Os Nibelungos

Quando eu era criança, na casa da minha avó, tinha uma coleção de livros com umas ilustrações muito bizarras. Eram uns seis ou sete, cada um com uma capa de uma cor (um verde, um azul, um amarelo etc.), e no estilo "enciclopédia sobre todos os assuntos": cada um deles podia ter, em um mesmo volume, a biografia resumida de uma figura histórica, as regras de um esporte, a resenha de um livro, enfim, mais ou menos como se o átomo fosse encadernado e vendido. Esse tipo de coleção era comum quando eu era criança - a mais famosa era a Conhecer - embora eu suspeite que esses livros fossem mais antigos, tipo da década de 1960 ou 1970, por causa do estilo das ilustrações que eles traziam, bastante diferentes das encontradas nas coleções da década de 1980, aquela na qual eu vivia na época.

Enfim, eu não me lembro o nome da coleção - pelo que eu me lembro, aliás, os livros nem tinham nome na capa - mas, de início, eu gostava de folheá-los por causa das figuras, e depois decidi começar a ler alguns de seus textos. Um deles, o de capa verde se eu não me engano, tinha uma seção dedicada a Os Nibelungos, com um resumo da história e uma ilustração meio tosca de Siegfried matando o dragão. Como lá não dizia do que se tratava, eu supus que fosse um livro, e até procurei para comprar; somente anos mais tarde é que eu descobri se tratar de uma história mitológica, o que provavelmente explica o porquê de eu jamais ter encontrado o livro.

Essa semana, eu comprei alguns DVDs de filmes antigos, e, dentre eles, havia uma versão muda de Os Nibelungos. Fiquei muito satisfeito de encontrar uma nova versão que eu não conhecia para aquela história que fez parte da minha infância (eu já tinha outra versão em DVD, mas bem mais recente), e decidi escrever um post para celebrar. Hoje, portanto, é dia de Os Nibelungos no átomo!

A primeira versão de Os Nibelungos é uma história mitológica, transmitida através da tradição oral, mais ou menos como ocorre com as histórias da mitologia grega. Originária da região da Germânia, onde hoje está localizada a Alemanha, a história original era sobre a Família Real dos Burgúndios, cuja capital de seu reino era a cidade de Worms, que existe até hoje, e fica no sudeste da Alemanha, sendo cortada pelo rio Reno - por sobre o Reno, aliás, existe hoje, em Worms, uma ponte chamada Ponte dos Nibelungos, em homenagem à história. A razão pela qual a história se chama Os Nibelungos se perdeu no tempo; o tesouro da Família Real, nela, se chama "O Tesouro dos Nibelungos", mas não é dada nenhuma razão para esse nome - a maioria dos estudiosos acredita que "Nibelungos" era o nome do povo originalmente dono do tesouro, que depois teria sido roubado ou tomado pelos Burgúndios. A história é ambientada nos séculos V e VI, e sua menção mais antiga está em um poema datado do ano 920; alguns personagens são reais, existindo registros históricos de suas vidas, mas outros, aparentemente, são inventados.

Vale citar, também, que a história de Os Nibelungos possui uma versão nórdica, que pode ser encontrada em duas fontes. A primeira é um poema chamado Atlakviða, mas cujo personagem central é Átila, o Huno, e não Siegfried, herói da versão germânica - a história, entretanto, apesar do ponto de vista diferente, é a mesma. A segunda é a saga islandesa Völsunga, que fala sobre a ascensão e o declínio do clã Völsung, mas que possui uma parte devotada a Siegfried (lá chamado Sigurd) e Brünhild (lá chamada Brynhild), ambos personagens centrais de Os Nibelungos. A Völsunga teria sido uma das principais inspirações para um dos livros de J.R.R. Tolkien, A Lenda de Sigurd e Gudrún.

Em algum momento que ninguém sabe quando foi, alguém que ninguém sabe quem é decidiu escrever uma versão da história mitológica - que, como vimos, até então só existia de forma oral. Essa pessoa cujo nome se perdeu no tempo produziria uma série de manuscritos hoje conhecidos como Nibelungenlied, "A Canção dos Nibelungos", que depois seriam copiados por outros autores, ajudando a espalhar a história. Existem, ainda hoje, 35 manuscritos, embora alguns outros - logo os mais completos - tenham se perdido no final do século XVI; a maioria deles pertence ao século XIII, e foi encontrada somente no século XVIII. Nem todos os manuscritos contêm exatamente a mesma história, ou seja, conforme os demais autores copiavam do original (que, hoje, ninguém sabe qual é), alteravam algumas de suas partes, embora a essência central tenha permanecido sempre a mesma. Quase todos os manuscritos estão escritos em alemão medieval, mas alguns estão escritos em holandês. Onze dos manuscritos estão quase completos, os outros 24 consistem de apenas trechos.

A história dos manuscritos da Nibelungenlied, talvez por ser a que existia em forma escrita, se tornaria a versão mais famosa de Os Nibelungos. Ela é dividida em duas partes, com a primeira sendo centrada em Siegfried, e a segunda em sua esposa, Kriemhild (que, no livro da minha avó, se chamava Cremilda, então eu costumo chamá-la por esse apelido carinhoso). Kriemhild é irmã do Rei da Burgúndia, Gunther, e irmã dos príncipes Gernot e Giselher. No início da história, Kriemhild sonha com um falcão sendo abatido por uma flecha, e sua mãe lhe diz que isso é um sinal de que seu marido morrerá de forma violenta. Apavorada, ela faz votos de que jamais vai se casar. Isso seria mais fácil se ela não fosse a mulher mais bonita de toda a Burgúndia, e não atraísse pretendentes de todos os cantos do planeta, mas, ainda assim, ela se mantém irredutível, e rejeita todos eles.

Surge, então, nosso herói Siegfried. Príncipe herdeiro de Xanten, Siegfried decidiria levar uma juventude simples, vivendo como aprendiz de ferreiro em uma choupana às margens do Reno enquanto treinava suas habilidades com a espada. Quando acredita que ele está pronto para o mundo, seu mestre, Mime, aconselha que ele retorne a Xanten e reclame seu trono. No caminho, porém, Siegfried escuta a história do dragão Fafnir, que vive nas redondezas, e que, segundo a lenda, quem se banhar em seu sangue se tornará invulnerável. Siegfried decide fazer uma paradinha para matar o dragão antes de retornar a Xanten, e, após fazê-lo, aproveita que o sangue do monstro se depositou em uma espécie de piscina natural, tira toda a sua roupa e entra lá. Para azar de Siegfried, entretanto, bem quando ele está entrando na piscina de sangue, cai uma folha de uma árvore em suas costas, fazendo com que o corpo do herói se torne totalmente impenetrável, exceto por aquele pedacinho onde a folha ficou.

Depois de matar o dragão, no caminho para Xanten, Siegfried se envolve em outras aventuras, que não são descritas nos Nibelungenlied, apenas citadas quando ele é apresentado na corte da Burgúndia. Em uma dessas aventuras, ele derrota dois irmãos que estavam discutindo por causa de um tesouro - o Tesouro dos Nibelungos - e o clama para si; em outra, ele derrota um assaltante que, para que Siegfried não o mate, permite que ele fique com uma capa especial que torna o usuário invisível. Após essas aventuras, sabendo da beleza de Kriemhild e de seu voto de que ela jamais se casará, ele decide ir até Worms e tentar a sorte. Lá, ele é bem recebido, mas Gunther não permite que ele conheça Kriemhild. Para provar que é um aliado valoroso, Siegfried decide ficar e ajudar Gunther a derrotar um exército saxão que tenta invadir a Burgúndia.

Ao ver Siegfried em batalha, Hagen von Tronje, principal guerreiro do exército de Gunther e seu principal conselheiro, tem uma ideia: Gunther é apaixonado por Brünhild (que, no livro da minha avó, se chamava Brunilda), a Rainha da Islândia. O problema é que ela só aceita se casar com quem derrotá-la em três provas - arremesso de lança, arremesso de pedregulho e salto em distância - o que não seria nada de mais se não fossem dois detalhes: o primeiro é que Brünhild é absurdamente forte, e ninguém jamais conseguiu derrotá-la; o segundo é que quem tenta derrotá-la e não consegue é condenado à morte, por isso Gunther nunca tentou. Hagen propõe que Siegfried ajude Gunther a derrotar Brünhild, e, em troca, receberá a mão de Kriemhild em casamento, ao que Siegfried e Gunther concordam. Ao saber que Siegfried é invulnerável, Kriemhild se anima, pois ele seria um marido que não sucumbiria à previsão de seu sonho.

Na Islândia, Siegfried faz uso de sua capa da invisibilidade para ajudar Gunther a derrotar Brünhild nas três provas. Sem escolha, ela aceita se casar com ele, mas desconfia de que alguma coisa está errada. Satisfeito, Gunther declara que Siegfried agora é seu Irmão de Sangue, e lhe confere a mão de Kriemhild. Brünhild volta com eles para Worms, e os dois casais - Gunther e Brünhild, Siegfried e Kriemhild - se casam no mesmo dia. Brünhild, contudo, se recusa a deixar Gunther dormir com ela, e, toda vez que ele tenta, como ela é muito mais forte, o derrota e o amarra. Após várias tentativas, Gunther, já irritado por não conseguir consumar seu casamento, pede ajuda a Siegfried; o plano é que Siegfried se vista com as roupas de Gunther, e, no escuro, derrote e amarre Brünhild, como ela faz com ele. Gunther pede para que Siegfried não durma com Brünhild, apenas a derrote, mas, na hora do vamos ver, o texto dá a entender que ele não respeita esse pedido. De qualquer forma, Siegfried toma o anel e o cinturão de Brünhild, e os dá de presente a Kriemhild; Brünhild, envergonhada por ter sido derrotada, deixa de resistir a Gunther, e permite que ele consume seu casamento. Depois disso, ela passa a ser uma esposa absurdamente infeliz, somente andando cabisbaixa e obedecendo a todas as ordens do marido, como se não tivesse vontade própria. Sem mais o que fazer em Worms, Siegfried leva Kriemhild para morar com ele em Xanten.

Anos se passam, e, um dia, Siegfried e Kriemhild vêm a Worms visitar Gunther. Quando Brünhild e Kriemhild estão indo para a Catedral rezar, as duas iniciam uma discussão sobre quem deveria entrar primeiro, pois, na opinião de Brünhild, Siegfried é vassalo de Gunther, então ela tem precedência. Irritada, Kriemhild mostra a Brünhild o anel e o cinturão que um dia foram dela, e revela que quem a derrotou, tanto nas provas quanto na noite de núpcias, foi Siegfried. Humilhada, Brünhild pede a morte de Siegfried, mas Gunther se nega, alegando que eles são Irmãos de Sangue. Ela, então, começa uma greve de fome, e ameaça contar a todos reinos rivais que Gunther é fraco e impotente. Hagen von Tronje, achando que isso pode ser uma ameaça ao reinado de Gunther, decide ele mesmo matar Siegfried, inventando que a Burgúndia está novamente em guerra e que Gunther precisa da ajuda do amigo. Como Siegfried é invulnerável, Hagen vai conversar com Kriemhild para ver se ele tem algum ponto fraco, e, ao saber da história da folha, pede para que ela marque o local na túnica de Siegfried, com o pretexto de que, assim, poderá protegê-lo melhor.

Durante a falsa batalha, Hagen arremessa uma lança que atinge o ponto vulnerável, matando Siegfried. Ao retornarem a Worms, Kriemhild percebe sua traição e jura vingança, e, para que ela não use o tesouro do marido para contratar um exército, Hagen o joga no Reno. Brünhild, para que Gunther não saia vitorioso mesmo após a morte de Siegfried, se mata com a própria espada enfiada na barriga.

Anos se passam, e Kriemhild ainda não se esqueceu da traição de Hagen, procurando sem sucesso por uma forma de se vingar. Um dia, Átila, o Rei dos Hunos (chamado de Etzel, seu nome em alemão, nos manuscritos), a pede em casamento, e ela aceita. Ela tenta convencer o marido a usar seu exército para atacar a Burgúndia, mas novamente sem sucesso. Mas, quando nasce o primeiro filho do casal, ela o convence a convidar toda a corte da Burgúndia para o batizado; quando todos estão presentes, Kriemhild arranja para que uma briga entre soldados hunos e burgúndios comece, que logo escala para uma batalha entre as duas cortes - na qual Kriemhild não ficará satisfeita até que Hagen confesse seu crime e revele onde escondeu o tesouro. A batalha sai do controle, porém, e não somente todos os irmãos de Kriemhild, incluindo o Rei Gunther, são mortos, mas também o filho de Átila e Kriemhild é assassinado por Hagen. Furiosa, Kriemhild corta a cabeça de Hagen, mas acaba também morrendo, pelas mãos do revoltado Hildebrand, conselheiro de Átila e pai da esposa de Giselher, que jamais concordou com o plano de Kriemhild, e achou um completo absurdo tantos terem de morrer para satisfazer sua vingança. Com a morte de Kriemhild, toda a linhagem da Casa Real da Burgúndia se encerra.

A Nibelungenlied é considerada uma das mais famosas e importantes histórias do povo alemão, comparada por críticos à Ilíada, e usada incontáveis vezes no passado pelo governo como propaganda para inflamar o povo, inclusive na época da Primeira Guerra Mundial, quando a expressão Nibelungentreue ("lealdade nibelunga") foi usada para descrever a aliança entre a Alemanha e a Áustria, e pôsteres com a figura de Siegfried apunhalado em seu ponto vulnerável criticavam o acordo de paz de 1918, cujos críticos consideravam que a Alemanha havia sido apunhalada nas costas por seus aliados. Os nazistas, na Segunda Guerra Mundial, também frequentemente se utilizavam de expressões de seu texto e de ilustrações de suas passagens para motivar as tropas, com vários cartazes tendo Siegfried em destaque tendo sido distribuídos durante a Batalha de Stalingrado.

Sendo uma obra tão famosa, é claro que ela teria várias adaptações. A mais antiga é uma ópera, composta pelo alemão Richard Wagner entre 1848 e 1874, com o nome de O Anel dos Nibelungos (Der Ring des Nibelungen). A ópera possui quatro partes, chamadas Das Rheingold ("O Ouro do Reno"), Die Walküre ("As Valquírias"), Siegfried e Götterdämmerung ("O Crepúsculo dos Deuses"), sendo que a segunda parte conta com uma das composições mais famosas de Wagner, A Cavalgada das Valquírias. A ópera possui um total de 15 horas de duração, o que torna impossível que as quatro partes sejam apresentadas em sequência; Wagner as compôs para que fossem apresentadas em quatro noites seguidas, mas, hoje, é comum que haja um intervalo maior entre elas, ou que apenas uma das partes seja montada. Wagner não seria muito fiel ao texto dos Nibelungenlied, acrescentando à história vários elementos da Völsunga, e criando outros por conta própria - como o tal anel do título, que pertence ao anão Alberich, guardião do tesouro dos Nibelungos, e torna quem o tiver no dedo imortal. Como frequentemente acontece nesses casos, porém, vários elementos da ópera de Wagner se tornariam parte do imaginário popular, com grande parte das pessoas não sabendo que eles não faziam parte da obra original.

No início do século XX, o diretor de cinema Fritz Lang (de Metrópolis) decidiria fazer uma adaptação cinematográfica de Os Nibelungos, o mais fiel possível à Nibelungenlied. Para que não ficasse um filme demasiadamente longo, ele faria dois, o primeiro indo até a morte de Siegfried e Brünhild, e o segundo começando com o casamento de Kriemhild e Etzel. Lang e sua esposa, Thea von Harbou, co-escreveriam o roteiro da primeira parte, mas von Harbou sozinha escreveria a segunda. Ambos os filmes são em preto e branco e mudos, mas possuem alguns dos efeitos especiais mais fantásticos já vistos em sua época - incluindo o dragão Fafnir, que cuspia fogo e tudo, e não deixa nada a dever a dragões de produções mais modernas. O primeiro filme, Die Nibelungen: Siegfried (conhecido em português como "A Morte de Siegfried"), estrearia na Alemanha em 14 de fevereiro de 1924, enquanto o segundo, Die Nibelungen: Kriemhilds Rache ("A Vingança de Kriemhild"), estrearia em 26 de abril do mesmo ano. O elenco conta com Paul Richter como Siegfried, Margarete Schön como Kriemhild, Hanna Ralph como Brünhild, Theodor Loos como Gunther, Hans Adalbert Schlettow como Hagen von Tronje, Georg John como Mime, Erwin Biswanger como Giselher, Rudolf Klein-Hogge como Etzel, Georg August Koch como Hildebrand, e Rudolf Rittner como Rüdiger, que, no filme, é conselheiro de Etzel, pupilo de Hildebrand e pai da esposa de Giselher, e se mata após ser forçado a atacar os burgúndios e matar o próprio genro.

Os filmes de Lang foram grandes sucessos de público e crítica, sendo considerados obras-primas do expressionismo alemão. Como aconteceu com muitos filmes da época, porém, eles não foram corretamente preservados, pois não havia uma preocupação de se guardar as obras para o futuro. Os negativos originais mofaram e ficaram além de qualquer reparo, e as cópias existentes ou estavam em péssimo estado ou bastante editadas. Durante muito tempo, as melhores versões disponíveis contavam com 143 e 145 minutos, respectivamente, mas nelas estavam faltando vários dos intertítulos (aquelas telas pretas nas quais a narração e os diálogos aparecem escritos nos filmes mudos) e, quando comparadas a cópias sobreviventes dos roteiros originais, via-se que elas não correspondiam exatamente às versões originais dos filmes, com alguns elementos do primeiro filme tendo sido adicionados ao segundo.

Em 2010, a Fundação F.W. Murnau, mais importante organização dedicada à preservação de filmes cinematográficos da Alemanha, começaria um grande esforço para encontrar a maior quantidade possível de cópias dos filmes na Europa, e, através delas, começaria um grande processo de restauração, que levaria por volta de cinco anos, e resultarias nas versões dos filmes o mais próximas possível às originais - mas, ainda assim, não idênticas, sendo que um dos motivos para se determinar o que falta é a ausência de informações sobre a duração dos filmes originais, sendo usado como única base de comparação o roteiro original. Essas versões da Murnau possuem, respectivamente, 150 e 131 minutos, estão disponíveis em DVD, e foram as que me motivaram a escrever esse post.

Na década de 1960, o produtor alemão Arthur Brauner decidiria fazer um remake dos filmes de Lang, mas dessa vez coloridos e falados, usando o roteiro original de Lang e von Harbou como base. Brauner desejava que o próprio Lang dirigisse o novos filmes, mas o diretor foi energicamente contra, o que levaria o produtor a contratar Harald Reinl, o mais bem sucedido diretor da Alemanha Ocidental na época, para o projeto. Os novos roteiros ficariam a cargo de Reinl, Harald G. Petersson e Ladislas Fodor, mas seguiriam os originais quase passo a passo. Após uma pesquisa que determinou que o público preferiria que Siegfried fosse interpretado por um ator desconhecido, Brauer convidaria o atleta Uwe Beyer, Medalha de Bronze no arremesso do martelo nas Olimpíadas de 1964, para o papel; Beyer, porém, não tinha nenhuma experiência prévia como ator, e seu desempenho deixou tanto a desejar que ele acabou sendo dublado pelo ator Thomas Danneberg na pós-produção. O restante do elenco era formado por Maria Marlow como Kriemhild, Karin Dor como Brünhild, Rolf Henniger como Gunther, Siegfried Wischnewski (ora vejam só) como Hagen, Dieter Eppler como Rüdiger, e três atores norte-americanos, Terence Hill como Giselher, Skip Martin como Alberich e Herbert Lom (o nome mais famoso do elenco) como Etzel.

O primeiro filme, chamado Die Nibelungen: Siegfried von Xanten, teria 91 minutos e estrearia em 13 de dezembro de 1966; o segundo, chamado, assim como o original, Die Nibelungen: Kriemhilds Rache, teria 90 minutos, e estrearia em 16 de fevereiro de 1967. O primeiro filme seria um grande sucesso de público, o segundo nem tanto, mas ambos seriam fracassos retumbantes de crítica, com o primeiro sendo considerado infantil, ingênuo e cômico, e o segundo, "pouco mais que uma contagem de corpos". Em 1976, talvez para comemorar os dez anos de lançamento do original, Brauner condensaria ambos os filmes em uma única versão de 110 minutos, lançada no cinema com o nome de Die Nibelungen; essa versão seria considerada pela crítica ainda pior que os filmes originais, com alguns críticos dizendo que a edição deixou os filmes sem pé nem cabeça. Para evitar confusão com os filmes originais de Lang, desde 1982, quando foi exibida pela primeira vez na televisão, a "versão única" dos filmes de Brauer - em mais de um sentido, já que também é a única que existe hoje em DVD - seria renomeada para Das Schwert der Nibelungen ("A Espada dos Nibelungos"), nome pelo qual é conhecida até hoje.

A versão mais recente de Os Nibelungos (que eu também tenho em DVD), foi concebida como uma minissérie em duas partes para a TV, exibida originalmente na Alemanha em 29 e 30 de novembro de 2004, com um total de 222 minutos. As duas partes seriam condensadas em um único filme de 162 minutos, que estrearia nos cinemas do Reino Unido antes mesmo da estreia na TV alemã, em 19 de novembro de 2004. O título original da minissérie em alemão era, simplesmente, Die Nibelungen, mas, em inglês, a coisa fica um pouco complicada: quando foi exibido nos cinemas do Reino Unido, o filme ganhou o título Ring of the Nibelungs ("O Anel dos Nibelungos"), mas, quando foi exibido na TV, pelo Channel 4, em dezembro de 2005, o canal resolveu mudar seu título para Sword of Xanten ("A Espada de Xanten"). Quando o filme foi ser exibido pela primeira vez nos Estados Unidos, pelo Sci Fi Channel, em março de 2006, eles mudaram o título de novo, para o bizarro Dark Kingdom: The Dragon King ("Reino Sombrio: O Rei Dragão"), título com o qual ele também foi lançado em DVD por lá. No Reino Unido, por outro lado, o filme seria lançado em DVD com o título Curse of the Ring, e foi esse que escolheram traduzir por aqui, com o filme em português se chamando A Maldição do Anel.

Se me permitem uma pausa para uma informação pessoal, aqui no Brasil A Maldição do Anel foi exibido pela primeira vez em sua forma original de minissérie, se não me engano, pela HBO, no rastro do sucesso no cinema de O Senhor dos Anéis. Eu resolvi assistir por acaso, sem nem saber o que era, e fiquei empolgadíssimo quando vi que se tratava da história de Os Nibelungos. Procurei o DVD para comprar durante anos, mas, infelizmente, ele foi lançado por aqui em versão apenas para locadoras, sem versão para o consumidor particular. Acabei o encontrando há poucos anos, em uma loja de usados - com um adesivo com o nome de uma locadora e tudo. Infelizmente, é a versão condensada, mas é melhor que nada.

Dirigido por Uli Edel, A Maldição do Anel é até bastante fiel á história da Nibelungenlied, mas faz algumas alterações, como transformar o fato de a população da Europa ainda estar se convertendo ao cristianismo na época em que a história se passa de apenas um detalhe para um ponto crucial; além disso, em A Maldição do Anel, Brünhild conhece e se apaixona por Siegfried antes mesmo de ele ajudar Gunther a vencê-la, o que cria um triângulo amoroso entre os dois e Kriemhild - que usa uma poção do amor para que Siegfried se apaixone por ela. O Anel do título faz parte do Tesouro dos Nibelungos, que Siegfried encontra após derrotar o dragão Fafnir, e, como o título dá a entender, é amaldiçoado, trazendo ruína a quem o colocar no dedo. Finalmente, Siegfried não vai morar com o ferreiro (que, no filme, se chama Eyvind), por vontade própria, e sim porque é salvo por ele quando criança de um ataque a Xanden, que matou toda a sua família; para que Siegfried não seja reconhecido, Eyvind passa a chamá-lo de Eric, nome que ele usa durante todo o filme. Apenas a primeira parte da Nibelungenlied foi adaptada, com a história terminando com a morte de Siegfried e Brünhild. O elenco conta com Benno Fürmann como Siegfried/Eric; Alicia Witt como Kriemhild; Kristanna Loken (de O Exterminador do Futuro 3) como Brünhild, Max von Sydow (de uma centena de filmes, o nome mais famoso do elenco) como Eyvind, Samuel West como Gunther, Robert Pattinson (de Crepúsculo) como Giselher, e Julian Sands como Hagen.

Para terminar, vale citar que existe também uma versão italiana para o cinema, chamada Sigfrido: La Leggenda dei Nibelunghi, dirigida por Giacomo Gentilomo e contando com Sebastian Fischer como Sigfrido, Ilaria Occhini como Crimilde, Katharina Mayberg como Brunilde, Giorgio Constantini como Gunther e Rolf Tasna como Hagen. Assim como A Maldição do Anel, esse filme é baseado apenas na primeira parte, terminando com a morte de Sigfrido e Brunilde, e traz alguns elementos da ópera de Wagner. Com 93 minutos de duração, e tendo estreado em 1957 (embora eu não tenha conseguido descobrir a data exata), Sigfrido merece uma menção honrosa por causa de seu Fafnir, considerado um dos dragões mais impressionantes da história do cinema, criado por Carlo Rambaldi. Esse Fafnir seria tão impressionante que renderia a Rambaldi um convite para trabalhar em Hollywood; lá, ele faria parte da equipe de efeitos especiais do King Kong de 1976, de Alien: O Oitavo Passageiro, E.T.: O Extraterrestre e Duna, dentre outros, construindo uma carreira de sucesso no ramo.
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Esportes de Demonstração (III)

Não sei se alguém aí reparou, mas, neste ano de 2017, todos os meus posts sobre esportes foram sobre lutas. Isso começou meio sem querer, porque eu queria tentar falar sobre os esportes do programa olímpico que ainda não tinha abordado, que por um acaso eram todos lutas, e aí me deu vontade de falar sobre caratê, wushu, sumô, enfim, quando passei da metade do ano resolvi fazer de propósito e falar só sobre lutas. Quando terminei todas as óbvias, e estava vendo sobre quais outras poderia falar para completar o ano, me dei conta de outro fato interessante: eu já havia falado sobre todos os esportes que um dia fizeram parte das Olimpíadas como Esportes de Demonstração, exceto três - e esses três eram três lutas. Como nos outros dois posts sobre Esportes de Demonstração eu falei sobre três esportes em cada, decidi que hoje vou falar sobre esses três logo de uma vez. Hoje, portanto, é dia de mais Esportes de Demonstração olímpicos no átomo!

Vamos começar logo pelo primeiríssimo de todos, aquele que inaugurou a tradição dos Esportes de Demonstração, a glima. A glima é uma luta de origem escandinava, que fazia muito sucesso na Suécia no início do século XX. Como as Olimpíadas de 1912 seriam disputadas em Estocolmo, capital daquele país, o comitê organizador local tentou convencer o COI a adicionar um torneio de glima aos Jogos, o que não deu muito certo porque o esporte era praticamente um desconhecido fora da Escandinávia. Ainda assim, o COI deu autorização para que um torneio de glima fosse realizado paralelamente às Olimpíadas, utilizando as instalações das mesmas, com os participantes ganhando as mesmas medalhas e podendo ficar alojados na Vila Olímpica - características que seriam comuns a todos os Esportes de Demonstração desde então. O COI também estipularia que, a cada edição dos Jogos, o comitê organizador local poderia incluir um esporte local que quisesse apresentar ao público como Esporte de Demonstração, desde que incluísse também um esporte estrangeiro pouco conhecido no país, para apresentá-lo ao público local. Essa regra já começaria a valer em 1912, e, além da glima, os organizadores incluiriam o beisebol como Esporte de Demonstração.

Segundo registros históricos, a glima foi inventada pelos vikings, como forma de treinar o corpo e a mente para as muitas batalhas das quais participavam. O nome glima, no antigo idioma nórdico, significava "relâmpago", e foi escolhido tanto pelo fato de que os lutadores precisam de movimentos rápidos quanto pelo de o deus do trovão e do relâmpago, Thor, ser também o patrono das lutas na mitologia nórdica. Segundo os relatos, as crianças vikings começavam a treinar a glima aos 6 ou 7 anos de idade, e, a cada ocasião em que o povo se reunia, como em feiras e comemorações, homens e mulheres tomavam parte em um grande campeonato de glima, no qual lutavam de forma amistosa.

A primeira codificação das regras da glima como esporte ocorreria no ano de 1325, na Islândia, para onde a glima foi levada pelos vikings na Idade Média. A glima é considerada o esporte nacional da Islândia, e o campeonato de glima mais antigo do mundo ainda disputado é o de lá, cuja primeira edição foi realizada em 1888. A atual federação internacional da glima, a Associação Internacional de Glima (IGA, da sigla em inglês), é, na verdade, a federação nacional da Islândia. Apesar de todos os esforços da IGA, a glima ainda é bem pouco praticada fora da Escandinávia, de forma que a própria IGA só conta, hoje, com seis membros: Islândia, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda e Sri Lanka. A glima também é muito popular na Noruega, mas os campeonatos de lá são regidos pela Federação Norueguesa, que, devido a discordâncias sobre a melhor forma de difundir o esporte, não é membro da IGA. Outro país que conta com um grande número de praticantes, mas não é filiado à IGA, são os Estados Unidos, cuja federação nacional atende pelo curioso nome de Federação Viking de Glima (VGF).

A glima possui três modalidades. A mais simples é a chamada hryggspenna ("luta de segurar as costas"), na qual os lutadores só podem tocar o oponente da cintura para cima; o objetivo é fazer com que o oponente toque o chão com qualquer parte do corpo que não seja a sola dos pés, com o primeiro a fazer isso sendo declarado vencedor. Lutas da modalidade hryggspenna costumam ser bastante velozes, principalmente porque os lutadores já começam "abraçados", em uma posição na qual cada um passa um dos braços por baixo e um por cima dos ombros do oponente. Na hryggspenna a força é o fator determinante, e lutadores dessa modalidade tendem a ser maiores e mais pesados que os das demais.

A segunda modalidade é a lausatök ("pegada livre"), a mais popular na Noruega (onde é chamada de løse-tak) e nos Estados Unidos. Como o nome sugere, na lausatök é permitido tocar o oponente em qualquer parte do corpo (exceto de forma desleal, como enfiar a mão no olho ou apertar as genitais). Para ser o vencedor, é necessário que o oponente esteja deitado no chão, seja de lado, de costas ou de bruços, mas também que o lutador esteja de pé; por causa disso, a luta pode se desenrolar no chão, com vários golpes cujo objetivo é conseguir se levantar antes do oponente. Durante muito tempo, a lausatök foi considerada uma luta violenta, e chegou até mesmo a ser banida na Islândia; em 1987, porém, um novo conjunto de regras foi criado para amenizá-la, e a modalidade voltou a ser regulada pela IGA.

A mais popular e mais praticada modalidade da glima é a brokartök ("pegada no calção"), a que mais se assemelha à luta original criada pelos vikings. Na brokartök, cada lutador usa um cinto especial, que, na verdade, é composto de três cintos, um na cintura e um na metade de cada coxa, com os dois últimos sendo ligados ao primeiro. O objetivo da luta é, segurando o oponente por um desses três cintos, derrubá-lo no chão de forma que qualquer parte de seu corpo localizada entre seus ombros e seus joelhos toque o solo. Ambos os lutadores devem permanecer eretos durante toda a luta, não sendo permitido curvar-se na direção do oponente, e um oponente que seja derrubado, mas caia de quatro, pode se levantar e continuar lutando normalmente, não sendo permitido ao outro lutador derrubá-lo enquanto ele está nessa posição. Uma característica da brokartök é que os oponentes costumam usar um movimento circular enquanto estão se estudando, antes de partir para o ataque, o que, segundo alguns, deixa o esporte parecido com uma valsa. A brokartök também é vista como uma modalidade na qual a técnica conta mais que a força, por isso sua popularidade.

Seja qual for a modalidade, uma luta de glima é oficiada por um único árbitro, cuja principal função é observar se ambos os lutadores estão respeitando o drengskapur, o código de honra da glima, que determina que ambos devem se portar com desportividade, respeito e educação. Uma luta não possui um tempo pré-determinado de duração, mas costuma terminar bem rápido; mesmo assim, caso o árbitro acredite que a luta está demorando demais, pode determinar um intervalo de um minuto para que os lutadores descansem e se hidratem. Como as lutas não têm pontuação, é impossível uma luta de glima terminar empatada.

Para tentar contribuir com a popularização da glima, a IGA não possui regras oficiais quanto a uniformes (exceto o cinto) ou espaço de luta, ficando esses detalhes a cargo da organização de cada torneio; torneios de maior importância costumam usar como área de luta um quadrado de 8 m de lado, e os lutadores usam um uniforme idêntico ao da luta olímpica, um sempre lutando de azul, o outro sempre de vermelho. Torneios da IGA não possuem categorias de peso, com todos os atletas competindo juntos (mas separados em masculino e feminino, diferentemente dos vikings).

O mais importante torneio da glima é o Campeonato Islandês, conhecido como Íslandsglíma, disputado anualmente desde 1888. O campeonato é aberto a lutadores de qualquer nacionalidade, mas todos os campeões até hoje foram islandeses. Desde 1906, o vencedor leva pra casa o cinturão Grettisbelti, o mais cobiçado prêmio da glima mundial, e o campeão do torneio passa a ser conhecido como Glímukóngur (o "rei da glima"). O Íslandsglíma é um torneio exclusivamente masculino; seu equivalente feminino foi criado em 1987, e se chama Freyjuglíma, ainda não gozando de tanto prestígio quanto o masculino.

Tanto o Íslandsglíma quanto o Freyjuglíma são torneios exclusivamente da modalidade brokartök. Na modalidade lausatök, o mais importante torneio é o Norges Glima Mesterskap, o Campeonato Norueguês, disputado no masculino desde 1908 e no feminino desde 2000, e que, assim como o Íslandsglíma, é aberto a lutadores de qualquer nacionalidade, mas apenas com noruegueses tendo sido campeões até hoje. A hryggspenna não possui um campeonato internacional de destaque, sendo disputada mais de forma recreativa. Nas Olimpíadas de 1912, foi disputado um torneio de brokartök masculino, com seis participantes, todos islandeses.

Apesar de o COI ter estipulado já em 1912 que os Esportes de Demonstração deveriam ser sempre um nacional e um estrangeiro, essa regra quase nunca seria cumprida, com as mais variadas desculpas sendo apresentadas como justificativa. Em 1924, em Paris, França, por exemplo, o comitê organizador local incluiria nada menos que quatro Esportes de Demonstração, todos eles bastante populares na França da época; a justificativa que eles deram para esse exagero infelizmente se perdeu no tempo, mas o que importa para nós hoje é que dois desses esportes eram lutas.

Um deles era o savate, também conhecido como boxe francês. A palavra savate vem de um antigo termo em francês para se referir a sapatos velhos (que alguns dizem ter sido uma corruptela do espanhol zapato), e esse nome está diretamente ligado às origens da luta: no final do século XVIII, trabalhadores dos navios que ficavam ancorados no porto de Marselha começaram a criar uma forma de luta com a qual pudessem proteger a si mesmos e ao conteúdo de seus navios de ladrões de carga que os estavam atacando durante a noite. Pelas leis da época, não somente esses trabalhadores não podiam atacar esses ladrões usando armas (apenas a polícia poderia fazê-lo), como também socar uma pessoa era considerado um crime grave; a solução foi desenvolver um estilo de luta bastante focado em chutes e em golpes com as mãos abertas, para que ficasse caracterizada a legítima defesa. Com o tempo, os trabalhadores começariam a lutar entre si de forma amistosa, não somente para treinar suas habilidades, mas também para determinar quem era o melhor. A luta logo ganharia o apelido de jeu marseillais ("jogo marselhês"), mas, por algum motivo desconhecido, se tornaria conhecida também como chausson, que era o nome das sapatilhas utilizadas por esses trabalhadores. No início do século XIX, o chausson começaria a se espalhar pela França, e, no norte do país, daria origem a uma espécie de luta de rua, com torneios ilegais e tudo. Como os tipos de chutes usados machucavam os pés de quem estava chutando caso lutassem descalços, e os lutadores não tinham acesso às sapatilhas dos trabalhadores do porto, calçavam sapatos velhos durante a luta - daí o nome.

O savate começaria a deixar de ser uma luta de rua para passar a ser uma luta desportiva em 1825, quando o lutador Michel Casseux decidiria abrir uma academia para ensinar uma versão mais segura do savate, sem golpes como cabeçadas e dedos no olho, que costumavam estar presentes nos torneios ilegais. Casseux, entretanto, teria muita dificuldade para fazer com que o savate se livrasse do estigma de briga de rua, o que só começaria a mudar com os esforços de um de seus alunos, Charles Lecour. Lecour era fã de boxe, e, após assistir a uma luta entre o inglês Owen Swift e o norte-americano Jack Adams, em Paris, em 1838, se ofereceria para ser sparring de Swift - aquele lutador que luta contra o outro durante seus treinamentos, sem a mesma pressão de uma luta real. Durante esses treinamentos, ele começaria a incorporar técnicas do boxe às do chausson e do savate para criar um protótipo do savate que existe hoje, e que seria uma criação de Joseph Charlemont e de seu filho Charles, ambos alunos de Lecour. Em 1899, Charles Charlemont chegaria a lutar contra o boxeador inglês Jerry Driscoll para provar a superioridade do savate sobre o boxe; ele venceria a luta com um chute na barriga, mas seria desclassificado porque o árbitro entenderia que o chute foi contra as genitais.

No final do século XIX, estimava-se que existiam mais de cem mil praticantes do savate na França e na Bélgica. No início do século XX, o esporte começaria a se espalhar pela Europa, mas sua expansão para o resto do planeta só começaria durante a Segunda Guerra Mundial, quando seria levado para a Ásia, África e Américas por soldados franceses. A Federação Internacional de Savate (FISav, da sigla em francês) é um órgão bastante recente, tendo sido fundada somente em 1985; hoje, ela conta com 68 membros dos cinco continentes, incluindo o Brasil. O savate não faz parte dos esportes reconhecidos pelo COI, mas a FISav faz parte da organização SportAccord, o que é o primeiro passo para o reconhecimento.

No savate são permitidos golpes aplicados com as mãos e com os pés - notem bem, não "socos" e "chutes". A rigor, todos os golpes aplicados com as mãos são socos, e, assim como no boxe, devem ser aplicados com a mão fechada, com o oponente sendo atingido com a parte da frente da mão. Os golpes com os pés essencialmente são chutes, mas com a diferença de que o golpe só é considerado válido se o pé do lutador atingir o oponente - ou seja, não são válidos chutes nos quais é a canela que atinge o oponente, comuns, por exemplo, no muay thai. Por serem mais poderosos, os golpes com os pés são muito mais frequentes que os socos, somente usados quando os lutadores estão próximos ou quando abrem a guarda demasiadamente. São permitidos golpes com os pés em qualquer parte do corpo exceto nas genitais, no pescoço e e na nuca; já os socos só podem ser aplicados acima da cintura, e nunca no pescoço, na nuca ou nas costas do oponente. Um fato interessante do savate é que os bloqueios e esquivas também estão previstos nas regras, ou seja, um lutador que bloqueie um golpe do oponente ou se esquive dele de forma ilegal também pode ser punido.

O savate é disputado em um ringue idêntico ao do boxe, com as mesmas dimensões, mesmos componentes e feito do mesmo material. A FISav adota oito categorias de peso no masculino e oito no feminino. No masculino, as categorias são até 56 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg, até 75 kg, até 80 kg, até 85 kg e acima de 85 kg; no feminino são até 48 kg, até 52 kg, até 56 kg, até 60 kg, até 65 kg, até 70 kg, até 75 kg e acima de 75 kg. O peso das luvas depende da categoria de peso do lutador, com lutadores até 60 kg usando a luvas de 8 onças, até 75 kg as de 10 onças, e acima de 75 kg as de 12 onças. Além das luvas, idênticas às do boxe, o uniforme do savate consiste de uma calça comprida própria, bastante folgada, amarrada na cintura por um cordão, e de uma camiseta sem mangas, com as mulheres também podendo lutar usando um top - que, de qualquer forma, deve ser usado por baixo da camiseta se elas a estiverem usando. O único protetor obrigatório é o de gengiva, também idêntico ao do boxe. Mas a peça do uniforme mais característica do savate são os sapatos, feitos de couro com solado de borracha vulcanizada. Sapatos de savate são próprios para o esporte, contam com reforço nos dedos e no calcanhar, são antiderrapantes, e cobrem até os tornozelos, sendo amarrados na frente por um cordão grosso, como um tênis. Não há obrigatoriedade de cores nos uniformes do savate, mas, na maioria dos torneios, um dos lutadores usa calças azuis e o outro usa calças vermelhas, para melhor identificação.

Existem duas modalidades do savate. A primeira é conhecida como assault, e nela a técnica possui mais importância que a força - com os árbitros até mesmo podendo deduzir pontos de um lutador se acharem que ele usou força excessiva ao aplicar um golpe. Uma luta no assault dura quatro rounds de um minuto e meio cada, com intervalo de um minuto entre eles, e o objetivo de cada lutador é executar os golpes válidos do savate da forma mais perfeita possível, ganhando pontos por sua execução - só sendo contabilizados, evidentemente, os pontos dos golpes que atingirem o oponente com sucesso. Além do uniforme tradicional, os lutadores no assault devem usar caneleiras e um capacete de proteção acolchoado, aberto apenas na face e nas orelhas.

A segunda modalidade, chamada combat ("combá", afinal, é francês), é bem mais parecida com uma luta de boxe, muay thai ou kickboxing, com ambos os lutadores dando tudo de si, e sendo inclusive possível vencer por nocaute. Cada luta no combat dura cinco rounds de dois minutos cada, com um intervalo de um minuto entre um e outro. Em ambos os casos, se a luta terminar empatada, os juízes decidem qual lutador foi melhor, sem necessidade de tempo extra. Cada luta é oficiada por um árbitro, que fica no ringue junto aos lutadores, e por cinco juízes distribuídos ao redor do ringue, que anotam os pontos de cada lutador, ao lado de a que momento eles ocorreram; para que um ponto seja validado, pelo menos três desses cinco juízes têm de tê-lo considerado válido em um intervalo de no máximo dois segundos.

Um fato curioso sobre o savate é que, assim como algumas artes marciais, como o judô e o caratê, possuem um sistema de faixas coloridas para ranquear os lutadores, o savate possui um sistema de luvas coloridas. Todo lutador iniciante no savate é considerado "luvas azuis", passando, após um certo período de tempo e um teste, para "luvas verdes", e, em seguida, vermelhas, brancas, amarelas, de bronze e prateadas. As luvas prateadas são o equivalente à faixa preta, e possuem cinco níveis, chamados simplesmente de I, II, III, IV e V. Lutadores de excelência, considerados grandes mestres do savate, podem ser promovidos pela FISav ao ranking de luvas douradas. Na prática, um lutador não precisa lutar usando luvas da mesma cor que seu ranking (embora nada o impeça de fazê-lo), sendo o normal que o lutador use luvas azuis ou vermelhas com um pequeno adesivo simbolizando a cor de seu ranking em cada punho.

O mais importante torneio do savate é o Campeonato Mundial, sendo que existem Mundiais separados de assault e de combat. O Campeonato Mundial de Combat é o mais antigo, disputado anualmente desde 1985 no masculino e desde 2007 no feminino; o Campeonato Mundial de Assault é disputado anualmente, tanto no masculino quanto no feminino, desde 2010. A FISav usa três sedes por ano, uma para o Mundial de Combat masculino, uma para o Mundial de Combat feminino e uma para o Mundial de Assault masculino e feminino. Nas Olimpíadas de 1924, foi disputada a modalidade combat, com um torneio aberto, sem categorias de peso, e exclusivamente masculino, do qual participaram 19 atletas, sendo 16 franceses e três belgas.

A outra luta que foi Esporte de Demonstração em 1924 foi a canne de combat, cujo nome, em francês, significa "bengala de combate". A canne de combat foi inventada no século XIX, por membros abastados da sociedade, para se protegerem de batedores de carteiras e outros meliantes do tipo. Como, na época, era costume os homens mais chiques carregarem uma bengala, mesmo sem necessidade, alguns deles decidiram treinar para usá-la como arma quando atacados. Não se sabe bem quem teve a ideia primeiro, ou como isso se espalhou para as classes menos abastadas, mas em pouco tempo os lutadores de savate já estavam usando um bastão semelhante a uma bengala em seus treinamentos. O uso da bengala nunca foi incorporado à luta em si, mas se popularizaria dentre os militares e policiais que praticavam savate, que, no dia a dia, passariam a usar as técnicas da canne a serviço, usando seus cassetetes.

A canne de combat atingiria o auge de sua popularidade na época da Primeira Guerra Mundial, mas depois passaria por um declínio - sua inclusão nas Olimpíadas de 1924 seria uma tentativa da Federação Francesa de Savate de alavancar novamente o interesse do público pelo esporte, no que acabaria não sendo bem sucedida. A canne de combat só começaria a ensaiar um renascimento na década de 1970, quando o lutador Maurice Sarry decidiria escrever um novo conjunto de regras, visando tornar o esporte mais dinâmico e mais popular. Sarry levaria suas regras à Federação Francesa de Savate, que passaria a adotá-las. Quando a FISav foi fundada, ela também pegou para si a responsabilidade de regular e difundir a canne de combat; como ela investe mais no savate, porém, a canne ainda é um esporte pouco conhecido fora da França e Bélgica, com poucos praticantes ao redor do planeta.

Pelas regras da FISav, a canne de combat é disputada no mesmo ringue do savate. Uma luta dura dois ou três rounds de dois minutos cada, com intervalo de um minuto entre eles, e é oficiada por um árbitro, que fica no ringue junto com os lutadores, e por cinco juízes, sentados ao redor do ringue. O lutador que obtiver mais pontos em cada round é declarado vencedor daquele round, e quem vencer dois rounds primeiro é declarado vencedor da luta (por isso cada luta pode durar "dois ou três rounds"). Para que um ponto seja válido, pelo menos três dos cinco juízes têm de considerá-lo como tal; um ponto válido é aquele no qual o lutador atinja o oponente com a bengala em um local válido do corpo (panturrilhas, tronco e cabeça, exceto nuca) com o movimento próprio do esporte (sempre de cima para baixo ou de um lado para o outro, estocadas são proibidas) e com a técnica apropriada para o tipo de golpe aplicado (um golpe contra a panturrilha, por exemplo, deve ser aplicado com os dois joelhos dobrados). Executar um golpe inválido simplesmente não rende pontos, mas atingir uma área inválida do corpo do oponente (como os braços ou as coxas) ou atingir o oponente com uma estocada resulta na perda de um ponto. É possível ficar com pontuação negativa, o que significa que um lutador pode vencer um round sem fazer nenhum ponto, apenas com as penalidades aplicadas ao oponente.

O uniforme da canne de combat é semelhante a uma mistura do usado no judô com o usado na esgrima, mas mais acolchoado. Ele consiste em uma camisa de mangas curtas aberta na frente e presa por uma faixa amarrada à cintura, calças compridas presas à cintura por um cordão interno, luvas acolchoadas presas ao punho por velcro, sapatilhas, protetores de pescoço e de genitais, e uma máscara com tela na frente. A bengala é feita de madeira de castanheira, tem 95 cm de comprimento, e pode ser encontrada em duas versões: a bengala de treino possui uma faixa verde na empunhadura e pesa 120 g, já a bengala de competição possui uma faixa preta, e pesa 100 g. O lutador pode segurar a bengala com qualquer uma das mãos, e pode, inclusive, passá-la de uma das mãos para a outra durante a luta.

A FISav reconhece sete modalidades da canne de combat: canne (a tradicional), canne double (na qual cada lutador usa duas bengalas, uma em cada mão), canne défense (na qual dois lutadores encenam uma situação de ataque e defesa usando as técnicas da canne de combat, ganhando pontos de um júri e sendo vencedora a dupla com melhor pontuação); canne chausson (na qual valem pontos tanto as técnicas da canne quanto os chutes do savate); canne fouet (idêntica à canne défense, mas usando as técnicas da canne chausson); baton (na qual, ao invés da bengala, é usado um bastão de 1,4 m de comprimento e 400 g de peso); e baton double (na qual cada lutador usa dois bastões, um em cada mão).

O mais importante torneio da canne de combat é o Campeonato Mundial, disputado anualmente, no masculino e no feminino, desde 2000. Não se pode chamar o que houve em 1924 de "torneio", já que, durante toda a Olimpíada, foi disputada apenas uma única luta, entre dois lutadores franceses. O vencedor ganhou uma medalha de ouro, e o perdedor, uma de prata.
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True Blood

Eu já devo ter dito alguma vez por aqui que não sou especialmente fã de vampiros. Não rejeito filmes/livros/séries sobre vampiros, mas também não costumo me empolgar com eles, não tendo muita pressa para conhecê-los. Foi por isso que, quando estreou True Blood, mesmo com alguns amigos meus dizendo que era muito bom e que eu deveria assistir, não dei muita bola. Somente há uns dois anos é que finalmente me convenci e resolvi começar. E devo dizer que eles estavam absolutamente certos. Acabou que True Blood foi uma das séries que eu mais gostei em toda a minha vida, tanto que fiquei bastante triste quando acabei de assistir tudo. Acabei justamente essa semana, e, em homenagem a esse fato, decidi que hoje seria dia de True Blood no átomo!

Antes de começarmos, acho que vale a pena citar que o átomo normalmente é um blog família, mas True Blood é uma exceção: assim como a série de Spartacus e como Game of Thrones, True Blood é o que se costuma chamar hoje de "série adulta", ou seja, tem nu frontal, palavrões, sexo quase explícito e violência medonha. Portanto, se você se interessar, pode assistir - mas esteja avisado.


O mote de True Blood ("sangue verdadeiro") é que, em nosso mundo, sempre existiram vampiros, mas ninguém nunca soube porque eles se escondiam muito bem. Dois anos antes do início da série, entretanto, um laboratório japonês, ligado à multinacional Yakonomo Corporation, consegue criar um sangue sintético absolutamente idêntico ao natural, com o propósito de utilizá-lo em cirurgias no lugar do sangue de doadores. Como é idêntico ao natural, esse sangue também é capaz de prover sustento aos vampiros - embora o sabor seja diferente, o que faz com que alguns deles o rejeitem - o que leva a um efeito colateral imprevisto: os vampiros começam a "sair do caixão", revelando ao mundo que são vampiros, e pedindo direitos iguais para que possam ser considerados cidadãos como os humanos. Para aproveitar o filão, a Yakonomo começa a produzir o sangue sintético em escala industrial e a comercializá-lo engarrafado com o nome de TruBlood, para que os vampiros o consumam ao invés de caçar humanos - como a humanidade não tem jeito mesmo, alguns humanos resolvem se voluntariar para alimentar os vampiros, sentindo um prazer quase sexual enquanto são sugados, mas isso já é outra história.

Embora os vampiros estejam se revelando (e o TruBlood sendo vendido) no mundo inteiro, o foco da série é a pequena cidade de Bon Temps, na Louisiana, Estados Unidos. É lá que mora a protagonista, a jovem garçonete Sookie Stackhouse (Anna Paquin, a Vampira dos filmes dos X-Men - que, apesar do nome, não é vampira, acho que vocês sabem, mas não deixa de ser uma coincidência interessante). Apesar de muito bonita, Sookie, desde criança, é tratada como uma pária pela maioria dos moradores da cidade, porque possui um dom especial: ela é capaz de ler os pensamentos daqueles que estão a seu redor, precisando se concentrar muito para que isso não ocorra acidentalmente. No primeiro episódio, Sookie conhece o vampiro Bill Compton (Stephen Moyer, com quem Paquin se casou em 2010), de 173 anos de idade e que lutou na Guerra Civil, que, após "sair do caixão", decide voltar para Bon Temps, cidade onde nasceu, e viver em sua antiga casa, vizinha à de Sookie. Em um primeiro momento, Sookie se sente atraída por Bill, intrigada por ser incapaz de ler sua mente - na verdade, ela não consegue ler a mente de nenhum vampiro - e, mais tarde, acaba se apaixonando por ele. O romance entre os dois é o fio condutor da série, se entremeando em todas as outras histórias vividas pelos personagens.

Mas Sookie e Bill não são os únicos personagens de destaque em Bon Temps. O elenco fixo da série conta, ainda, com Sam Merlotte (Sam Trammell), dono do bar onde Sookie trabalha, apaixonado por ela, e que guarda um grande segredo; Jason Stackhouse (Ryan Kwanten), irmão mais novo de Sookie, astro do futebol americano na época do colégio e que faz grande sucesso com as mulheres, mas que não é muito inteligente, apesar de seu coração enorme e de uma certa sabedoria adquirida com a vida; Tara Thronton (Rutina Wesley), melhor amiga de Sookie, esquentada, desbocada e com graves dificuldades para se manter em empregos e fazer amizades, frutos de uma vida sofrida que teve com sua mãe alcóolatra, Lettie Mae (Adina Porter); Lafayette Reynolds (Nelsan Ellis), primo de Tara, cozinheiro no Merlotte's, gay assumido e fornecedor de qualquer tipo de drogas, inclusive sangue de vampiro (ou simplesmente V), que, consumido por humanos, dependendo da quantidade ingerida, pode curar ferimentos, aumentar a potência sexual, atuar como esteroide anabolizante, ou causar vívidas alucinações; Arlene Fowler (Carrie Preston), garçonete amiga de Sookie e mãe solteira, com grande senso de responsabilidade mas sem sorte no amor; Andy Bellefleur (Chris Bauer), principal policial da cidade; Terry Bellefleur (Todd Lowe), primo de Andy, que lutou no Iraque e voltou com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, trabalha no Merlotte's e é apaixonado por Arlene, mas sem coragem de se declarar; Hoyt Fortenberry (Jim Parrack), melhor amigo e colega de trabalho de Jason, que mora com uma mãe dominadora, Maxine (Dale Raoul), e se ressente de não fazer tanto sucesso com as mulheres quanto o amigo; Jessica Hamby (Deborah Ann Woll, a Karen Page da série do Demolidor), adolescente de 17 anos transformada em vampira por Bill e posta sob seus cuidados como punição por ele ter matado outro vampiro; o Reverendo Steve Newlin (Michael McMillian), fundador da Irmandade da Luz, grupo religioso devotado a impedir que os vampiros sejam integrados à sociedade; Pamela Swynford de Beaufort (Kristin Bauer van Straten), ou simplemente Pam, vampira antipática que discorda da integração à sociedade por acreditar que os vampiros são superiores aos humanos, e trabalha como administradora da Fangtasia, boate para vampiros que passou a também ser frequentada por humanos após a criação do TruBlood; Ginger (Tara Buck), a tresloucada garçonete do Fangtasia; e Eric Northman (Alexander Skarsgaard), vampiro sueco de mil anos de idade dono do Fangtasia e que atua como Xerife da Área 5, onde fica localizada Bon Temps, sendo uma espécie de autoridade à qual todos os vampiros da área devem se reportar - e que, como todo relacionamento de série fica melhor quando se transforma em um triângulo, também se apaixona por Sookie, passando a disputá-la com Bill.

Além dessa gente toda - que figura em todas as temporadas da série - a primeira temporada ainda tem alguns personagens coadjuvantes de destaque: René Lenier (Michael Raymond-James), que originalmente não é de Bon Temps, e é marido de Arlene (mas não pai de seus dois filhos) quando a série começa; Bud Dearborne (William Sanderson), o xerife de Bon Temps; Mike Spencer (John Billingsley, o Dr. Phlox de Enterprise), o agente funerário e médico-legista da cidade; Adele Stackhouse (Lois Smith), a avó de Sookie e Jason; Dawn Green (Lynn Collins), garçonete do Merlotte's que tem um caso com Jason; Amy Burley (Lizzy Caplan), jovem que também não é de Bon Temps, se apaixona por Jason e o convence a consumir V; Jane Bodehouse (Patricia Bethune), mulher de meia idade que parece estar sempre bebendo alguma coisa no balcão do Merlotte's; Eddie Fournier (Stephen Root), vampiro gay com quem Lafayette tem um acordo para ser seu fornecedor de V; Miss Jeanette (Aisha Hinds), mulher que mora em um trailer no meio da floresta, alega ter poderes mágicos e diz que vai tirar o demônio do corpo de Tara; Lorena Krasiki (Mariana Klaveno), vampira que transformou Bill na época da Guerra Civil; Maryann Forrester (Michelle Forbes), mulher misteriosa ligada ao passado de Sam; Benedict Talley (Mehcad Brooks), apelido Ovo, protegido de Maryann; o Magistrado (Zeljko Ivanek), cujo nome verdadeiro ninguém sabe, que, dentro da hierarquia dos vampiros, serve como uma espécie de juiz para casos envolvendo vampiros em toda a América do Norte; e Nan Flanagan (Jessica Tuck), porta-voz dos vampiros e principal figura política na luta por sua integração à sociedade.

A primeira temporada teria 12 episódios, e estrearia no canal a cabo HBO no dia 7 de setembro de 2008; além de apresentar os personagens e o romance de Sookie e Bill, ela ainda tinha um mistério a ser resolvido: um serial killer que só matava mulheres que tivessem tido relações sexuais com vampiros - e que marca Sookie para ser sua próxima vítima após ela ter sua primeira noite com Bill.

True Blood não é uma obra original, e sim a adaptação de uma série de 13 livros conhecida como The Southern Vampire Mysteries, escritos por Charlane Harris e lançados entre entre 2001 e 2013. A ideia de transformar os livros em uma série partiu do produtor Alan Ball, que já havia trabalhado na série da HBO A Sete Palmos. Em 2006, Ball estava na sala de espera do dentista consultando o site da livraria Barnes & Noble, e encontrou por acaso o primeiro livro da série, Morto Até o Anoitecer; lendo a sinopse e os comentários dos leitores, ele imaginou que a história dos livros daria uma excelente série, e entrou em contato com Harris. Harris já havia recebido duas outras propostas, uma para transformar o primeiro livro em filme, outra de uma produtora jamais revelada para fazer uma série, mas, segundo ela, a visão de Ball para a série a cativou, convencendo-a a assinar com a HBO.

A produção começaria quase que imediatamente, com o elenco sendo escolhido e um piloto sendo gravado em fevereiro de 2007. A série, porém, não poderia estrear naquele ano, devido a uma greve de roteiristas que atrasaria a produção, fazendo com que a HBO marcasse a estreia para 2008. Já com o elenco escolhido e uma boa quantidade de cenas filmadas, a HBO aproveitaria para veicular uma extensa campanha de marketing durante o ano, que incluía comerciais de TruBlood estrelados por "vampiros" nos mesmos moldes de comerciais de cerveja, e placas colocadas em máquinas de bebida por todo o país pedindo desculpas porque o TruBlood havia acabado; o canal também produziria dois documentários sobre a história e a trajetória dos vampiros no cinema, TV e literatura, exibidos pouco antes da estreia da primeira temporada.

A primeira temporada faria um grande sucesso, renderia um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Série Dramática para Paquin, e, após a exibição de apenas dois episódios, a HBO já encomendaria a segunda, com mais 12, que estrearia em 13 de setembro de 2009; como parte da campanha de marketing para a segunda temporada, começariam a ser comercializadas em todos os Estados Unidos garrafas de TruBlood idênticas às que os vampiros bebiam na série, mas que continham um refrigerante sabor laranja - mas da cor de sangue. Também seria criado o "site oficial" da Irmandade da Luz, com dicas sobre como identificar e matar vampiros. A segunda temporada renderia nada menos que três Emmys para a série: Melhor Série de Drama, Melhor Elenco para uma Série de Drama e Melhor Ator Coadjuvante em uma Série de Drama (Nelsan Ellis).

A segunda temporada é centrada no desaparecimento de Godric (Allan Hyde), vampiro de mais de dois mil anos de idade, que transformou Eric, e é o atual Xerife da Área 9, no Texas; preocupado com o bem-estar de seu criador, Eric pede ajuda a Bill e Sookie para encontrá-lo. Paralelamente a isso, Jason decide se filiar à Irmandade da Luz e se tornar um caçador de vampiros, mas acaba se interessando pela esposa do Reverendo Newlin, Sarah (Anna Camp), o que poderá lhe trazer grandes problemas. A principal vilã da segunda temporada é Maryann, que leva Tara para morar em sua casa, e está diretamente ligada ao segredo que Sam guarda em seu passado. Além dos do elenco fixo, os personagens que retornam são Bud, Mike, Jane, Lorena, Maryann, Ovo, Nan e o Magistrado, e os novos de destaque, além de Godric e Sarah Newlin, incluem Daphne Landry (Ashley Jones), nova garçonete do Merlotte's, que acaba se envolvendo romanticamente com Sam; Karl (Adam Leadbetter), mordomo de Maryann; Luke MacDonald (Wes Brown), candidato a membro da Irmandade da Luz com quem Jason faz amizade; Gabe (Greg Collins), mercenário que atua como chefe de segurança na sede da Irmandade da Luz; Barry Horowitz (Chris Coy), rapaz que trabalha no hotel em Dallas onde Eric, Bill e Sookie se hospedam, e é telepata como Sookie; Hadley Hale (Lindsey Haun), prima de Sookie que também está envolvida com vampiros; e Sophie-Anne Leclercq (Evan Rachel Wood), Rainha da Louisiana e autoridade máxima dos vampiros dentro das fronteiras do estado.

A terceira temporada mais uma vez teria 12 episódios, e teria sua estreia antecipada, com o primeiro episódio indo ao ar em 13 de junho de 2010. Ela traria um dos vilões mais odiados da série, Russel Edgington (Denis O'Hare), vampiro de mais de três mil anos de idade que é contra a integração com os humanos, acreditando que eles são apenas comida. Edgington é o Rei do Mississipi, odeia Sophie-Anne, e sequestra Bill para tentar convencê-lo a tomar parte em um plano para depor a Rainha da Louisiana. Além de tudo isso, ele ainda comanda uma alcateia de lobisomens, que estreiam oficialmente na série nessa temporada. Os pricipais lobisomens são Alcide Herveaux (Joe Manganiello), que se recusa a servir o vampiro, e acaba se interessando romanticamente por Sookie; Debbie Pelt (Brit Morgan), ex-noiva de Alcide, a quem ele deseja salvar do domínio do vilão; e Coot (Grant Bowler), líder dos lobisomens comandados por Edgington.

Além desses quatro personagens, estreiam na terceira temporada o Reverendo Daniels (Gregg Daniel), pastor da principal igreja de Bon Temps, que tenta livrar Lettie Mae do alcoolismo; Holly Cleary (Lauren Bowles), garçonete do Merlotte's por quem Andy se apaixona, mãe solteira de dois meninos, Rocky (Aaron Christian Howles) e Wade (Noah Matthews), e praticante de wicca; Crystal Norris (Lindsay Pulsipher), jovem que mora com seu pai, Calvin (Gregory Sporleder), e seu irmão, Felton (James Harvey Ward), no Hotshot, uma espécie de favela na periferia de Bon Temps, que guarda um terrível segredo e se envolve romanticamente com Jason; Summer (Melissa Rauch, a Bernadette de The Big Bang Theory), moça que Maxine tenta empurrar como namorada para Hoyt; Jesus Velasquez (Kevin Alejandro), enfermeiro mexicano, neto do bruxo Don Bartolo (Del Zamora), e que se torna namorado de Lafayette, o qual conhece por cuidar de sua mãe, Ruby Jean Reynolds (Alfre Woodard); Tommy Mickens (Marshall Allman), irmão de Sam que vai morar com ele após brigar com os pais, Melinda (J. Smith-Cameron) e John Lee (Cooper Huckabee); Claudine (Lara Pulver), fada que possui uma ligação com Sookie e a observa invisível; Talbot (Theo Alexander), vampiro de 700 anos criado por Edgington para ser seu companheiro; e Franklin Mott (James Frain), detetive vampiro contratado por Edgington para encontrar Sookie, e que acaba se envolvendo romanticamente com Tara. Bud, Mike, Jane, Lorena, Hadley, Sophie-Anne, Nan e o Magistrado também participam da terceira temporada.

No final da terceira temporada, é revelado de onde vêm os poderes de Sookie: ela é meio-fada, descendente de um representante do povo feérico que se casou com um humano; graças a isso, além da telepatia, ela tem a habilidade de projetar luz pelas mãos, e seu sangue possui um odor e um sabor deliciosos que atraem os vampiros - e, segundo as lendas, um vampiro que consuma uma quantidade suficiente de sangue de fada se torna capaz de caminhar sob a luz do Sol, por isso o interesse de Edgington em Sookie. No último episódio, Claudine leva Sookie para o Reino das Fadas, e tenta convencê-la a viver lá para sempre.

Sookie, evidentemente, não aceita ficar no Reino das Fadas, e, no primeiro episódio da quarta temporada, que também teve 12, e estreou em 26 de junho de 2011, retorna a Bon Temps. Infelizmente para Sookie, porém, o tempo no Reino das Fadas não passa da mesma forma que aqui na Terra, então a quarta temporada é ambientada pouco mais de um ano após os eventos da final da terceira. Como era de se esperar, muita coisa mudou: Andy agora é o Xerife, Jason é policial, Lafayette descobre ser médium, e Bill é o novo Rei da Louisiana. A trama central envolve a líder do grupo wicca do qual Holly faz parte, Marnie Stonebrook (Fiona Shaw), sendo possuída pelo espírito de uma bruxa queimada na Inquisição Espanhola no século XVII, Antonia Gavilán de Logroño (Paola Turbay). Como os inquisidores que a condenaram à morte eram vampiros, Antonia pretende usar seus poderes através do corpo de Marnie para exterminar todos os vampiros do mundo, começando pelos de Bon Temps. Uma subtrama importante envolve Antonia apagando a memória de Eric, que vai morar com Sookie para que ela possa protegê-lo.

A quarta temporada possui bem menos tramas paralelas que as anteriores, e, portanto, também tem menos personagens novos. Os de maior destaque são Luna Garza, namorada de Sam e mãe da pequena Emma (Chloe Noelle); Patrick Devins (Scott Foley), que serviu com Terry no Iraque e o procura para cobrar um favor; Portia Bellefleur (Courtney Ford), irmã de Andy e advogada de sucesso que decide voltar a morar em Bon Temps, e acaba se apaixonando por Bill; Marcus Bozeman (Dan Buran), ex-marido de Luna e pai de Emma, lobisomem e líder da principal alcateia da Louisiana, que se torna rival de Alcide; e Mavis (Nondumiso Tembe), escrava assassinada no início do século XX que toma o corpo de Lafayette para resolver assuntos inacabados. Alcide, Debbie, Barry, Jesus, Don Bartolo, Tommy, o Reverendo Daniels, Holly, Rocky, Wade, Crystal e Nan também participam da quarta temporada.

A quinta temporada seria bastante centrada na hierarquia vampírica, finalmente mostrando vários vampiros ligados à Autoridade, órgão máximo da hierarquia dos vampiros no planeta. Tudo começa com o desaparecimento de Nan, do qual Bill e Eric são os principais suspeitos; uma vampira membro da Autoridade e também criada por Godric, Nora Gainsborough (Lucy Griffiths), tenta ajudá-los a fugir, mas eles acabam sendo capturados e levados à presença do Guardião, Roman Zimojic (Christopher Meloni), vampiro antiquíssimo que tem a missão de proteger o sangue de Lilith (Jessica Clark), a primeira vampira da história. Bill e Eric acabam, então, descobrindo que a Autoridade passa por uma grave crise, pois, dentre os membros de seu alto escalão - que inclui Roman; Nora; a texana Rosalyn Harris (Carolyn Hennesy); o africano Kibwe Akinjide (Peter Mensah); Alexander Drew (Jacob Hopkins), transformado em vampiro quando ainda era criança; Dieter Braun (Christopher Heyerdahl), transformado em vampiro ainda nos tempos bíblicos; e Salomé Agrippa (Valentina Cervi), aquela que pediu a cabeça de João Batista - há os que acreditam que devem conviver pacificamente com os humanos, e os que acreditam que os humanos são apenas comida, com os dois grupos estando em conflito. Como se isso já não bastasse, a Autoridade ainda tem de lidar com um problema sério: Edgington está vivo, e, como não respeita as ordens do órgão, é uma ameaça à manutenção da paz entre os vampiros.

A quinta temporada teria mais 12 episódios, e estrearia em 10 de junho de 2012. Além da história envolvendo a Autoridade, nela Sookie e Jason descobririam que seus pais foram mortos por um vampiro chamado Warlow; Alcide se torna líder da alcateia após desafiar Marcus; Terry e Patrick partem em uma cruzada contra uma entidade sobrenatural que os persegue por terem sido amaldiçoados no Iraque; e Hoyt se une a um grupo de ódio que pretende exterminar todas as criaturas sobrenaturais da América. Holly, Rocky, Wade, Luna, Emma, Ruby Jean, Bud e Mike, além dos já citados Edgington, Alcide e Patrick, também participam da quinta temporada; os novos personagens são Molly (Tina Majorino), vampira responsável pelos aparatos tecnológicos utilizados pela Autoridade; Claude (Gilles Matthey), o irmão de Claudine; Maurella (Kristina Anapau), fada que seduz Andy; Rikki Naylor (Kelly Overton), moça lobisomem casca-grossa que se apaixona por Alcide; Martha Bozeman (Dale Dickey), mãe de Marcus e avó de Emma; e Jackson Herveaux (Robert Patrick, o T-1000 de O Exterminador do Futuro 2), o pai de Alcide.

Ao final da quinta temporada, Ball decidiria deixar o posto de produtor da série e atuar apenas como consultor, declarando acreditar que a série estava em boas mãos e a equipe daria o seu melhor para que ela tivesse muito mais temporadas. Mark Hudis, que, desde a quarta temporada era roteirista, e assumiria como produtor no lugar de Ball, entretanto, decidiria levar a série em uma direção diferente: até então, cada temporada equivalia a um dos livros da série (a primeira a Morto Até o Anoitecer, a segunda a Vampiros em Dallas, a terceira a Clube dos Vampiros, a quarta a Procura-se um Vampiro e a quinta a Olhos de Pantera), com alguns elementos "emprestados" dos livros posteriores (por exemplo, Sookie só descobre que é meio-fada no oitavo livro, mas, na série, ela faz essa descoberta na terceira temporada); Hudis decidiria não fazer a sexta temporada equivalente ao sexto livro (Vampiros para Sempre), e sim pegar elementos de todos os oito livros restantes. A sexta temporada também acabaria sendo mais curta, com apenas 10 episódios, o primeiro estreando em 16 de junho de 2013, devido ao fato de Paquin estar grávida - como Sookie não podia engravidar também, os produtores quiseram encerrar as filmagens antes que sua barriga começasse a aparecer.

Na sexta temporada, após os eventos deflagrados pela disputa interna na Autoridade na temporada anterior, o Governador do Estado da Louisiana, Truman Burrell (Arliss Howard), decide declarar guerra aos vampiros, caçando-os e colocando-os em campos de concentração; paralelamente a isso, Sookie recebe a visita de seu avô, o Rei das Fadas Niall Brigant (Rutger Hauer, de Blade Runner), e conhece Ben Flynn (Rob Kazinsky), que também tem sangue de fada, e é mais um personagem que guarda um terrível segredo. Outros novos personagens são Willa Burrell (Amelia Rose Blaire), a filha do Governador, que é contra o massacre dos vampiros; Nicole Wright (Jurnee Smollett-Bell), ativista política que se apaixona por Sam; Violet Mazurski (Karolina Wydra), vampira viva desde a Idade Média que resolve transformar Jason em seu brinquedo sexual; James Kent (Luke Grimes), vampiro que conhece Jessica no campo de concentração e se apaixona por ela; Dr. Overlark (John Fleck), cientista responsável por conduzir experimentos com os vampiros no campo de concentração; Dr. Finn (Pruitt Taylor Vince), psiquiatra que analisa os vampiros no campo de concentração, e acaba desenvolvendo um interesse especial por Pam; Hido Takahashi (Keone Young), o cientista criador do TruBlood; e Adilyn (Bailey Noble), que, assim como Sookie, é meio-fada e tem telepatia. Alcide, Rikki, Jackson, Martha, Emma, Holly, Rocky, Wade, Portia, o Reverendo Daniels, Sarah, Nora e Lilith também participam da sexta temporada.

A sexta temporada teve uma queda catastrófica na avaliação da crítica em relação às anteriores, embora a audiência tenha tido apenas uma queda leve. Temerosa de que a audiência poderia acompanhar a queda caso a série ficasse muito mais tempo no ar, a HBO decidiria encerrá-la de forma digna, fechando as pontas soltas e fazendo um último episódio próprio, na sétima temporada. Hudis não concordaria com o plano, e acabaria sendo substituído como produtor por Brian Bucker. A sétima temporada teria majoritariamente material original, com poucos elementos dos livros, e, assim como a sexta, teria apenas 10 episódios, o primeiro estreando em 22 de junho de 2014.

Na sétima temporada, ambientada um ano após os eventos da sexta, um vírus mortal transmitido pelo sangue está vitimando os vampiros; Bill é contaminado, e decide amarrar as pontas soltas de sua vida antes de partir. Paralelamente a isso, a cidade tem que lidar com o ataque de um grupo de vampiros infectado e enlouquecido, que se estabelece no Fangtasia e sequestra vários moradores para guardar no porão e usar como comida. Alcide, Holly, Rocky, Wade, Adilyn, Willa, Nicole, o Reverendo Daniels, Sarah, Violet e James (agora interpretado por Nathan Parsons) também participam da sétima temporada; os personagens novos são Vince McNeil (Brett Rickaby), o vice-prefeito de Bon Temps, que acha que o caminho para se livrar dos vampiros infectados é destruindo todos os vampiros, infectados ou não; o Sr. Gus Jr. (Wil Yun Lee), presidente da Yakonomo; Keith (Riley Smith), vampiro de 500 anos que se interessa por Arlene; Amber Mills (Natalie Hall), a irmã de Sarah, que, sem que ninguém saiba, é uma vampira; e Brigette (Ashley Hinshaw), namorada que Hoyt conhece ao ir trabalhar no Alasca. Charlane Harris faria uma participação especial como uma diretora de TV no último episódio, que iria ao ar em 24 de agosto de 2014.
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Acredite se Quiser

Uma das lembranças mais nítidas que eu tenho da minha infância é o programa Acredite se Quiser. Eu o assistia, principalmente, na casa da minha avó, onde eu sempre passava as tardes de sábado em companhia dos meus primos. Quando ia dar a hora do programa, nos sentávamos em volta da televisão e ligávamos na finada TV Manchete; minha avó aproveitava e nos trazia um lanche. Talvez pela associação com esse tempo tão feliz - ou com o lanche - a música da abertura ficou gravada na minha cabeça para sempre: passei anos sem ouvi-la, mas conseguia cantarolá-la perfeitamente. Para escrever esse post, assisti a uns vídeos online, e até me deu um quentinho no coração ao ouvi-la novamente após todo esse tempo.

O motivo pelo qual estou escrevendo esse post é digno de um episódio do programa, aliás: não me perguntem o porquê, mas eu sonhei com Jack Palance. Quer dizer, no meu sonho, havia um homem que eu identificava como sendo o Jack Palance, mas que aparentemente era um conhecido da minha família. Ao acordar, resolvi pesquisar se Palance ainda estava vivo (não está, faleceu em 2006, aos 87 anos), e pensei que seria legal fazer um post sobre o programa - na época em que eu assistia, Palance era o apresentador, de forma que, para mim, ambos estarão eternamente associados. E é por isso que hoje é dia de Acredite se Quiser no átomo.

O nome original do Acredite se Quiser, em inglês, é Ripley's Believe It or Not - em uma tradução livre, "o acredite ou não do Ripley". Esse nome aparecia na abertura, e eu cheguei, quando criança, a procurar no dicionário o seu significado - não encontrando, evidentemente, um verbete para a palavra "Ripley". Ao questionar minha mãe, ela disse que deveria ser um nome de uma pessoa. Essa explicação me satisfez parcialmente, já que passei anos tentando descobrir quem seria o tal Ripley. "Anos" talvez seja exagero, deve ter sido no máximo um, mas o fato é que, já que eu passei muito tempo sem me interessar pelo programa, só acabei descobrindo hoje.

O tal Ripley do título é Robert LeRoy Ripley, cartunista profissional e antropólogo nas horas vagas, nascido em 25 de dezembro de 1890 em Santa Rosa, Califórnia, Estados Unidos, e que faleceu prematuramente, aos 58 anos, em 27 de maio de 1949, na cidade de Nova Iorque. Quando jovem, Ripley sonhava ser jogador de beisebol, e chegou a jogar por times semi-profissionais, até precisar largar o esporte e se dedicar em tempo integral aos cartuns para poder cuidar de sua mãe, muito doente. Seus primeiros trabalhos seriam publicados na revista Life e nos jornais San Francisco Bulletin e San Francisco Chronicle; após a morte da mãe, ele se mudaria para Nova Iorque, onde trabalharia para o jornal The New York Globe e tentaria uma vaga no time de beisebol New York Giants - se machucando durante a seleção, de forma tão grave que teve de encerrar a carreira definitivamente. Como cartunista do Globe, ele ficaria responsável pelo cartum Champs and Chumps, que trazia curiosidades sobre o mundo esportivo, sendo publicado no caderno de esportes, e conheceria Beatrice Roberts, com quem se casaria em 1919. No ano seguinte, Ripley seria enviado pelo jornal para Antuérpia, Bélgica, para ajudar na cobertura das Olimpíadas.

Durante a viagem, ele conheceria pessoas interessantes e aprenderia vários fatos curiosos, o que o estimularia a juntar dinheiro, durante os dois anos seguintes, para um projeto ambicioso: uma viagem ao redor do mundo. Ripley partiria em 3 de dezembro de 1922 e retornaria em 7 de abril de 1923, após visitar vários locais do interior dos Estados Unidos, da América do Sul, Europa, Oriente Médio e África. A viagem lhe custaria o casamento - sua esposa, após tanto tempo separada, pediria o divórcio quando ele retornasse - mas daria a Ripley a ideia de um novo trabalho: contratando o linguista Norbert Pearlroth como assistente, ele criaria a série Ripley's Believe It or Not!, um cartum de uma página inteira que, a cada dia, traria um fato curioso e interessante sobre algum assunto. A série começaria a ser publicada no jornal The New York Evening News (o Globe havia ido à falência no mesmo ano de 1923), mas, em 1926, passaria para outro jornal, o The New York Post.

A série faria tanto sucesso que atrairia a atenção de William Randolph Hearst, presidente da King Features Syndicate, responsável pela publicação de tiras de jornal de grande sucesso, como Mandrake, Popeye e O Fantasma, dentre outras. Hearst faria um acordo com Ripley, e logo o Ripley's Believe It or Not! estaria sendo publicado em 17 jornais de todos os Estados Unidos, e alcançando grande popularidade. Ripley aproveitaria o momento e lançaria os mais populares da série em forma de livro, à venda em todo o país - prática que seria repetida ao longo dos anos, com vários volumes sendo lançados. Incapaz de dar conta de todos os cartuns, Ripley entregaria a arte de alguns painéis, ao longo dos anos, aos cartunistas Joe Campbell, Art Slogg, Clem Gretter, Carl Dorese, Bob Clarke, Stan Randall e os irmãos Paul e Walter Frehm.

Uma das maiores provas da popularidade do Ripley's Believe It or Not! foi que ele seria diretamente responsável pela oficialização do Hino Nacional dos Estados Unidos. Em um dos primeiros cartuns publicados pela King Features Syndicate, Ripley explicaria que, apesar do costume de se usar The Star-Spangled Banner, que tem letra de Francis Scott Key sobre música de John Stafford Smith, como hino nacional, não havia nenhuma lei em vigor determinando que esse era o hino nacional oficial do país. Após a publicação do cartum, vários leitores começariam a enviar cartas ao Congresso, pedindo que o hino fosse oficializado. Um dos que fizeram campanha para a oficialização foi John Philip Sousa - a quem muitos confundem como sendo o autor do hino - um dos maiores compositores norte-americanos da época, autor de The Stars and Stripes Forever, considerada a "marcha oficial dos Estados Unidos" (Nota do Guil: e que eu aposto que você conhece, mesmo sem saber que é esse o nome, procure só pra ver), e de The Liberty Bell, tema de abertura do programa The Monty Python Flying Circus, que conversaria pessoalmente com o Presidente dos Estados Unidos na época, Herbert Hoover, sobre o assunto. Graças à pressão popular causada pelo cartum de Ripley, seria criada uma lei oficializando The Star-Spangled Banner como Hino Nacional dos Estados Unidos, sancionada por Hoover em 3 de março de 1931 - mais de 150 anos após a independência do país.

Além de publicar fatos coletados pelo próprio Ripley em suas viagens e pesquisas, o Ripley's Believe It or Not! aceitava contribuições dos leitores, que eram checadas (pessoalmente, quando possível) por Pearlroth, a maioria falando sobre vegetais de formas estranhas que nasceram em alguma cidade do interior do país. Dentre as selecionadas para a publicação estava a de um certo Charles M. Schulz, que alegava que seu cachorro Spike comia, regularmente, parafusos, alfinetes, tachinhas, pregos e lâminas de barbear. Schultz era ele mesmo um cartunista, e enviaria a carta no formato de um cartum; anos mais tarde, ele usaria Spike como inspiração para sua criação mais famosa: o cachorro Snoopy (que, até onde eu saiba, não tem o hábito de comer objetos pontiagudos).

No auge da popularidade, na década de 1930, a estimativa era de que o Ripley's Believe It or Not! tinha 80 milhões de leitores ao redor do planeta; somente no mês de maio de 1932, Ripley receberia mais de dois milhões de cartas dos leitores, o que levaria o mundo jornalístico a cunhar o jargão de que "Ripley recebe mais cartas que o Presidente dos Estados Unidos". Como sempre acontece nesses casos, surgiriam também as imitações, como a Strange as It Seems, tira de jornal criada por John Hix em 1928 e, assim como o Ripley's Believe It or Not!, publicada em vários jornais dos Estados Unidos em esquema de syndication; o Our Own Oddities, criado por Ralph Graczak em 1940 e publicado aos domingos no jornal The St. Louis Post-Dispatch; e o It Happened in Canada, criado por Gordon Johnston em 1967 e publicado em esquema de syndication no Canadá - e que tratava somente de fatos relacionados ao Canadá, e não internacionais como os demais.

No início da década de 1930, Ripley decidiria levar seu Believe It or Not para além dos jornais, e assinaria um contrato com a Mutual Broadcasting System para criar um programa de rádio, transmitido para os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, e que ganharia versões em outros idiomas em vários países da Europa e Ásia. O programa era gravado e depois inserido em meio à programação das rádios, em blocos que variavam de 15 a 30 minutos, sempre com Ripley comentando fatos curiosos. Hearst decidiria financiar suas viagens pelo mundo, para que ele encontrasse cada vez mais assunto, e, em 1932, ele faria sua primeira viagem ao Extremo Oriente. Ripley não pararia de gravar o programa durante essas viagens, e se tornaria o primeiro radialista dos Estados Unidos a gravar de dentro de um avião, de dentro de uma caverna, do meio de uma floresta, do alto de uma montanha, e de outros lugares exóticos - inclusive do fundo do mar. Alguns programas também seriam transmitidos ao vivo, o que faria com que Ripley fosse o primeiro radialista do mundo a transmitir um programa do meio do oceano, e o primeiro dos Estados Unidos a transmitir ao vivo para o país estando fora dele - prática que ele adotaria diversas vezes, sendo que, na primeira, ele estava em Buenos Aires, Argentina.

Em 1933, Ripley gravaria uma série de 24 curta-metragens de seu Believe It or Not para a Warner Bros, que seriam exibidos nos cinemas, antes das produções do estúdio. No mesmo ano, ele abriria seu primeiro Odditorium (um trocadilho com as palavras odd, "excêntrico", e auditorium, "auditório", que se pronuncia justamente "oditórium"), uma espécie de museu de fatos curiosos e objetos bizarros, na cidade de Chicago. O Odditorium seria um sucesso, e logo abriria filiais em San Diego, Dallas, Cleveland, San Francisco e Nova Iorque. Hoje, já existem 32 Odditoriums espalhados pela América do Norte, Ásia, Europa e Austrália.

Em 1934, Ripley se tornaria o primeiro radialista a transmitir ao vivo simultaneamente para o mundo inteiro - dizem que todas as nações que tinham rádio receberam o programa ao mesmo tempo, embora eu creia que seja difícil verificar essa informação - com a ajuda de 28 tradutores simultâneos, que traduziram ao vivo seu programa enquanto ele o transmitia. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele se envolveria com organizações de caridade, doando grandes quantias em dinheiro e ajudando a organizar seus eventos. Durante a Guerra, com a dificuldade de se encontrar novos fatos curiosos, o programa do rádio lentamente mudaria de formato, passando a contar com entrevistados ao vivo e com números de comédia.

Em 1948, no aniversário de 25 anos do Ripley's Believe It or Not!, Ripley já havia visitado quase 200 países, sido votado o homem mais popular da América pelo jornal The New York Times, e possuía uma fortuna considerável, que incluía uma mansão de 28 quartos em Nova Iorque, uma quase do mesmo tamanho em West Palm Beach, Flórida, e um apartamento de cobertura gigantesco em Manhattan. Com tudo isso, ele tomaria uma decisão que seria considerada arriscadíssima: acabar com o programa de rádio e começar a gravar um programa para a televisão - aparelho que, na época, estava presente em apenas uma minúscula parcela dos lares norte-americanos, ao contrário do onipresente rádio.

O produtor do programa de TV seria Doug Storer, produtor do programa de rádio que se tornaria amigo pessoal de Ripley, e que, após sua morte, se tornaria presidente do Ripley's Believe It or Not Group (que abreviaremos para Grupo Ripley), responsável por cuidar da série dos jornais e de tudo o que fosse relacionado a ela. Exibido pela NBC, o programa de TV seria bem próximo do original do rádio, trazendo apenas fatos curiosos, com a apresentação e ilustrações do próprio Ripley e cenas gravadas ao redor do planeta. Infelizmente, Ripley só conseguiria gravar 13 episódios de um total de 35 planejados antes de sofrer um infarto fulminante e falecer - diz a lenda que ele morreu durante as gravações do 13o episódio, mas, na verdade, ele se sentiu mal, foi para casa sem concluí-las, e morreu em casa.

Após a morte de Ripley, o programa continuaria com apresentadores convidados, incluindo Storer. Seu sucesso garantiria uma segunda temporada, na qual a NBC usaria um apresentador fixo, o ator Robert St. John. A segunda temporada, porém, não faria nem a metade do sucesso da primeira, e a série acabaria cancelada após duas temporadas de 35 episódios cada, o primeiro exibido em 1o de março de 1949, o último em 5 de outubro de 1950.

A versão para jornal do Ripley's Believe It or Not! continuaria sendo publicada após a morte de Ripley, com os fatos curiosos sendo encontrados e verificados por Pearlroth, e os cartuns desenhados pelos irmãos Frehm. Somente em 1989, com a falta de interesse do público, é que a série seria cancelada, após 66 anos de publicação contínua.

No início da década de 1980, entretanto, ninguém diria que essa crise se avizinhava; pelo contrário, após anos de sucesso moderado, o Ripley's Believe It or Not! teria um surto de popularidade, com os jornais voltando a receber várias cartas com comentários e curiosidades. O canal de televisão ABC decidiria se aproveitar desse surto e fazer um contrato com o Grupo Ripley, tratando da produção de uma nova série para a TV. Para testar as águas, o canal produziria uma espécie de piloto, um programa especial de uma hora de duração escrito e dirigido por Ronald Lyon, do Grupo Ripley, no qual o ator Jack Palance, famoso por ter atuado em faroestes nas décadas de 1950 e 1960 (incluindo o clássico Os Brutos Também Amam), viajava o mundo apresentando histórias que originalmente fizeram parte da série de jornal Ripley's Believe It or Not!, como a de um homem que viveu a maior parte da vida com uma barra de metal alojada na cabeça, e a de que a lenda do Conde Drácula teria sido inspirada na vida da Condessa Elizabeth Báthory, que viveu na Hungria no século XV. No final, o programa ainda adicionaria uma nova curiosidade, falando sobre as mais recentes novidades no estudo do biofeedback. A abertura contaria com desenhos do próprio Ripley, e música do famoso compositor Henry Mancini (criador, dentre outros, do tema de A Pantera Cor de Rosa). Exibido em 3 de maio de 1981, o programa faria grande sucesso, abrindo caminho para a produção da nova série.

A segunda série para a TV de Ripley's Believe It or Not! estrearia na ABC em 26 de setembro de 1982, com uma temporada de 20 episódios de 45 minutos cada. A abertura seria a mesma do especial, mas o programa contaria com dois apresentadores, Jack Palance e a atriz canadense Catherine Shirriff. Cada episódio trazia por volta de dez curiosidades, a maioria já apresentada na série de jornal, mas agora mostrada de forma mais elaborada, com reconstituições feitas por atores, imagens atuais dos locais onde ocorreram, imagens de arquivo e reproduções; algumas das curiosidades eram novas, pesquisadas pela equipe do programa. Antes de cada intervalo comercial, um cartum desenhado por Ripley era apresentado, com a história relacionada a ele sendo narrada em off. Ao fim de cada curiosidade, Palance ou Shirriff falavam a frase que ficaria associada para sempre ao programa: "acredite... se quiser!" ("believe it... or not!" no original).

Ripley's Believe It or Not! teria uma das maiores audiências da ABC em 1982/83, e ganharia uma segunda temporada, de 23 episódios, que estrearia em 25 de setembro de 1983. A fórmula seria a mesma, mas Shirriff, que assumiria compromissos com o cinema (dentre eles as gravações de Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock, no qual interpretaria a klingon Valkris) seria substituída pela filha de Palance, a também atriz Holly Palance. Holly seria mantida para a terceira temporada, de 21 episódios, que estrearia em 23 de setembro de 1984.

A terceira temporada, infelizmente, já começaria com audiência menor que a segunda, e essa audiência seria decrescente a cada episódio. Alguns comentaristas de TV considerariam que o formato estava esgotado, mas a ABC decidiria dar mais uma chance ao programa, produzindo uma quarta temporada, que estrearia em 29 de setembro de 1985, na qual Holly seria substituída pela cantora country Marie Osmond. A previsão era de que a quarta temporada teria mais 20 episódios, mas, como a audiência só fazia cair, apenas 11 seriam gravados, com a série sendo cancelada após um total de 75 episódios (sem contar o piloto), o último deles exibido em 6 de fevereiro de 1986. Depois disso, o Ripley's Believe It or Not! enfrentaria a já citada crise de popularidade que levaria ao cancelamento de sua série dos jornais, bem como ao fechamento de vários Odditoriums ao redor do planeta.

Na década de 1990, a série apresentada por Palance seria reprisada pelo canal a cabo Sci-Fi, onde faria um certo sucesso. Esse sucesso motivaria o estúdio Cinar a fazer um acordo com o Grupo Ripley para a produção de uma série animada, que estrearia no canal a cabo Fox Family em 14 de julho de 1999, com 26 episódios. Voltada para crianças em idade escolar, a série animada tinha como protagonista Michael Ripley, um sobrinho fictício de Robert Ripley, que viajava pelo mundo em companhia de três crianças, sempre mostrando curiosidades aliadas a fatos históricos; cada episódio era temático, com todas as curiosidades e fatos sendo ligados a um único tema. A série animada não faria muito sucesso, e teria só essa temporada.

O sucesso das reprises da série dos anos 1980 no Sci-Fi também motivaria a ABC a encomendar um piloto para uma nova versão da série de TV em 1994. Era uma época de vacas magras para o Grupo Ripley, porém, e eles aproveitariam a ocasião para fazer uma espécie de leilão, oferecendo os direitos da série ao canal que fizesse a melhor proposta. O canal vencedor seria a TBS, que, em 1998, faria um lance pela produção de uma temporada de 22 episódios sem que fosse necessária a produção de um piloto. Essa temporada estrearia em 20 de janeiro de 2000, e teria apresentação de Dean Cain (que interpretava o Super-Homem na série Lois & Clark).

A terceira versão da série Ripley's Believe It or Not! traria uma abordagem mais sensacionalista, com maior foco nas partes aparentemente inexplicáveis das curiosidades. Diferentemente de Palance e suas co-apresentadoras, Cain não viajava pelo mundo, mas apresentava o programa de um grande galpão, com cada episódio começando com a reconstituição, nesse galpão, diante de uma plateia, de uma das curiosidades do dia. Cada episódio mais uma vez trazia por volta de dez curiosidades, com Cain atuando como narrador em off quando eram mostradas imagens externas. Cada programa também contava com um segmento Spot the Not, no qual eram apresentados três fatos para que os espectadores tentassem adivinhar qual dos três não era verdade.

Ao todo, a série teria quatro temporadas, com a segunda, de mais 22 episódios, estreando em 10 de janeiro de 2001; nela, o ator Gregory Jbara, irmão de Dan Jbara, o produtor da série, estrearia como narrador de alguns segmentos, dividindo a função com Cain, e um novo segmento, Ripley's Record, traria candidatos a quebrar algum recorde mundial reconhecido pelo Guinness Book diante da plateia do programa. A terceira temporada teria mais 22 episódios, estrearia em 9 de janeiro de 2002, e traria a participação da atriz Kelly Packard, que apresentaria um novo segmento no qual pessoas demonstrariam habilidades incomuns, viajando pelo país para encontrar candidatos e locais próprios para que eles se exibissem.

Assim como ocorreu com a segunda série, a audiência da terceira temporada seria bem mais baixa que a da segunda; para a quarta temporada, então, a TBS encomendaria apenas 11 episódios, com a possibilidade de encomendar mais 11 caso a audiência melhorasse. O primeiro episódio da quarta temporada iria ao ar em 8 de janeiro de 2003; em março, acreditando que a audiência daria sinais de melhora, a TBS encomendaria os episódios adicionais, mas mudaria de ideia e cancelaria a série após apenas três deles serem gravados. Assim, a quarta temporada teria um total de 14 episódios, o último sendo exibido em 20 de agosto de 2003.

Essa foi a última versão de um Ripley's Believe It or Not! produzida nos Estados Unidos; em 2004, a Paramount colocaria em pré-produção um filme sobre a vida de Robert Ripley, mas, até hoje, o projeto não saiu do papel. O Grupo Ripley ainda existe, e atualmente publica e republica suas curiosidades em um site, que conta com uma equipe para verificar se todas as alegações ali feitas são verdadeiras. Vários Odditoriums ainda estão abertos à visitação em todo o planeta, e, de vez em quando, também são lançados novos livros, alguns em formato ebook, a maioria deles com republicações da série de jornal, mas alguns trazendo material inédito. Aparentemente, o legado de Robert Ripley jamais morrerá. Acredite... se quiser!
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