos que Senna.

Isso aumentaria ainda mais a rivalidade entre os pilotos, que, em 1989, saiu das pistas, incluindo um jogo psicológico nos bastidores, através do qual Prost tentava desestabilizar Senna para que ele cometesse erros nas corridas. Senna não se deixaria abalar, mas somente até o GP do Japão, em Suzuka, penúltima corrida do campeonato, no qual ocorreria um dos episódios mais controversos da história da Fórmula 1: Senna precisava vencer para continuar na luta pelo título, mas era Prost quem estava liderando a corrida. Na volta 46, após várias tentativas frustradas, Senna finalmente se viu em condições de ultrapassar Prost, e se colocou lado a lado com o rival. Prost, então, fez uma manobra que a FIA considerou legal, mas que muitos dizem ter sido proposital para tirar Senna da corrida, e ambos os carros tocaram rodas e saíram da pista. Prost decidiu abandonar a corrida e sair do carro, mas Senna pediu a alguns fiscais de pista que empurrassem seu carro, que havia desligado em decorrência do acidente, para que ele pegasse novamente. Os fiscais empurraram Senna de volta para a pista, ele seguiu até os boxes, trocou o bico do carro, avariado na colisão, e, em uma corrida fantástica, ultrapassou todo mundo e conseguiu a vitória.

Após a corrida, porém, os comissários de prova decidiram desclassificar Senna, alegando que ele não poderia ter recebido a ajuda dos fiscais de pista para voltar à corrida, fez um traçado irregular (cortando uma chicane) em seu retorno, e entrou nos boxes de maneira irregular. Senna ficou extremamente irritado com a decisão - que acabou fazendo com que Prost fosse campeão, conquistando seu terceiro título independentemente do resultado do GP da Austrália, em Adelaide, última corrida da temporada - e acusou o então presidente da FIA, o também francês Jean-Marie Balestre, de mandar os comissários desclassificarem-no para favorecer Prost. Os comissários, evidentemente, negaram qualquer envolvimento de Balestre, e, no julgamento de Senna, após a temporada, a FIA decidiria lhe aplicar uma enorme multa e suspender sua Super Licença, efetivamente impedindo que ele pilotasse um carro de Fórmula 1. Senna recorreria e receberia de volta a Super Licença, mas a relação entre ele e Prost se tornaria insustentável, com o francês decidindo trocar de lugar com Berger e ir para a Ferrari em 1990.

Tirando esse incidente controverso, Senna teve mais uma temporada espetacular em 1989, com direito a mais 13 poles (das outras três, duas foram de Prost, e a única que não foi da McLaren foi obtida por Riccardo Patrese, da Williams, em Hungaroring, Hungria) e mais seis vitórias (o desempenho da McLaren, porém, não foi tão avassalador quanto no ano anterior, com Prost conseguindo outras quatro, e as outras seis ficando com as demais equipes). Senna conseguiu mais vitórias, mas Prost teve mais segundos lugares (seis contra um) e pontuou em mais três corridas; no final, com os descartes, Prost terminou com 76 pontos, enquanto Senna ficou em segundo com 60.

Em 1990, Senna se envolveria em mais duelos dramáticos contra Prost, mas, como agora cada um estava em uma equipe, o jogo psicológico já não era tão forte. Senna acabaria a temporada com 10 poles e 11 pódios, sendo seis vitórias; Prost, porém, veio em seu encalço, com cinco vitórias. Na penúltima corrida do ano, em Suzuka, a situação era a inversa do ano anterior, com Prost precisando vencer para continuar na briga. Após conseguir a pole, Senna faria um pedido à organização do GP para que o pole largasse do lado esquerdo, mais limpo, da pista, ao invés do direito, mais sujo, usado desde 1987; a organização atenderia ao pedido, mas Balestre o consideraria "descabido", e ordenaria que fosse usado o lado direito como sempre - além disso, em uma reunião antes da corrida, alertaria aos pilotos que passar por sobre a linha de saída dos boxes para disputar posições após a largada seria "inapropriado". Ainda engasgado com o que ocorrera no ano anterior, e acreditando que Balestre estava determinado a prejudicá-lo, Senna decidiria que não iria mudar seu curso na primeira curva, custasse o que custasse. Dito e feito, após a largada, Prost, do lado mais limpo, teria vantagem, e logo colocaria o carro ao lado do de Senna, que, sem mudar seu traçado normal, colidiria contra o carro do francês, tirando ambos da corrida. Com 78 pontos, Senna não poderia mais ser alcançado por Prost, que, após um terceiro lugar em Adelaide (onde Senna abandonaria com problemas de câmbio) e os descontos, acabaria em segundo lugar, com 71. Senna conquistaria seu segundo título mundial, e a FIA consideraria o evento como um acidente normal de corrida, mas Prost se diria "enojado", e consideraria se aposentar da Fórmula 1.

Prost não se aposentaria, mas, em 1991, não teria chances de brigar contra Senna, graças a um carro problemático da Ferrari e a um excepcional da Williams, que transformaria Mansell e Patrese nos dois principais rivais do brasileiro. Apesar de protagonizar duelos memoráveis contra Senna, Mansell seria um rival mais carismático que Prost, além de mais educado: em Silverstone, durante o GP da Inglaterra, Senna erraria na estratégia, e pararia na última volta; após ganhar a corrida, Mansell lhe daria uma "carona" até os boxes, com Senna sentado na lateral de seu carro. Em 1991, Senna ganharia o último de seus três títulos, se tornando o segundo brasileiro tricampeão mundial de Fórmula 1.

Senna teria uma temporada impecável, com oito poles e 12 pódios, incluindo 7 vitórias, sendo as quatro primeiras do ano seguidas - e poderiam ter sido 8, mas, no Japão, Senna decidiria reduzir a velocidade e deixar Berger, seu companheiro de equipe, que vinha em segundo, vencer. Uma dessas vitórias seria sua primeira no GP do Brasil, disputado em Interlagos, São Paulo, onde ele começou sua carreira no kart, e não poderia ter sido de maneira mais espetacular: Senna largaria na pole, mas as Williams tinham rendimento claramente superior, e Mansell se aproximava perigosamente, chegando a ameaçá-lo antes de ter de ir para os boxes com um furo em um dos pneus. Por volta da metade da corrida, vários carros, incluindo os de Senna, Mansell e Patrese, começaram a apresentar problemas na caixa de marchas. Mansell teve de abandonar, Patrese passou a dirigir mais cautelosamente, mas Senna foi perdendo as marchas uma a uma, até ficar somente com a sexta. Sem querer abandonar nem reduzir a velocidade, ele decidiria ir até o fim da corrida, quase dez voltas, somente com a sexta marcha - e, como se dirigir dessa forma já não fosse difícil o bastante, faltando três voltas para o final ainda começaria a chover. Senna cruzaria a linha de chegada em primeiro, 2,9 s à frente de Patrese, mas esgotado fisicamente, com espasmos musculares e febre, devido ao esforço para guiar o carro em condições tão adversas - sem forças nem para sair do veículo, ele teve de ser ajudado pelos fiscais de pista, e levado para o pódio de ambulância.

Senna terminaria a temporada com 96 pontos, 24 à frente de Mansell, que somou 72; Patrese seria o terceiro, Berger o quarto, e Prost apenas o quinto - e a regra dos descartes seria abolida, com os pontos de todas as corridas valendo para o campeonato. Ao fim da temporada, ele planejava sair da McLaren e assinar com a Williams, mas o presidente da Honda pediria para que ele ficasse na equipe durante mais um ano, para ajudá-los a desenvolver os novos motores V12 que seriam usados em 1992; em respeito e agradecimento, ele aceitaria, e renovaria com a McLaren.

1992, entretanto, seria um ano bem diferente dos anteriores para o brasileiro. Com um carro contendo o que havia de mais moderno em matéria de tecnologia, a Williams se mostraria imbatível, e, sem que os novos V12 se mostrassem tão confiáveis, Senna lutaria para não fazer apenas figuração, terminando a temporada com apenas uma pole e três vitórias; sete pódios, mas sete abandonos. Prost, pelo menos, decidiria tirar um ano sabático, então foi menos um rival na pista para o brasileiro - em compensação, um jovem Michael Schumacher já começaria a despontar pela Benetton, e se envolveria em pelo menos três confusões com o brasileiro: após o GP do Brasil, no qual Senna teve problemas de motor, Schumacher o acusaria de "fechar a porta" intencionalmente seguidas vezes quando tentou ultrapassá-lo; no GP da França, Schumacher bateria propositalmente em Senna enquanto este tentava ultrapassá-lo, o que resultaria no brasileiro tendo de abandonar a corrida; e, durante a classificação para o GP da Alemanha, Senna acusaria Schumacher de bloqueá-lo propositalmente na pista. Senna também seria protagonista de uma cena rara e muito tocante: durante a classificação para o GP da Bélgica, o francês Érik Comas, da Ligier, bateria forte, e Senna seria o primeiro a chegar ao local do acidente; ele decidiria parar seu carro e ajudar o colega, que ficou inconsciente durante alguns momentos, a sair do carro, que começava a pegar fogo, gesto que receberia muitas homenagens por parte de publicações especializadas e empresas de seguro automotivo. Além de ajudar Comas na pista, Senna ainda iria visitá-lo mais tarde no hospital; até hoje o francês se lembra do brasileiro com carinho, e o considera um dos responsáveis por ele ainda estar vivo.

Senna terminaria a temporada com 50 pontos em quarto lugar, atrás de Mansell, Patrese e Schumacher. Após a Honda anunciar que deixaria a Fórmula 1 no final de 1992, ele começaria a analisar outras opções de equipe para 1993; sua preferência seria a Williams, mas, após Mansell também anunciar que deixaria a Fórmula 1 ao final daquela temporada, a equipe contrataria Prost, que incluiria em seu contrato uma cláusula proibindo-os de contratar Senna como seu segundo piloto. Senna receberia um convite da Ferrari, mas, como a equipe italiana também não estava lá essas coisas, ele declinaria. Ele chegaria até mesmo a fazer um teste na Fórmula Indy, para a equipe Penske, na qual corria o brasileiro bicampeão da Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, mas, apesar de fazer um bom tempo, não se empolgaria com o carro, na época mais pesado e mais difícil de dirigir que os da Fórmula 1. Sem opções, ele acabaria renovando com a McLaren, mas apenas para a primeira corrida do ano, em Kyalami.

Com a saída da Honda, a McLaren tentaria obter motores Renault, os mesmos usados pela Williams, mas não conseguiria chegar a um acordo com a fábrica francesa. Sem muitas outras opções, ela decidiria fechar com a Ford, mas com um contrato extremamente desfavorável, que faria com que ela tivesse motores de duas gerações atrás em relação à principal equipe da Ford, a Benetton de Schumacher. A McLaren, então, decidiria compensar a falta de potência no motor com alta tecnologia, não poupando custos para ter um carro tão bom quanto o da Williams - inclusive, com uma suspensão eletrônica ainda mais moderna. A ideia de Senna era assinar com a McLaren corrida a corrida, apenas se o carro se mostrasse sempre competitivo e capaz de brigar pelo título; Senna acabaria realmente conseguindo tirar o máximo do carro, faria as 16 corridas pela McLaren, e terminaria o ano com 73 pontos, uma pole e sete pódios, sendo cinco vitórias - seu companheiro de equipe, o norte-americano Michael Andretti, filho do campeão Mario Andretti (1978), em sua estreia na Fórmula 1, substituindo Berger, que havia ido para a Ferrari, já não se daria tão bem com o carro, tendo um início de ano desastroso, com quatro abandonos, e sendo substituído pelo finlandês Mika Häkkinen nas três últimas corridas do ano.

No início da temporada de 1993, parecia que Senna estava rumo a seu quarto título. Ele começaria o ano com um segundo lugar, atrás de Prost, na África do Sul, mesmo após se envolver em um acidente com Schumacher, e, então, conseguiria duas vitórias espetaculares, a primeira no Brasil, sendo carregado por uma multidão que invadiu a pista após a prova, após uma corrida marcada por uma forte chuva que acabou fazendo com que Prost se acidentasse, e punições aplicadas a Senna e Schumacher por ultrapassar sob bandeira amarela; e a segunda no GP da Europa, disputado em Donington Park, Inglaterra, em mais uma corrida marcada por chuva intermitente, na qual Senna sairia de quinto para primeiro em uma volta espetacular, cortando caminho pela pit lane, onde ficam os boxes - o que era permitido na época, já que não havia limite de velocidade na pit lane como hoje - e colocando uma volta sobre todos os demais pilotos exceto o inglês Damon Hill, filho do campeão Graham Hill (1962) e companheiro de Prost na Williams, que chegaria em segundo mais de um minuto atrás. Após abandonar em Ímola com um problema hidráulico, Senna também seria segundo lugar em Montmeló, Espanha (ambas as corridas vencidas por Prost), e, em seguida, conquistaria sua sexta vitória, um recorde até hoje não alcançado, nas ruas de Mônaco - feito que lhe valeria o apelido de "Rei de Mônaco", pois Mônaco, sendo um Principado, não tem Rei, sendo governado por um Príncipe.

Depois de Mônaco, entretanto, a coisa ficaria feia para Senna, que amargaria uma sequência de oito corridas sem subir ao pódio, incluindo três abandonos e um 18o lugar no GP do Canadá, em Montreal. Com quatro vitórias, um segundo e um terceiro lugares nessas oito provas, Prost conseguiria construir uma diferença quase impossível para Senna alcançar. Senna ainda seria o vencedor no Japão e na Austrália - na última vitória na Fórmula 1 de um carro com suspensão ativa - mas, como Prost chegaria em segundo em ambas as provas, se sagraria tetracampeão com 99 pontos, ficando Senna com o vice-campeonato, 26 pontos atrás do rival e apenas quatro pontos à frente de Hill.

Prost se aposentaria após o título, e Senna ficaria livre para assinar com a Williams. Alegando que a Fórmula 1 estava ficando muito dependente da tecnologia, porém, o presidente da FIA, o inglês Max Mosley, eleito para substituir Balestre em outubro de 1993, decidiria proibir, em janeiro de 1994, a suspensão ativa, o controle de tração e os freios ABS de uma vez só com uma canetada - gesto que foi criticado por muitos profissionais do automobilismo, que alegaram que as equipes teriam pouco tempo para se adaptar às mudanças, e que o ideal seria retirar os componentes eletrônicos aos poucos e com prazos. Sem os componentes de alta tecnologia, a Williams não conseguiria construir um carro tão eficaz quanto os das últimas três temporadas, voltando a ficar no mesmo patamar de suas principais rivais. A Benetton, por outro lado, tiraria um coelho da cartola, e faria um carro superior aos de suas colegas mais ricas - segundo muitos, incluindo o próprio Senna, a Benetton usaria componentes proibidos pelo regulamento, mas escondidos dos fiscais, o que nunca foi provado. Senna criticaria muito o novo carro da Williams, e chegaria a declarar que seria "um ano de muitos acidentes", e que "teremos sorte se nada de mais grave acontecer".

A temporada de 1994 começaria com o GP do Brasil. Senna largaria na pole, mas seria ultrapassado por Schumacher nos boxes, após a troca de pneus da Benetton ser mais eficiente que da Williams; forçando o carro para tentar alcançar o alemão, ele acabaria rodando e tendo de abandonar a corrida. Na segunda prova, o GP do Pacífico, disputado em Aida, Japão, Senna faria mais uma vez a pole, mas, logo na primeira curva, seria atingido por trás por Häkkinen, rodaria, e acabaria atingido na lateral pela Ferrari do italiano Nicola Larini, abandonando mais uma vez. A terceira prova seria o GP de San Marino, em Ímola.

A Williams faria várias modificações no carro para tentar torná-lo mais competitivo, mas Senna não ficaria satisfeito, alegando que o carro havia ficado mais difícil de dirigir. Todo o fim de semana seria marcado por eventos trágicos, começando por um acidente nos treinos de sexta feira, no qual o brasileiro Rubens Barrichello decolaria com sua Jordan e atingiria uma cerca acima da proteção de pneus, quebrando o nariz e o braço. Nos treinos de sábado, o austríaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, piloto estreante da equipe Simtek, bateria contra um muro de concreto após perder o controle do carro devido a uma quebra da asa dianteira na curva Villeneuve e faleceria, a primeira morte durante uma corrida de Fórmula 1 desde o italiano Riccardo Paletti no GP do Canadá de 1982. Senna acompanharia o corpo de Ratzenberger até o centro médico do autódromo, e, ao ver como o brasileiro ficou afetado pelo evento, o médico-chefe da Fórmula 1, Dr. Sid Watkins, recomendou que ele abandonasse a corrida e fosse pescar. Senna respondeu "eu não posso parar de correr", mas passaria o restante do fim de semana cabisbaixo e pensativo, como se realmente considerando não correr. Ele ainda conversaria com Prost, presente como comentarista de uma televisão francesa, sobre a possibilidade de criarem uma nova associação de pilotos, que lutaria por maior segurança.

A corrida começaria com Senna na pole, sob ataque de Schumacher. Logo na largada, porém, o Benetton do finlandês J.J. Lehto desligaria, e seria atingido em cheio pela Lotus do português Pedro Lamy. Um pneu e vários destroços voariam em direção às arquibancadas, ferindo oito espectadores e um policial. O carro de segurança, um Vectra pilotado pelo italiano Max Angelelli, entraria na pista para ditar o ritmo de corrida enquanto a pista era limpa. Muitos pilotos reclamariam de que o ritmo de Angelelli era lento demais, o que poderia causar perda de rendimento e de segurança nos pneus dos carros de Fórmula 1, acostumados a rodar em altas velocidades, e que causam instabilidade no carro quando frios; o próprio Senna chegaria a emparelhar com o carro de segurança e pedir para que Angelelli fosse mais veloz. A corrida seria reiniciada na volta 6 com Senna imprimindo um ritmo forte, seguido de perto por Schumacher. Na volta de número 7, ao se aproximar da curva Tamburello, Senna, ao invés de fazer a curva, sairia da pista em linha reta, se chocando a 307 Km/h contra um muro de concreto.

A corrida seria interrompida, e a equipe médica chegaria até o carro em dois minutos. Senna seria retirado do carro ainda vivo, mas com a pulsação muito fraca, e tendo perdido muito sangue. O Dr. Watkins chegaria a fazer uma traqueostomia ainda na pista, antes de Senna ser colocado em um helicóptero e encaminhado ao Hospital Maggiore, na cidade de Bolonha. Oficialmente, ele morreria no hospital, mas há quem diga que ele já tenha chegado lá morto, e até quem afirme que ele já estava morto na pista ao ser colocado no helicóptero. De acordo com as leis italianas, a hora da morte foi considerada como sendo a hora na qual o carro se chocou contra o muro. Senna, portanto, faleceu às 14 horas e 17 minutos do dia primeiro de maio de 1994, aos 34 anos.

A causa oficial do acidente foi a quebra da barra de direção, que impediu o carro de contornar a curva quando Senna virou o volante. A Williams chegou a ser julgada na justiça italiana por homicídio culposo (quando ocorre um assassinato, mas o assassino não tinha intenção de matar, tendo a morte ocorrido por negligência, imperícia ou imprudência do mesmo), com o engenheiro Patrick Head, responsável por ter feito modificações na barra a pedido de Senna, que não gostava de sua posição em relação ao assento, sendo considerado culpado, mas não sendo preso porque o veredito só saiu 13 anos após o acidente, e, pelas leis italianas, o prazo máximo para se aplicar uma sentença de homicídio é de 7 anos e 6 meses. A Williams até hoje inocenta Head, e afirma que a barra de direção se quebrou como consequência da batida no muro, e não como causa da mesma.

Senna foi sepultado em São Paulo sob forte comoção; estima-se que mais de três milhões de pessoas foram às ruas ver seu caixão ser levado em um carro dos bombeiros até o cemitério, e mais de duzentas mil compareceram ao velório. Ele seria enterrado com honras de herói nacional, e o governo declararia luto oficial de três dias por sua morte. Seu caixão seria carregado durante o funeral por pilotos e ex-pilotos, amigos e rivais de Senna, como Prost, Hill, Berger, Barrichello e Emerson Fittipaldi. Donos e chefes de equipe, como Ken Tyrrell, Peter Collins, Ron Dennis e Frank Williams também estariam presentes, mas a família não permitiria a presença de Bernie Ecclestone, o "chefão" da Fórmula 1, por entender que a corrida deveria ter sido cancelada após o acidente, tendo Ecclestone feito pressão para que ela fosse reiniciada - o que de fato aconteceu, com a prova terminando com uma vitória de Schumacher. O presidente da FIA, Max Mosley, também não compareceria, alegando preferir ir ao funeral de Ratzenberger, que ocorreria no dia seguinte, "pois todo mundo havia ido ao de Senna". O túmulo de Senna é hoje um dos mais visitados do mundo, recebendo mais visitantes por ano que os de John F. Kennedy, Marilyn Monroe e Elvis Presley somados.

Senna encerraria sua carreira tendo participado de 162 GPs, nos quais obteve 65 poles, 19 voltas mais rápidas e 80 pódios, sendo 41 vitórias. Ele é atualmente o quinto piloto mais vitorioso da história (atrás de Schumacher com 91, Lewis Hamilton com 53, Prost com 51 e Sebastian Vettel com 43) e o segundo com mais poles (atrás de Schumacher, mas o alemão fez 68 em 308 corridas, então a porcentagem de Senna, com 65 em 162, é maior). Seis recordes da Fórmula 1 ainda pertencem a Senna: maior número de poles consecutivas (8, entre o GP da Espanha de 1988 e o GP dos Estados Unidos de 1989), maior número de largadas consecutivas da primeira fila (24, entre o GP da Alemanha de 1988 e o GP da Austrália de 1989), maior número de vitórias consecutivas em um mesmo GP (5 em Mônaco, entre 1989 e 1993), maior número de poles em um mesmo GP (8 em San Marino, empatado com Schumacher, que conseguiu 8 no Japão), maior número de poles consecutivas em um mesmo GP (7 em San Marino, entre 1985 e 1991) e maior número de GPs vencidos de ponta a ponta (ou seja, largando na pole e vencendo a corrida sem mais ninguém ocupando a primeira posição; Senna conseguiu fazer isso 19 vezes, seis a mais que os segundos colocados, Vettel e Jim Clark, que fizeram 13). Senna também é um dos três únicos pilotos da história a largar na primeira fila em todas as corridas de uma temporada, o que fez em 1989; os outros dois foram Prost (em 1993) e Hill (em 1996).

Após a morte de Senna, várias mudanças, algumas há anos pedidas pelos pilotos mas ignoradas pela FIA, foram feitas para tentar tornar a Fórmula 1 mais segura, como as laterais dos cockpits dos carros se tornando mais altas, a introdução de um apoio para a parte de trás da cabeça do piloto (conhecido como HANS, de head and neck support, "apoio para o pescoço e cabeça", em inglês), de novos tipos de muros e áreas de escape, e, talvez as mais controversas, o redesenho do traçado de várias pistas e a limitação da aceleração e da velocidade final dos carros. Há quem diga que, depois disso, a Fórmula 1, além de mais segura, ficou mais chata; outros rebatem dizendo que a chatice veio de outros fatores, como a acentuação do domínio das equipes mais ricas sobre as mais pobres, e não da segurança.

Para mim, a Fórmula 1 ficou mais chata por causa da ausência de Ayrton Senna.
Ler Mais