Björk

Quando eu conheci Björk, eu não sabia que ela era Björk. No início da década de 1990, eu comprava uma revista chamada Bizz Letras Traduzidas, que trazia letras de várias músicas que faziam sucesso nas rádios, acompanhadas das traduções das mesmas - para as traduções eu nem ligava muito, mas, em uma época na qual não existia internet, e como eu costumava comprar fitas cassete, que não vinham com encarte, ao invés de LPs, era praticamente a única forma que eu tinha de saber as letras das músicas das quais eu gostava. Na primeiríssima edição que eu comprei dessa revista, veio uma letra de uma música de uma banda que eu nunca tinha ouvido falar, chamada The Sugarcubes; cada letra era acompanhada de uma foto, e a dessa era da vocalista da banda, que, por causa dos olhos amendoados, eu achei que fosse japonesa.

Alguns anos mais tarde, Björk estouraria na Mtv - que eu assistia praticamente o dia inteiro - e eu gostaria bastante das duas primeiras músicas que ela lançou, Human Behaviour e Venus as a Boy - principalmente dessa segunda. Comprei seu primeiro CD, e só aí descobri que ela era a ex-vocalista dos Sugarcubes, ora vejam só.

Apesar de eu ter gostado muito de Björk na adolescência, faltou alguma coisa para que ela se imiscuísse de vez na minha lista de cantoras favoritas. Ainda assim, gosto de muitas das músicas que ela lançou de sua estreia solo pra cá - Jóga, Hidden Place, Triumph of a Heart, todas fantásticas - e admiro muito os videoclipes que ela grava para acompanhar essas músicas, todos visualmente interessantes e extremamente criativos - All is Full of Love chega a me dar um arrepio. Essa semana, eu li um comentário na internet sobre esses clipes, e achei que seria uma boa escrever sobre ela. Dito e feito, hoje é dia de Björk no átomo!


Björk Guðmundsdóttir nasceu em 21 de novembro de 1965 em Reykjavík, capital da Islândia, em uma família bastante politizada: seu pai, Guðmundur Gunnarson, era eletricista e líder sindical, e sua mãe, Hildur Rúna Hauksdóttir, era ativista política, tendo participado de um dos protestos mais famosos da história da Islândia, contra a construção da hidrelétrica de Kárahnjúkar.

Pausa para duas informações interessantes. A primeira é que Björk se pronuncia "biórc". A segunda, que quem leu o post sobre os sobrenomes já sabe, é que, na Islândia, não são usados nomes de família, e sim patronímicos, um tipo de sobrenome que não é passado dos pais para os filhos, e sim construído com base no nome do pai da pessoa. Assim, o sobrenome de Björk é Guðmundsdóttir porque seu pai se chama Guðmundur (dóttir significa "filha", então Guðmundsdóttir é a "filha de Guðmundur), e esse sobrenome é diferente dos de ambos os seus pais, porque nenhum dos seus avós se chamava Guðmundur - seu avô paterno se chamava Gunnar, por isso o sobrenome de seu pai é Gunnarson, e seu avô materno se chamava Hauk, por isso o sobrenome de sua mãe é Hauksdóttir. Se alguém quiser saber minha opinião, esse método deve ser muito complicado de se usar no dia a dia.

Enfim, os pais de Björk se separariam logo após ela nascer, e sua mãe a levaria para morar com ela em uma comunidade hippie, na qual se casou novamente, com o guitarrista Sævar Árnason, membro de uma banda chamada Pops. Graças a Árnason, Björk cresceria rodeada por música, e desde cedo se interessaria por canto e instrumentos musicais; aos seis anos de idade, sua mãe notaria que ela tinha aptidão musical, e a matricularia na Barnamúsíkskóli, a mais famosa escola de música de Reykjavík, onde ela aprenderia flauta e piano. Aos onze anos, ela participaria de um recital escolar, no qual interpretaria I Love to Love, de Tina Charles. Seus professores ficariam tão impressionados com sua performance que enviariam a gravação para a RÚV, na época a única rádio da Islândia, e portanto com alcance nacional, que a tocaria repetidas vezes. A gravação chamaria a atenção de um executivo da gravadora Fálkinn, que entraria em contato com a família de Björk e a ofereceria um contrato para o lançamento de um álbum. Ela aceitaria, e, assim, em 18 de dezembro de 1977, seria lançado Björk, o primeiro disco de sua carreira.

O álbum seria composto, em sua maioria, por canções criadas por Árnason, mas também trazia covers de canções em inglês traduzidas para o islandês, como The Fool on the Hill, dos Beatles (que virou Álfur Út Úr Hól), e Your Kiss Is Sweet, de Stevie Wonder (que virou Búkolla). Com duração de pouco mais de meia hora, teria tiragem limitada de 7.000 cópias, mas não venderia bem nem seria bem recebido pelos críticos. A Fálkinn ainda ofereceria a Björk uma extensão de contrato para que ela gravasse um segundo álbum, mas ela recusaria. Com o dinheiro que ganhou com o lançamento de Björk, ela compraria um piano, que usaria para compor suas próprias canções.

A vida de Björk nos anos seguintes ao lançamento de seu primeiro álbum seria muito agitada. Ela logo começaria a se interessar por punk rock, e, na companhia de amigas do colégio, formaria, em 1979, uma banda chamada Spit and Snot, que teria vida curta. Um ano depois, em 1980, ela formaria um grupo de jazz fusion chamado Exodus. Em 1982, ela sairia desse grupo e formaria uma nova banda punk, chamada Tappi Tíkarrass (que, em islandês, significa algo singelo como "mete no rabo dessa piranha"), que conseguiria lançar um EP, Bitið Fast í Vitið ("mordendo rápido para o inferno", sério, eles eram uns gênios), em agosto de 1982, e um LP, Miranda, em dezembro de 1983. O Tappi Tíkarrass seria selecionado para fazer parte de um documentário sobre a cena do rock em Reykjavík no início dos anos 1980, e Björk acabaria aparecendo na capa do VHS desse documentário. Apesar do relativo sucesso que vinha alcançando, Björk deixaria o Tappi Tíkarrass em 1984, após conhecer o guitarrista Þór Eldon, da banda Medusa. Ela, Eldon e o poeta Sjón formariam uma nova banda, chamada Rokka Rokka Drum, que também não teria vida muito longa.

Pouco depois, ela seria convidada para participar da última edição de um popular programa de música da RÚV, que seria cancelado, no qual se apresentaria ao vivo junto com os músicos Einar Melax (da banda Fan Houtens Kókó), Einar Örn Benediktsson (da Purrkur Pillnikk), Guðlaugur Kristinn Óttarsson e Sigtryggur Baldursson (da Þeyr), e Birgir Mogensen (da Spilafífl). Após o programa, eles decidiriam continuar cantando juntos, formando uma banda chamada Kukl ("feitiçaria"). A Kukl seria escolhida para abrir um show na Islândia da banda punk inglesa Crass, que acabaria a convidando para lançar um álbum pela sua gravadora, a Crass Records, e para se apresentar no festival Roskilde, na Dinamarca, o que fez com que a Kukl fosse a primeira banda islandesa a se apresentar em um festival de rock de grandes proporções realizado fora da Islândia. Ao todo, a Kukl lançaria dois álbuns, The Eye, em setembro de 1984, e Holidays in Europe, de janeiro de 1986. Alguns meses após esse segundo álbum, a banda se desentenderia e chegaria a seu fim.

Ainda em 1986, Björk descobriria que estava grávida de Eldon, se casaria com ele teria seu primeiro filho, Sindri Þórson. Infelizmente, o casamento não daria certo, e eles se divorciariam em menos de um ano. Naquele mesmo ano, ela estrearia como atriz em Einitréð ("zimbro", um tipo de árvore comum no hemisfério norte, conhecido em inglês como juniper tree), no qual ela interpretou uma garota cuja mãe fora condenada por bruxaria.

Também em 1986, Eldon e Benediktsson fundariam a Smekkleysa ("mau gosto"), para atuar como gravadora e editora. Os dois, mais Björk, Melax, Baldursson, e um ex-membro da Purrkur Pillnikk, Bragi Ólafsson, formariam uma nova banda, chamada Sykurmolarnir, que lançaria seus álbuns pela Smekkleysa. Para tentar se lançar no mercado internacional, eles cantariam em inglês, e se identificariam nas capas dos álbuns com o nome de The Sugarcubes - sendo que tanto Sugarcubes quanto Sykurmolarnir significam a mesma coisa, "cubos de açúcar".

Os Sugarcubes acabariam lançando apenas um single pela Smekkleysa, Ammæli ("aniversário"), exatamente no dia do aniversário de 21 anos de Björk. No mês seguinte, eles assinariam com a gravadora britânica One Little Indian, e, em agosto de 1987, lançariam seu primeiro single fora da Islândia, Birthday (que acho que todo mundo sabe que também significa "aniversário"), no Reino Unido. Naquele mesmo ano, eles conseguiriam um contrato com a Elektra Records para a distribuição de seus álbuns nos Estados Unidos; o primeiro, Life's Too Good, seria lançado em abril de 1988, na Islândia, Reino Unido e Estados Unidos. Logo após o lançamento, a nova namorada de Eldon, Margrét Örnólfsdóttir, substituiria Melax.

Life's Too Good faria um grande sucesso, vendendo mais de um milhão de cópias ao redor do planeta, e dando origem a uma turnê dos Sugarcubes pelos Estados Unidos, com direito a David Bowie e Iggy Pop na plateia durante um show no hotel Ritz de Nova Iorque e participação no programa Saturday Night Live. O segundo álbum, Here Today, Tomorrow Next Week!, seria lançado em outubro de 1989, mas seria um fracasso, tanto de vendas quanto de críticas, o que levaria a banda a entrar em um hiato logo após uma curta turnê pela Europa para promovê-lo. Durante esse hiato, Björk começaria a trabalhar em vários projetos solo, e gravaria um álbum chamado Gling-Gló com a banda de jazz Tríó Guðmundar Ingólfssonar. Nessa época ela já havia decidido se lançar em carreira solo, mas o contrato com a gravadora previa o lançamento de três álbuns, então ela concordou em gravar mais um com os Sugarcubes.

Stick Around for Joy seria lançado em fevereiro de 1992, e faria um enorme sucesso de público e crítica. Os Sugarcubes abririam duas vezes para o U2 nos Estados Unidos durante a turnê ZooTV, seriam eleitos a maior banda de rock da Islândia de todos os tempos, e ainda teriam lançada uma coletânea de remixes, It's-It, antes de seu fim definitivo, no Natal de 1992, após um último show no clube Tunglið, em Reykjavík. No início de 1993, Björk se mudaria para Londres para investir em sua carreira solo.

O primeiro álbum de Björk pós-Sugarcubes se chamaria Debut, e seria lançado em junho de 1993. Produzido por Nellee Hooper (que havia trabalhado com o Massive Attack), faria um sucesso estrondoso, rendendo um Disco de Platina nos Estados Unidos e sendo eleito álbum do ano pela prestigiada revista britânica NME. Sua principal música de trabalho, Human Behaviour, não tocaria muito nas rádios, mas seu videoclipe, dirigido por Michel Gondry, que, em 2004, ganharia um Oscar por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, seria um dos mais exibidos pela Mtv, e um dos principais responsáveis pela popularidade do álbum. Outras músicas de trabalho eram Venus as a Boy, Big Time Sensuality e Violently Happy. Metade das faixas do álbum era de canções que Björk vinha compondo desde a adolescência, com a outra metade sendo de novas compostas em parceria com Hooper, mais um cover do standard de jazz Like Someone in Love; enquanto trabalhavam nas canções de Debut, Björk e Hooper também comporiam Bedtime Story, que acabaria sendo gravada por Madonna. O sucesso do álbum renderia a Björk dois prêmios no BRIT Awards, o prêmio mais importante da indústria fonográfica britânica, de Melhor Cantora Internacional e Melhor Revelação Internacional.

Um novo álbum de Björk, Post seria lançado em junho de 1995, e teria uma pegada mais dance e techno que Debut, motivada, principalmente, por seus produtores - além de Björk e Hooper, o álbum seria produzido por Howie B, produtor de álbuns de música eletrônica, pelo rapper Tricky e por Graham Massey, da banda techno 808 State. Post teria nada menos que seis músicas de trabalho: Army of Me, Isobel, It's Oh So Quiet, Hyperballad, Possibly Maybe e I Miss You; todas elas seriam bastante executadas pelas rádios britânicas, embora a execução nos Estados Unidos, mais uma vez, tenha sido pouca, com os clipes conseguindo mais espaço na Mtv que as canções nas rádios - ainda assim, Post, mais uma vez, renderia um Disco de Platina nos EUA. O álbum também ficaria na sétima posição de uma lista dos 90 melhores álbuns dos anos 1990, organizada pela conceituada revista Spin, e renderia a Björk mais um prêmio de Melhor Cantora Internacional no BRIT Awards.

Após o lançamento de Post, Björk seria confrontada pelo lado ruim da fama, passando a reclamar constantemente do assédio de repórteres e paparazzi. Em 1996, ao viajar para um show na Tailândia, ela expressaria que não atenderia a repórteres fora de uma conferência previamente marcada, mas, mesmo assim, um batalhão deles a esperava no aeroporto, e uma delas chegaria a ser agredida pela cantora ao tentar segurar Sindri para fazer-lhe perguntas sobre a mãe. Também em 1996, um fã obsessivo indignado por Björk ter começado a namorar com o DJ Goldie decidiria enviar uma carta para a cantora armada com um dispositivo que espirraria ácido em quem a abrisse e se suicidar em seguida; felizmente, a polícia descobriria o plano e interceptaria a carta antes de Björk recebê-la.

O álbum seguinte de Björk traria um som bastante experimental, com o qual a cantora começaria a dar uma guinada em sua carreira. Lançado em setembro de 1997, Homogenic seria gravado na Espanha, e teria como músicas de trabalho Jóga (pronunciado como yoga), Bachelorette, Hunter, Alarm Call e All Is Full of Love. O clipe de All Is Full of Love, dirigido por Chris Cunnigham, seria um dos mais aclamados da história da Mtv, e seria o primeiro DVD-single lançado nos Estados Unidos, iniciativa que mais tarde seria adotada por vários outros artistas. Homogenic seria aclamado pela crítica - renderia seu terceiro prêmio de Melhor Cantora Internacional no BRIT Awards - mas venderia menos que seus antecessores, rendendo apenas um Disco de Ouro.

Em 1999, o diretor Lars von Trier convidaria Björk para compor a trilha sonora de seu filme Dançando no Escuro. Durante a produção, ele ficaria tão impressionado com a cantora que a convidaria para ser sua protagonista, Selma, uma mulher que luta para conseguir pagar por uma operação sem a qual seu filho ficará cego. Björk seria extremamente elogiada por sua atuação, ganhando a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes - com o filme ganhando a de Melhor Filme na mesma premiação - e sendo indicada para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática - que perderia para Julia Roberts em Erin Brockovich. Ela ficaria tão esgotada emocionalmente com sua entrega ao papel, porém, que chegaria a declarar que jamais voltaria a atuar novamente - anos mais tarde, ela também declararia que von Trier a assediava sexualmente constantemente durante as filmagens e que todos pareciam achar isso normal, o que a deixaria extremamente desiludida com a indústria do cinema. A trilha sonora composta por ela para o filme seria lançada em setembro de 2000 com o nome de Selmasongs, e a principal canção do filme, I've Seen It All, seria indicada para o Globo de Ouro e para o Oscar de Melhor Canção Original - perdendo ambos para Things Have Changed, de Bob Dylan, do filme Garotos Incríveis.

Em agosto de 2001, Björk lançaria o álbum Vespertine, que teria uma direção totalmente contrária à de Homogenic, com músicas mais introspectivas, sobre temas mais pessoais, e nas quais a cantora era companhada por orquestras e corais. A turnê que ela fez para promovê-lo teve shows apenas em teatros e casas de ópera, nos quais ela era acompanhada pelos músicos Matmos e Zeena Parkins e por um coral formado por inuit, o qual ela foi à Groenlândia especialmente para selecionar. Vespertine seria o álbum de vendagem mais rápida da carreira de Björk, alcançando um milhão de cópias vendidas no mundo inteiro antes do final do ano, mas, nos Estados Unidos, não venderia o suficiente para receber certificação; em compensação, ele seria o primeiro a chegar ao primeiro lugar de uma das paradas da Billboard, a de música eletrônica. Suas músicas de trabalho seriam Hidden Place, Pagan Poetry e Cocoon, e, mais uma vez, chamariam mais atenção pelos clipes que por sua execução nas rádios: o clipe de Pagan Poetry trazia Björk de topless, pessoas fazendo piercing e uma simulação de sexo oral, e acabaria sendo pouco exibido pela Mtv, e, quando o fosse, seria censurado; já o de Cocoon trazia Björk aparentemente nua (na verdade, com uma malha cor de pele) secretando uma espécie de lã vermelha pelos mamilos, que a envolvia em um casulo (que, em inglês, é cocoon), e sequer seria exibido pela Mtv.

Em 2002, Björk daria a luz a uma menina, Isadora Bjarkardóttir Barney, sua filha com o artista plástico norte-americano Matthew Barney. Naquele mesmo ano, seria lançada a coletânea Greatest Hits, com os maiores sucessos de seus quatro álbuns anteriores, escolhidos pelos próprios fãs através de uma votação no site oficial da cantora, mais uma faixa inédita, It's in Our Hands. A coletânea também seria lançada em DVD, com todos os clipes de Björk até o momento.

O álbum seguinte de inéditas, Medúlla, seria lançado em agosto de 2004, mais uma vez seguindo em uma direção oposta e inesperada: as canções são quase que inteiramente a capella, sem qualquer acompanhamento musical, apenas com a presença aqui e ali de algum instrumento. Elas contam com a participação especial de diversos outros artistas, como Mike Patton, vocalista da banda Faith No More; Robert Wyatt, da banda Soft Machine; o beatboxer japonês Dokaka; o cantor de hip hop Rahzel; e a cantora inuit canadense Tanya Tagaq. Medúlla teria apenas duas músicas de trabalho, Who is It e Triumph of a Heart, mas também traria as primeiras músicas gravadas por Björk em islandês desde sua adolescência, Vökuró, Öll Birtan e Miðvikudags, além da faixa-bônus Komið, para quem o comprasse pelo iTunes. Uma de suas faixas, Oceania, seria cantada por Björk na abertura das Olimpíadas de 2004, em Atenas, Grécia.

Em 2005, Björk e Barney participariam do filme Drawing Restraint 9, no papel de dois ocidentais que visitam um navio baleeiro japonês e se transformam em duas baleias; mudo, o filme, escrito e dirigido por Barney, tinha apenas sons ambientes e uma trilha sonora composta pela própria Björk, lançada em julho daquele ano. Ainda em 2005, Björk participaria do documentário Screaming Masterpiece, sobre a história do rock na Islândia, e que trazia cenas de apresentações dos Sugarcubes e da Tappi Tíkarrass, entremeadas por uma entrevista com a cantora. Em novembro de 2006, os Sugarcubes se reuniriam para uma única apresentação em Reykjavík, com renda revertida para a Smekkleysa, que, já há alguns anos, passara a atuar como uma organização sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento da música contemporânea islandesa. Em 2007, Björk regravaria The Boho Dance para um tributo à cantora Joni Mitchell, e recusaria o papel de protagonista no filme Sonhando Acordado, de Gondry, papel que acabaria ficando com Charlotte Gainsbourg - ela aceitaria, entretanto, emprestar sua voz para a protagonista da animação islandesa Anna og Skapsveiflurnar.

O álbum seguinte de Björk, Volta, seria lançado em maio de 2007, e marcaria um retorno à música eletrônica. Ele seria o primeiro da cantora a entrar no Top 10 da Billboard, chegando à nona posição, além de chegar à primeira posição da parada de música eletrônica, mas, mais uma vez, não conseguiria certificação. Suas músicas de trabalho seriam Earth Intruders, Innocence, Declare Independence, Wanderlust e The Dull Flame of Desire. No ano seguinte, ela lançaria Náttúra, single vendido exclusivamente pela internet, cuja renda seria revertida para a preservação do meio ambiente na Islândia.

O projeto seguinte de Björk se chamaria Biophilia. Mais que um álbum, ele seria composto de uma série de apps para iPad, uma turnê especial com shows e palestras sobre ciência e natureza, e um programa educacional voltado para crianças entre 10 e 12 anos, explorando a relação entre música, ciência e meio-ambiente. O programa seria elogiadíssimo, e a prefeitura de Reykjavík decidiria adotá-lo em todas as escolas públicas da cidade. O projeto ganharia vários prêmios na Europa, com os apps sendo selecionados para o acervo do MoMA, o Museu de Arte Moderna da cidade de Nova Iorque (na primeira vez em que apps foram selecionados para fazer parte do acervo de um museu), e um dos shows, realizado no Alexandra Palace de Londres, sendo filmado e exibido em mais de 400 cinemas ao redor do mundo com o nome de Björk: Biophilia Live. Biophilia, o álbum, seria lançado em outubro de 2011, e teria como músicas de trabalho Crystalline, Cosmogony, Virus e Moon. O álbum mais uma vez chegaria ao topo da parada de música eletrônica da Billboard, mas mais uma vez venderia pouco e não conseguiria certificação.

O álbum seguinte, Vulnicura, acabaria vazando na internet, e, para tentar diminuir o prejuízo, seria lançado no iTunes em janeiro de 2015, com a versão física sendo lançada somente em março. Com letras emotivas que faziam referência ao fim do relacionamento de Björk com Barney, o álbum seria extremamente elogiado pela crítica, mas falharia em cativar o público; uma das razões para isso foi que, em mais uma inovação, Björk decidiria que ele não teria nenhuma música de trabalho, com, ao invés disso, cada uma de suas faixas tendo um clipe, com todos eles sendo reunidos em uma mostra chamada Björk Digital, na qual os visitantes poderiam assisti-los em um ambiente de realidade virtual em 360 graus. Em novembro de 2015, seria lançado um "álbum-complemento", chamado Vulnicura Strings, no qual todas as faixas são reinterpretadas usando apenas instrumentos de cordas, incluindo um chamado viola organista, inventado por Leonardo da Vinci. Uma semana depois, Vulnicura Live, uma versão ao vivo do álbum, seria lançada, primeiro em tiragem limitada, que se esgotou rapidamente, depois com nova arte em edição regular.

O mais recente álbum de Björk se chama Utopia, e está previsto para ser lançado em novembro de 2017, também conhecido como mês que vem. Fãs ansiosos já esperam pelo que ela vai inventar dessa vez, pois Björk parece estar sempre em inovação, jamais satisfeita em fincar raízes em um único estilo musical, e sempre na vanguarda quando se trata de promover seus álbuns.
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Spartacus

Minha mãe tem uma estranha mania de chamar atores pelos nomes dos personagens com os quais ela os identifica. Por causa disso, em suas falas, Christopher Reeve é conhecido como "o Super-Homem", Christopher Lambert é conhecido como "o Highlander", e Kirk Douglas é conhecido como "o Spartacus" (Jessica Lange é conhecida como "a mulher do King Kong" e Michael J. Fox como "o De Volta para o Futuro", mas esses são casos mais extremos, então deixa pra lá). Essa semana, comentei algo com ela sobre Andy Whitfield, da série do Spartacus, e ela respondeu que ele não era o "Spartacus verdadeiro". Como eu estava mesmo procurando um assunto, achei que Spartacus seria um bom, e, assim, hoje é dia de Spartacus no átomo!

Spartacus foi um personagem verídico. Pouco se sabe sobre sua vida antes dos eventos que o fizeram ficar famoso, mas, em relatos de Plutarco e de Lúcio Floro, é dito que ele nasceu na Trácia, região que hoje pertence à Bulgária, por volta do ano 111 a.C. Não se sabe por que motivo, Spartacus entraria para o exército romano e atuaria como soldado, até que desertaria e retornaria para sua terra natal. Caçado, ele e sua esposa seriam escravizados; ela teria destino incerto, ele seria vendido para lutar como gladiador. Segundo registros históricos, ele seria treinado na cidade de Cápua, no ludus pertencente a Lentulus Batiatus. No ano de 73 a.C., Spartacus lideraria um grupo de 70 escravos pertencentes a Batiatus, dentre eles um pequeno número de gladiadores, incluindo os campeões Crixus e Oenomaus, e fugiria da propriedade; arregimentando mais escravos durante a fuga, ele conseguiria derrotar os soldados romanos lotados na cidade, e partiria na direção do Monte Vesúvio, onde montaria um acampamento fortemente defendido.

O Senado romano chamaria Marco Licínio Crasso, então o homem mais rico de Roma, e o incumbiria da missão de derrotar Spartacus. Durante dois anos ele atacaria o acampamento, mas sem conseguir derrotar o ex-escravo; ele conseguiria, porém, empurrar o grupo liderado por Spartacus cada vez mais para o sul. No ano de 71 a.C., já ficando encurralado, Spartacus tentaria um acordo com piratas para levar seu grupo até a ilha da Sicília, mas, antes que isso pudesse ser feito, um ataque conjunto das legiões de Crasso e de Pompeu, maior general romano da época, que ainda não havia se envolvido com a questão por estar ocupado com uma outra guerra na Hispânia, seria bem sucedido em separar o grupo de Spartacus em três partes. Segundo Plutarco e Floro, Spartacus teria morrido nessa batalha, embora seu corpo jamais tenha sido encontrado. Não se sabe, aliás, quantos dos escravos liderados por Spartacus teriam morrido, mas estima-se que tenham sido por volta de quatro mil; seis mil sobreviventes seriam capturados, mas sequer teriam direito a um julgamento, sendo crucificados ao longo da estrada entre Cápua e Roma, enquanto Crasso e Pompeu retornavam para casa.

Curiosamente, não há nenhum registro histórico de que Spartacus queria acabar com a escravidão em Roma; aparentemente, tudo o que ele queria era fugir e deixar de ser escravo, levando outros que tivessem esse desejo junto com ele. A imagem do Spartacus libertador, que tinha um profundo senso de honra e justiça, e decidiu lutar para extinguir a escravidão, é bastante recente, e se popularizaria devido a um livro, chamado simplesmente Spartacus, escrito pelo norte-americano Howard Fast, que o publicaria por conta própria em 1951. Fast começaria a escrever o livro como reação por sua prisão por envolvimento com o Partido Comunista dos EUA, durante a época do macarthismo, na qual qualquer um remotamente acusado de associação com o comunismo podia ser preso, e várias personalidades do cinema, da música e da literatura tiveram de ir a audiências conduzidas pelo Senado negar publicamente sua associação com o comunismo, sob pena de prisão ou ostracismo. Em 1950, Fast seria convocado para delatar pessoas que contribuíram com um fundo para ajudar os veteranos da Guerra Civil Espanhola, acusados de associação com o comunismo, e, ao se negar, receberia a pena de três meses de prisão.

Segundo Fast, o tema central da história é o de que os valores universais mais básicos da vida são o amor, a liberdade e a esperança, e, quando a opressão acaba com esses valores, o oprimido sente que não tem nada a perder ao se rebelar e decidir enfrentá-la. Dentro dessa lógica, Spartacus seria um símbolo do homem que foi sendo alijado de todos os seus valores mais básicos, até decidir se voltar contra o sistema político para tentar impedir que outros tivessem seu mesmo destino. O livro é narrado por figuras histórias importantes de Roma, como Crasso, Graco, Caio e Cícero, que, usando verbos no passado, se recordam da vida de Spartacus, de sua rebelião e da guerra entre as legiões romanas e seu grupo de escravos; paralelamente a essas narrativas, há um narrador impessoal que usa verbos no presente, e completa a narrativa com informações que os romanos não teriam como saber. Embora todos os personagens do romance sejam reais, ele é uma ficção histórica, com muitos fatos fictícios sendo adicionados aos verídicos - Graco, por exemplo, na realidade morreu dez anos antes do nascimento de Spartacus, mas, no livro, é seu contemporâneo e o conheceu. O livro já começa com Spartacus escravizado, sem citar seu passado na Trácia ou como soldado romano, e foca principalmente em seu grande senso de honra e justiça, que o leva a tentar acabar com a escravidão no Império.

O livro faria um sucesso moderado, mas, na década de 1960, seria alavancado pelo sucesso de um filme baseado nele, seria republicado pela editora Blue Heron Press, e passaria mais de um ano na lista dos mais vendidos. A parte curiosa é que tudo isso surgiria de uma questão ligada ao ego: em 1959, o diretor William Wyler decidiria fazer uma refilmagem de Ben Hur, cujo filme original, mudo e em preto e branco, havia sido lançado em 1925. Todos davam como certa a escalação de Kirk Douglas (inclusive o próprio Douglas), que já havia trabalhado com Wyler em Chaga de Fogo, de 1951, para o papel principal, mas Wyler surpreenderia a todos ao escalar Charlton Heston, de Os Dez Mandamentos, para o papel de Judah Ben Hur. Douglas ficaria irritadíssimo ao ser preterido, e passaria vários dias de mau humor.

Ao perceber o descontentamento do chefe, Eddie Lewis, vice-presidente da Bryna Productions, companhia que Douglas havia fundado para produzir seus próprios filmes e nomeado em homenagem à sua mãe, compraria uma cópia de Spartacus e a daria para que Douglas lesse. O ator gostaria muito da história, e imaginaria que um filme sobre ela poderia ser um sucesso ainda maior que Ben Hur. Douglas compraria os direitos de Fast com seu próprio dinheiro, mas a Bryna não tinha capital ou pessoal para produzir um épico de tamanhas proporções; Douglas, então, conversaria com Peter Ustinov (o Nero de Quo Vadis), Charles Laughton (o Dr. Moreau de A Ilha das Almas Perdidas) e Laurence Olivier (que eu acho que dispensa apresentações, mas, mesmo assim, vá lá, de Ricardo III) e os ofereceria papéis no filme. Com esses três pesos-pesados no elenco, ele conseguiria convencer a Universal a financiar e distribuir o filme, ficando a Bryna apenas creditada como produtora.

Faltava, ainda, um roteirista e um diretor. A princípio, o próprio Fast escreveria o roteiro, mas acabaria desistindo após sentir muita dificuldade ao escrever nesse formato. Douglas, então, escolheria Dalton Trumbo, mas havia um problema: assim como Fast, Trumbo era filiado ao Partido Comunista, e, após sair da prisão, havia sido colocado em uma Lista Negra de Hollywood, cujo efeito prático era o de que qualquer filme escrito por ele teria uma turba furiosa na porta do cinema para impedir que ele fosse assistido. Trumbo, entretanto, não havia parado de escrever, trabalhando para estúdios pequenos usando pseudônimos, e tendo armado um grande esquema envolvendo sua mulher e suas duas filhas para que ninguém soubesse que ele era o verdadeiro roteirista. Ao ser procurado por Douglas, Trumbo achou arriscado trabalhar para um estúdio grande como a Universal, mas, por gostar do projeto, aceitaria, e decidiria escrever o roteiro usando o pseudônimo de Sam Jackson.

Douglas, entretanto, se recusou a aceitar que Trumbo escrevesse sob um pseudônimo, e convenceu a Universal a creditá-lo como roteirista; essa seria a primeira vez em dez anos na qual Trumbo receberia um crédito, e a primeira após ser preso na qual ele entraria em um estúdio pela porta da frente. Mais que isso, o sucesso do filme ajudaria a acabar com a própria Lista Negra: quando ninguém menos que John F. Kennedy, recém-eleito Presidente dos Estados Unidos, decidiu ignorar os que protestavam e não somente ir a um cinema assistir ao filme, mas também dar uma entrevista dizendo que todos deveriam fazer o mesmo, os grandes estúdios passaram a voltar a contratar os roteiristas renegados, e, com o tempo, os protestos cessariam - o próprio Trumbo ainda seria creditado por mais um grande sucesso também lançado em 1960, Exodus, da United Artists, para o qual foi contratado pelo diretor Otto Preminger, que decidiu fazê-lo quando descobriu que Douglas o havia contratado para escrever Spartacus.

Para a direção, a Universal havia escolhido David Lean (de A Ponte do Rio Kwai e, posteriormente, Lawrence da Arábia), que recusou sem dar maiores explicações. Anthony Mann, conhecido por seus filmes de faroeste (e que, posteriormente, filmaria El Cid) acabaria contratado, mas, após a filmagem da cena de abertura, Douglas, insatisfeito com o comportamento do diretor no set, decidiria dispensá-lo e chamar Stanley Kubrick, na época um jovem diretor com apenas quatro filmes no currículo, mas com quem Douglas já havia trabalhado em Glória Feita de Sangue. Spartacus seria o filme de maior orçamento da carreira de Kubrick, mas também o único no qual ele não teria total controle criativo sobre a obra, tendo de seguir as instruções de Douglas e Trumbo, o que fez com que ele tivesse um estilo bem diferente do restante de sua filmografia - durante as filmagens, inclusive, Kubrick frequentemente reclamaria com Trumbo que o personagem Spartacus era "perfeito demais", e insistiria para que o roteirista lhe desse algum defeito ou peculiaridade, não sendo atendido. Kubrick acabaria "deserdando" o filme, jamais o incluindo em sua filmografia quando a listava.

O filme começa como o livro, com Spartacus (Douglas) já como escravo, trabalhando em uma mina, quando Lentulus Batiatus (Ustinov) lá chega para comprar escravos e transformá-los em gladiadores. No ludus, ele se apaixona por Varínia (Jean Simmons), uma escrava de Batiatus, e sofre nas mãos de Marcellus (Charles McGraw), o abusivo treinador de gladiadores, que não perde uma oportunidade de humilhá-lo. Um dia, o ludus recebe a visita do senador Marco Licínio Crasso (Olivier), o homem mais rico de Roma, que está viajando na companhia de sua namorada, Cláudia Mário (Joanna Barnes), do também senador Marco Glabro (John Dall), de sua esposa Helena (Nina Foch). Crasso compra Varinia, e pede para que Batiatus arranje uma luta até a morte para entretê-los, com Cláudia e Helena selecionando Spartacus e o africano Draba (Woody Strode) para lutar. Inexperiente, Spartacus é derrotado, mas, ao invés de matá-lo, Draba ataca Crasso, sendo morto no processo. Impressionado com a valentia e a honra do colega, e revoltado por Varínia ter sido vendida, no dia seguinte, aproveitando a ausência de Batiatus, Spartacus ataca Marcellus, se une aos campeões Crixus (John Ireland) e Gannicus (Paul Lambert), e lidera os escravos em uma rebelião.

O grupo de Spartacus consegue derrotar vários centuriões romanos e escapar rumo ao sul, onde faz um acordo com o pirata Tigranes (Herbert Lom) para que ele os leve à ilha da Sicília. Crasso, porém, não está disposto a permitir a fuga, e reúne um grande exército para atacá-los, do qual Spartacus é avisado por Antoninus (Tony Curtis), um escravo de Crasso que decide desertar e se unir ao grupo de Spartacus. Paralelemente a isso, o senador Tibério Graco (Laughton), que imagina que Crasso tentará dar um golpe em Roma e se tornar ditador caso derrote Spartacus, decide financiar um jovem senador de nome Júlio César (John Gavin), para que este derrote Spartacus e impeça a vitória de Crasso.

Kubrick queria filmar em Roma, mas o presidente da Universal, Edward Muhl, andava insatisfeito com o fato de que todos os diretores de épicos sempre queriam filmar na Europa, e queria provar que era possível filmar um épico em Hollywood; no fim, os dois chegaram a um meio-termo, com a maior parte do filme sendo filmada nos estúdios da Universal, a sequência inicial no Vale da Morte, em Nevada, e as cenas externas de batalha na Espanha, em uma vasta planície próxima a Madrid, com soldados do exército espanhol atuando como centuriões romanos. Para das a ilusão de grandes plateias nas cenas de arena, filmadas em estúdio, Kubrick iria até um jogo de futebol americano universitário da Michigan State contra a Notre Dame e gravaria os gritos e apupos da torcida - pedindo, inclusive, para que eles gritassem, durante o intervalo, para que ele gravasse, "salve, Crasso" e "eu sou Spartacus".

Spartacus estrearia nos cinemas dos Estados Unidos em 6 de outubro de 1960; com orçamento de 12 milhões de dólares, uma quantia gigantesca para a época, renderia cinco vezes mais, se tornando o maior sucesso da Universal até então, se mantendo como o filme mais rentável da história do estúdio durante dez anos, até ser ultrapassado, em 1970, por Aeroporto, que, com orçamento de dez milhões, renderia cem. No início, a crítica não seria favorável ao filme, considerando-o irregular, e apontando, principalmente, o fato de que ele havia sido "escrito por um comunista, baseado em um livro de um comunista"; após o aval de Kennedy, porém, a crítica passaria a ver o filme com melhores olhos, e ele receberia até mesmo seis indicações ao Oscar, ganhando as de Melhor Edição de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Ator Coadjuvante (Ustinov), mas perdendo Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

A perda do Oscar de Melhor Trilha Sonora (para a de Exodus), aliás, é considerada uma das maiores injustiças da história do prêmio, já que a trilha composta por Alex North, que, ao longo de sua carreira, ganhou um total de seis Oscars, é considerada uma das melhores da história do cinema. North faria uso de vários instrumentos pouco convencionais, como um oboé chinês e um sarrusofone, para que a música soasse legitimamente romana, e arriscaria compondo músicas sem centro tonal ou que mudavam de estilo ao se modificar apenas os valores tonais - como o tema usado para representar tanto a escravidão quanto a liberdade, que é a mesma música, mas executada de duas formas diferentes. Em 2010, em comemoração aos 50 anos do filme, a trilha sonora completa seria lançada em uma caixa limitada a cinco mil unidades, que continha seis CDs, um DVD e um livreto de 168 páginas.

O filme teria quatro versões lançadas, com a original, de 1960, tendo 184 minutos de duração. Em 1967, ele seria relançado nos cinemas, mas com apenas 161 minutos, para que pudesse ser exibido sem intervalo - era comum na época que filmes longos contassem com um intervalo durante a projeção, durante o qual o filme era interrompido para que os espectadores pudessem esticar as pernas, fumar, ir ao banheiro, fazer um lanchinho etc. Em 1991, o filme sofreria uma restauração, e seria lançada uma nova versão de 196 minutos, que teria de volta os 23 removidos em 1967, e ainda incluiria 14 minutos de cenas removidas antes do lançamento original por serem consideradas violentas ou amorais, inclusive uma cena na qual Crasso tenta seduzir Antoninus - essa cena, aliás, teve restauração difícil, já que seu áudio original não foi encontrado e ela precisou ser redublada; Curtis, então com 66 anos, dublou ele mesmo Antoninus, mas Olivier havia falecido em 1989, de forma que Crasso foi dublado por Anthony Hopkins imitando a voz de Olivier, uma sugestão da viúva de Olivier, Joan Plowright. Por opção própria, Kubrick não participaria da restauração, conduzida por Robert A. Harris e Steven Spielberg, mas a aprovaria após assisti-la.

Essa versão de 1991 é a presente hoje na maior parte dos lançamentos em home video, como as versões à venda aqui no Brasil em DVD e Blu-ray; existe ainda, entretanto, uma quarta versão, de 2015, restaurada em 4K e com 208 minutos de duração, incluindo mais 12 minutos de cenas que eram consideradas perdidas mas foram encontradas em negativos de colecionadores no início da década de 2010. Essa versão seria lançada exclusivamente em Blu-ray nos Estados Unidos (aqui no Brasil, a versão vendida como "Edição de 55o Aniversário" é a mesma já lançada antes em DVD, apenas com uma capa diferente), após ser exibida em uma sessão especial no Film Forum, um cinema de Nova Iorque dedicado a exibir grandes produções gratuitamente para o público que normalmente não tem acesso ao cinema. Por incrível que pareça, essa última versão ainda não é a "mais completa", pois, segundo os registros da Universal, ainda está desaparecida uma cena de quatro minutos na qual Graco recebe a notícia de que Crasso derrotou Spartacus, e que não consta de nenhuma versão dos negativos encontrada até hoje.

Apesar do grande sucesso do filme, ele e o livro seriam as únicas obras de destaque sobre Spartacus durante mais de quarenta anos (na década de 1960, para aproveitar o sucesso do filme, ainda seriam lançadas produções de baixo orçamento como O Filho de Spartacus e A Vingança de Spartacus, mas essas nem contam); somente em 2004 o canal a cabo USA Network decidiria lançar uma minissérie em dois episódios estrelada por Goran Visnic, Alan Bates, Angus Macfadyen, Rhona Mitra e Ben Cross, posteriormente condensada e lançada em DVD como se fosse um filme de 171 minutos. A minissérie é mais fiel ao livro que o filme, mas é narrada por uma mulher que está contando a história de Spartacus a seu filho, os quais, no fim, descobrimos que são Varínia e o filho que ela teve com Spartacus.

Em 2009, outro canal a cabo, o Starz, anunciaria estar produzindo uma série protagonizada por Spartacus, sem associação com o livro ou o filme, e que focaria em aspectos como a vida de Spartacus antes de ele ser escravizado e as vidas pessoas dos gladiadores com os quais ele dividia o ludus. Com o nome de Spartacus: Sangue e Areia (Spartacus: Blood and Sand, no original), a primeira temporada dessa série teria 13 episódios, exibidos entre 22 de janeiro e 23 de abril de 2010. Vale dizer que é uma série "para adultos", com violência exagerada, mortes nojentas, cenas de sexo quase explícitas e nu frontal masculino e feminino.

Filmada na Nova Zelândia e produzida por Steven S. DeKnight e Robert Tapert, a série começa com Spartacus (Andy Whitfield) ainda na Trácia, sendo recrutado por Gaio Cláudio Glaber (Craig Parker) para lutar pelo Império Romano, com a promessa de que, em troca, os romanos os ajudariam a proteger suas terras de seus inimigos, os Getae. Cláudio, porém, está insatisfeito com a posição, muito distante de Roma e longe das principais batalhas, e decide, por conta própria, mudar os planos de ataque, para tentar chamar a atenção do senado sobre sua perícia como estrategista militar. Spartacus não concorda, pois isso deixará sua vila aberta a um ataque dos Getae, desafia Cláudio, e volta para casa. Cláudio, então, passa a considerá-lo um desertor, captura a ele e a sua esposa, Sura (Erin Cummings), e leva a ambos como escravos para Roma. Lá, Sura tem um destino incerto, enquanto Spartacus é vendido a Quintus Lentulus Batiatus (John Hannah, do filme A Múmia com Brandon Fraser) e levado a Cápua para ser treinado como gladiador.

No ludus, Spartacus é recebido com antipatia por Crixus (Manu Bennett, de O Hobbit), o atual campeão, que não vê nele um gladiador. De fato, Spartacus não tem nenhuma intenção de lutar para fazer a fama de Batiatus, obedecendo com relutância às ordens de Oenomaus (Peter Mensah), um ex-gladiador que agora atua como treinador. Batiatus, porém, acredita que Spartacus pode ser a chave para ele finalmente se tornar um lanista (tipo um empresário dos gladiadores) de sucesso e sair de Cápua, e faz com ele um trato: se Spartacus aceitar lutar em seu nome, ele encontrará Sura, a comprará, e Spartacus poderá viver com ela no ludus. Spartacus aceita, mas tem seus próprios planos: fugir com Sura assim que o casal for reunido. Infelizmente, esse plano não dá muito certo, e, revoltado, Spartacus decide liderar os escravos do ludus em uma revolta contra Batiatus, fugindo para sua liberdade.

Outros personagens da primeira temporada incluem Lucrécia (Lucy Lawless, conhecida por minha mãe como "a Xena"), a esposa de Batiatus, dondoca que sonha ter um filho e ascender de vida indo morar em Roma, mas parece estar cada vez mais longe de ambos os objetivos; Illithyia (Viva Bianca), a esposa de Cláudio, de família riquíssima, que acaba desenvolvendo uma atração sexual por Spartacus; Solonius (Craig Walsh Wrightson), lanista rival de Batiatus; Varro (Jai Courtney), romano que aceitou se tornar gladiador para saudar dívidas e garantir o futuro de sua esposa, Aurélia (Brooke Williams), e que acaba se tornando o melhor amigo e confidente de Spartacus no ludus; Barca (Antonio Te Maioha), gladiador fortíssimo que também atua como guarda-costas de Batiatus; Pietros (Eka Darville), rapaz que é escravo do ludus e amante de Barca; Naevia (Lesley-Ann Brandt), escrava de Lucrécia por quem Crixus é apaixonado; Mira (Katrina Law), escrava do ludus que se apaixona por Spartacus; Agron (Dan Feuerriegel), gladiador de origem germânica que chega ao ludus depois de Spartacus e o ajuda a planejar a rebelião; e o perigoso Ashur (Nick E. Tarabay), ex-gladiador mau caráter de origem síria, que se feriu em uma luta e ficou impossibilitado de prosseguir em sua função, sendo, então, aproveitado por Batiatus como capanga, fazendo o trabalho sujo sempre que necessário e espionando os demais gladiadores para seu patrão.

A primeira temporada faria um grande sucesso, e a série seria renovada para uma segunda. Whitfield, porém, seria diagnosticado com um linfoma não-Hodgkin, e não poderia começar a gravar a segunda temporada enquanto não concluísse o tratamento. Para que a série não ficasse um ano inteiro fora do ar, a Starz decidiria gravar uma minissérie que atuasse como "prequência", contando eventos ocorridos em Cápua antes da chegada de Spartacus. Com o nome de Spartacus: Deuses da Arena (Spartacus: Gods of the Arena), essa minissérie teria 6 episódios, exibidos entre 21 de janeiro e 25 de fevereiro de 2011.

Na minissérie, Batiatus é apenas um jovem lanista, no início de sua carreira, assim como seu melhor amigo, Solonius. Apesar de Batiatus morar no ludus com sua esposa Lucrécia, e de ser o responsável pelo treinamento e promoção das lutas dos gladiadores, o verdadeiro dono do ludus e dos gladiadores é seu pai, Titus Lentulus Batiatus (Jeffrey Thomas), com quem Batiatus não se dá bem, principalmente por não concordar com suas decisões a respeito da condução dos negócios. Os dois principais gladiadores de Batiatus são Gannicus (Dustin Clare), que tem imenso talento, mas nenhuma disciplina, e Oenomaus, o mais disciplinado de todos, mas que não é tão talentoso; Oenomaus é casado com uma das escravas de Lucrécia, Melitta (Marisa Ramirez), que acaba se apaixonando por Gannicus, formando um triângulo amoroso.

Os demais personagens da primeira temporada presentes na minissérie são Barca, que já é um gladiador de considerável fama; Crixus, que é um escravo recém-comprado, que aparentemente não leva jeito para ser gladiador, mas que planeja treinar até se tornar o melhor de todos; Ashur, também recém-comprado, mas que pretende conseguir vitórias na arena com trapaças ao invés de com esforço; e Naevia, recém-comprada para ser escrava de Lucrécia. Novos personagens da minissérie incluem Ulpius (Temuera Morrison), o treinador dos gladiadores, posto que, na primeira temporada, pertence a Onoemaus; Gaia (Jaime Murray), amiga rica e extravagante de Lucrécia que decide passar uma temporada morando com ela no ludus; Túlio (Stephen Lovatt), agiota para quem Batiatus deve dinheiro; Vettius (Gareth Williams), principal rival de Batiatus; Cossutius (Jason Hood), homem mais rico de Cápua, a quem Batiatus quer agradar a todo custo; Diona (Jessica Grace Smith), comprada junto com Naevia, mas de personalidade totalmente diferente; e Dagan (Shane Rangi), gladiador sírio que não fala latim e é frequentemente enganado por Ashur.

Infelizmente, Whitfield não conseguiria se curar do câncer, e, em uma reunião com a Starz, ficaria decidido, com sua autorização, que um novo ator seria escolhido para interpretar Spartacus na segunda temporada. Após meses de testes, o escolhido seria Liam McIntyre, que inclusive regravaria algumas cenas da primeira temporada para que, quando Spartacus aparecesse em flashbacks, não tivesse uma aparência diferente. Whitfield acabaria falecendo em setembro de 2011, aos 40 anos, e receberia uma homenagem ao final do primeiro episódio da segunda temporada.

Com o nome de Spartacus: Vingança (Spartacus: Vengeance), a segunda temporada teria 10 episódios, exibidos entre 27 de janeiro e 30 de março de 2012. Após fugir do ludus, Spartacus (McIntyre), Agron, Crixus, Oenomaus e Mira tentam fugir dom Império Romano e viver suas vidas em liberdade; no caminho, eles arregimentam vários outros escravos que libertam, como Nasir (Pana Hema Taylor), jovem camareiro que deseja se tornar guerreiro e acaba se tornando amante de Agron; e três germânicos libertados antes que fossem vendidos como escravos, o ambicioso Donar (Heath Jones), o forte Lugo (Barry Duffield) e a bela e mortal Saxa (Ellen Hollman). Aurélia e Gannicus, de forma relutante, também acabam se unindo ao grupo de Spartacus, e, enquanto o grupo ruma para o Monte Vesúvio, Crixus pede para que Spartacus o ajude a encontrar Naevia (cuja atriz também mudou, sendo agora interpretada por Cynthia Addai-Robinson), a quem Batiatus vendeu ainda na primeira temporada, quando descobriu seu romance com o Gladiador.

Enquanto isso, em Cápua, Cláudio, para seu desespero, é escolhido pelo senado para ir morar no ludus e de lá liderar as legiões que perseguirão Spartacus. Ele leva consigo Illithyia, que está grávida, e seu tribuno Marcus (Luke Pegler), e aproveita Ashur como capanga; Lucrécia também continua morando na casa, graças a uma confusão que faz com que todos acreditem que ela tem poderes mediúnicos e será indispensável à captura de Spartacus - sua relação com Illithyia, porém, azeda de vez, já que o maior sonho de Lucrécia é engravidar, e a esposa de Cláudio é um lembrete de seu fracasso. Outros personagens de destaque da segunda temporada são Públio Varínio (Brett Tucker), rival político de Cláudio, que quer usar seus fracassos na captura de Spartacus para desacreditá-lo junto ao senado; e os ricos irmãos Seppius (Tom Hobbs) e Seppia (Hanna Mangan-Lawrence), que posam de amigos de Cláudio mas, na verdade, agem conforme seus próprios interesses.

A segunda temporada faria bem menos sucesso que a primeira e a minissérie, e, por pouco, a Starz não cancelaria a série ali mesmo, o que só não foi feito porque DeKnight convenceu os executivos do canal a permitir que ele fizesse uma terceira temporada de mais dez episódios, que introduzisse Crasso e Júlio César, e culminasse com a morte de Spartacus. Com o nome de Spartacus: A Guerra dos Condenados (Spartacus: War of the Damned), a terceira temporada seria exibida entre 25 de janeiro e 12 de abril de 2013.

Nela, o grupo liderado por Spartacus, e que conta, dentre outros, com Crixus, Gannicus, Agron, Naevia, Saxa, Nasir, Lugo e Donar, um ano depois de a rebelião começar, consegue tomar uma cidade próxima ao litoral, e de lá começa a fazer planos para contratar piratas que os levem para longe do alcance do Império. Para impedi-los, o senado nomeia Marco Licínio Crasso (Simon Merrells), que parte acompanhado de seu filho, Tibério (Christian Antidormi), e de seu principal general, Júlio César (Todd Lasance), além, é claro, de milhares de soldados. Encurralado, Spartacus não tem escolha a não ser dividir suas tropas e tentar um último ataque contra Roma. Novos personagens da terceira temporada incluem Kore (Jenna Lind), escrava e amante de Crasso; Casto (Blessing Mokgohloa), pirata que decide se unir ao grupo de Spartacus; Nemetes (Ditch Davey) escravo membro do grupo de Spartacus que começa a achar que a rebelião não foi uma ideia tão boa assim; Sibyl (Gwendoline Taylor), escrava que se apaixona por Gannicus após ter a vida salva por ele; e Laeta (Anna Hutchison, de Power Rangers Fúria da Selva), esposa do prefeito da cidade tomada por Spartacus, que acaba se unindo a seu grupo e se tornando sua amante.
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Time Killers

Quando Street Fighter II começou a fazer sucesso, todo mundo quis tirar uma casquinha, e surgiram uns mil jogos de luta diferentes. Quando Mortal Kombat começou a fazer sucesso, novamente todo mundo quis tirar uma casquinha, e a metade desses jogos de luta passou a ter sangue jorrando e a possibilidade de matar o oponente de alguma forma violenta. O primeiro dessa nova e mais violenta leva foi Time Killers.

Time Killers, na verdade, não era muito bom. Os gráficos não eram lá essas coisas, derrotar os oponentes controlados pelo computador era praticamente impossível, e os personagens não eram muito carismáticos. Ainda assim, eu o achava um jogo muito divertido, e sempre tentava convencer um amigo a jogar contra mim no único local onde eu sabia que tinha uma máquina, uma locadora de games perto de onde eu estudava, que a importou dos EUA, tanto que, ao invés de fichas, tínhamos de usar moedas de 25 cents para jogar, fornecidas pela própria locadora. Depois que essa máquina saiu de lá, eu nunca mais joguei, primeiro porque não havia nenhuma versão caseira a meu alcance, segundo porque, como eu falei, o jogo não era lá muito bom - eu até cheguei a baixá-lo para tentar jogar em um emulador, mas acabei desistindo depois de relembrar na prática como era impossível derrotar os oponentes controlados pelo computador.

Por causa de uma certa memória afetiva, entretanto, de vez em quando eu penso em escrever sobre Time Killers aqui para o átomo. Na verdade, eu jurava que já tinha escrito, e qual não foi minha surpresa ao descobrir, essa semana, que ainda não o havia feito. Assim, decidi fazê-lo, para que, da próxima vez, eu não tenha novamente essa surpresa. Diante disso, é dia de Time Killers no átomo!

Lançado em novembro de 1992, Time Killers foi desenvolvido pela Incredible Technologies, e publicado pela Strata. Foi o primeiro jogo de luta no qual cada personagem portava uma arma, e, como já foi dito, o primeiro, depois de Mortal Kombat a trazer sangue, mutilações e golpes que matavam o oponente de forma violenta; apesar disso, esteticamente falando, Time Killers está mais próximo de Street Fighter II que de Mortal Kombat, já que utiliza sprites, e não gráficos digitalizados. A razão pela qual eu usei "está mais próximo de" ao invés de "se parece mais com" é que Time Killers não se parece em nada com Street Fighter II, usando gráficos caricatos, cenários simples, e sprites de certa forma datados, que lembram jogos produzidos para PC no comecinho dos anos 1990, como Commander Keen e Bio Menace.

Pelo menos Time Killers, diferentemente de muitos outros clones de Street Fighter II, faz um esforço para ter um enredo diferente de "todo mundo se enfrenta em um torneio e fim", mesmo que esse esforço tenha resultado em um torneio um tanto bizarro: oito guerreiros que morreram em batalha, oriundos de diferentes lugares e épocas, são selecionados pela Morte para se enfrentar em um torneio no além-vida, cujo prêmio, caso eles consigam derrotar todos os seus pares e a própria Morte em uma luta final, será a imortalidade. Esse enredo levanta uma série de perguntas: por que a Morte escolheu guerreiros que já estão mortos? Se eles já estão mortos, como vão matar uns aos outros? Se eles já estão mortos, como vão conseguir a imortalidade? E a mais importante de todas: se a Morte for morta na luta final, qual será a vantagem de conseguir a imortalidade, já que, sem a Morte, ninguém mais no mundo vai morrer de qualquer forma?

Enfim, os oito lutadores, e a época da qual cada um foi pinçado são: Thugg (20.000 a.C.), um homem das cavernas enorme que usa como arma um machado de pedra gigantesco, e originalmente morreu quando sua tribo se rebelou contra invasores alienígenas que vieram à Terra sequestrar humanos para levar a seu planeta, onde seriam usados como escravos e comida; Leif (829), viking que porta um machado de batalha e morreu em combate contra o Exército Negro, composto por mortos vivos e liderado por Black Thorn, sacerdote que queria dominar o mundo; Lord Wülf (1202), cavaleiro medieval de armadura completa, nascido em Camelot e portando a espada Excalibur, que desapareceu misteriosamente após matar Conde Morbid, vilão que tentou dominar a Inglaterra e foi responsável por matar toda a família de Wülf; Musashi (1455), samurai de armadura que luta com uma katana e uma wakizashi, morto em uma luta contra um dragão que matou todo o seu exército; Rancid (2024), punk da cidade de Nova Chicago que luta usando uma motosserra, e desapareceu misteriosamente após matar um homem que havia cometido uma série de assassinatos e o incriminado por eles, o que o levou a passar um bom tempo na prisão; Orion (2885), aventureiro espacial criado em laboratório que luta usando uma espada elétrica e desapareceu enquanto fugia da polícia por ter sido incriminado por um ataque alienígena; Matrix (3297), uma das duas personagens femininas do jogo, soldado que possui um braço biônico no lugar de um que perdeu em combate, usa uma espada de plasma como arma, e morreu durante um ataque de robôs que se rebelaram contra a humanidade; e Mantazz (4002), rainha de uma raça alienígena que lembra louva-a-deus gigantes, luta usando suas enormes garras, e morreu durante uma luta contra os humanos quando sua raça tentou invadir a Terra. O último chefe é Death, a Morte em pessoa, que é do sexo masculino e não se parece com um esqueleto de capa e capuz, e sim com um demônio roxo de cabelos louros e roupa azul e verde, mas ainda usa como arma sua famosa foice.

Time Killers usa cinco botões para os golpes; no gabinete do arcade, esses botões estão dispostos sobre uma figura humana, posicionados de acordo com a função que cada um deles possui: um deles é usado para golpes com o braço direito, um é usado para golpes com o braço esquerdo, um para golpes com a perna direita, um para a perna esquerda, e o quinto é usado para atacar o oponente com cabeçadas; pressionar os dois botões dos braços ao mesmo tempo resulta em um golpe forte com o braço armado do personagem, e pressionar os dois botões das pernas resulta em um chute forte. Assim como em Street Fighter II, para bloquear, basta colocar o direcional para trás quando o personagem estiver sendo atacado. Cada personagem também possui por volta de dez especiais, embora a maioria deles seja bastante simples (como um especial de Rancid que é simplesmente um pulo curto seguido de joelhada ao estilo de Double Dragon); o grande número de especiais é para compensar o fato de que Time Killers não tem combos: toda vez que é atingido, um personagem chega um pouquinho para trás, o que torna impossível emendar um golpe no outro.

Um botão para cabeçadas pode parecer uma coisa muito específica, mas não está ali à toa: em Time Killers, atingir repetidamente os braços do oponente com sua arma pode fazer com que um deles seja arrancado, tornando o botão correspondente àquele braço inútil, e fazendo com que o oponente só possa atacar com o outro. Se mais golpes forem desferidos, o outro braço também é arrancado, o que fará com que o personagem só possa atacar com chutes e cabeçadas. Um personagem que perca o braço que carrega sua arma não pode mais usar golpes comuns e especiais que usem a arma, e um personagem que perca ambos os braços não pode mais bloquear, ficando à mercê do oponente. Felizmente (ou infelizmente, depende do ponto de vista), não é possível arrancar as pernas dos personagens, por mais que você as acerte, então todo personagem possui pelo menos três golpes comuns diferentes até o final de cada round - sim, porque, no início do round seguinte, braços decepados retornam sem qualquer explicação.

Por incrível que pareça, entretanto, é possível arrancar a cabeça do oponente - e não, ele não continua lutando sem cabeça. Caso um personagem seja decapitado, o round termina imediatamente com a vitória do outro, independentemente de quanta energia restante cada um dos dois tinha. Para tentar decapitar um oponente, o jogador deve usar um Death Move, um ataque giratório com a arma obtido ao se pressionar simultaneamente todos os cinco botões - e que só pode ser usado se o personagem ainda tiver os dois braços. É extremamente difícil usar um Death Move, primeiro porque, devido à posição dos botões, é complicado apertar todos os cinco sem soltar o direcional, o que não é uma boa ideia no meio de uma luta; segundo porque o Death Move, como qualquer ataque do jogo, pode ser bloqueado normalmente caso o oponente ainda tenha pelo menos um dos braços; terceiro porque o ataque tem de acertar exatamente a cabeça do oponente, causando bastante dano mas não o decapitando caso o acerte no tronco ou nos braços - e também não decepando um braço automaticamente caso o acerte. Como se isso tudo já não fosse o bastante, se você tentar o Death Move e for bloqueado, ou se não acertar o oponente com ele, seu personagem ficará incapaz de se mover ou defender durante um segundo, o suficiente para que o oponente contra-ataque. O lado bom é que não existe limite de vezes para você tentar acertar um oponente com um Death Move por round, nem tempo mínimo de luta para usá-lo - é possível acertar um oponente com um Death Move no primeiro segundo de luta, encerrando-a em tempo recorde.

Além do Death Move, existe o Super Death Move, que é exatamente a mesma coisa, mas deve ser usado quando o oponente está atordoado. Caso um Super Death Move acerte qualquer lugar do corpo do oponente, o personagem cortará seus dois braços e sua cabeça, encerrando o round imediatamente. O fato de que o oponente está atordoado, incapaz de se mover ou bloquear, faz com que o Super Death Move seja um golpe meio desleal - principalmente se você levar em conta que os atordoamentos em Time Killers ocorrem de forma aleatória, independentemente da quantidade de dano que o personagem recebeu, sendo até possível atordoar um oponente com apenas um soco comum no início do jogo. Assim como ocorre com os braços decepados, cabeças decepadas pelo Death Move e pelo Super Death Move retornam no início do round seguinte como se nada tivesse acontecido.

O esquema de jogo de Time Killers é bastante simples: cada luta dura três rounds, sendo vencedor o personagem que ganhar dois deles primeiro. Na primeira parte do jogo, você enfrentará, em ordem aleatória, todos os oito personagens do jogo, incluindo o seu próprio (com um esquema de cores diferente), embora o jogo não dê qualquer explicação para esse acontecimento (eu vou arriscar dizer que é a Morte os testando para saber se eles seriam capazes de derrotar a si mesmos); derrotando todos os oito, vem a luta contra Death, que é disputada em um único round, mas com uma pegadinha: Death não tem energia, e só pode ser derrotado com um Death Move bem sucedido - como ele nunca fica atordoado, não é possível derrotá-lo com um Super Death Move. Para tornar o embate ainda mais difícil para o seu lado, mesmo sem Death ter energia, a luta possui um limite de tempo, com você sendo sempre o perdedor caso o tempo chegue a zero. E caso isso ainda não o tenha convencido, Death não tem energia, mas o seu personagem tem, e Death é tão forte que consegue acabar com toda ela com uns três ou quatro golpes - além de ser o único personagem do jogo com um especial que causa a mesma quantidade de dano se for bloqueado que causaria se não tivesse sido, um salto com mergulho flamejante quase impossível de ser esquivado.

Como eu já disse, aliás, jogar Time Killers contra o computador é enervante: personagens controlados pelo computador (incluindo Death) são extremamente agressivos, emendando um golpe atrás do outro com uma destreza que torna quase impossível atingi-los entre um golpe e outro; além disso, caso você seja atordoado, pode ter certeza absoluta de que será morto por um Super Death Move. A boa notícia é que é possível decepar os braços dos personagens controlados pelo computador normalmente (inclusive os de Death!), com a luta ficando um pouco mais fácil depois que eles perdem um braço ou dois.

Time Killers só teve uma única versão caseira, lançada para o Mega Drive. A Strata planejava lançar essa versão em 1994, juntamente com uma para o Super Nintendo, mas as críticas extremamente negativas recebidas pelo jogo dos arcades fariam com que a Nintendo desistisse de sua versão, e com que a própria Strata desistisse de lançar a versão Mega Drive, que já estava quase pronta. Somente em julho de 1996, quase quatro anos após o lançamento da versão arcade, é que a Black Pearl, que compraria o catálogo da Strata após sua falência no início daquele ano, decidiria lançar a versão Mega Drive, que foi considerada ainda pior que a versão arcade, por ter sprites menores, cenários mais simples, e por não contar com o Death Move e o Super Death Move.

Time Killers jamais teve uma sequência, mas acabou tendo um "sucessor espiritual". Lançado em maio de 1994, também desenvolvido pela Incredible Technologies e publicado pela Strata, BloodStorm tinha jogabilidade extremamente semelhante, mas personagens e enredo completamente diferentes. Ambientado em um futuro pós-apocalíptico no qual a Terra é governada por um Imperador, o jogo começa quando esse Imperador é brutalmente assassinado pelo déspota Nekron, que assume o poder e começa um reinado de terror. Oito guerreiros, então, partem para derrotá-lo, com o prêmio sendo tornar-se o novo Imperador.

BloodStorm também usa cinco botões, sendo um para cada braço e um para cada perna do personagem, mas, nele, o quinto botão é usado para bloquear, como em Mortal Kombat. Não existem golpes fortes e cada personagem só tem cinco especiais, mas esses costumam ser mais úteis que os de Time Killers, e é possível realizar alguns combos rudimentares. Ao invés de armas personalizadas, cada personagem possui uma luva tecnológica chamada Gauntlet, necessária para executar alguns dos especiais. Ao estilo de Megaman, quando você derrota um oponente, sua Gauntlet absorve os poderes da dele, e você ganha um dos especiais do oponente derrotado (um especial específico, não um deles sorteado aleatoriamente), que é representado no painel por uma insígnia abaixo de sua energia. Infelizmente, se você tiver de dar continue, perderá todos os especiais que ganhou, mas o jogo possui um sistema de passwords, com o qual é possível retornar para a última luta que você venceu.

Assim como em Time Killers, é possível arrancar os braços dos oponentes acertando-os repetidas vezes, e, se um oponente perder o braço da Gauntlet, perderá o acesso a boa parte de seus especiais - é possível, porém, largar a Gauntlet a qualquer momento, o que deixa o personagem incapaz de executar os especiais que precisam dela, mas também evita que ele a perca no caso de perder um braço, podendo pegá-la de volta com o outro se for o caso. Perdendo os dois braços, assim como em Time Killers, o personagem fica incapaz de bloquear. Os golpes de decapitação, agora propriamente chamados de Decapitation, também estão presentes; eles ainda podem ser usados a qualquer momento, e ainda são difíceis de acertar e deixam o personagem aberto ao contra-ataque se falharem, mas, agora, cada personagem tem seu próprio golpe Decapitation, com comando e animação diferentes.

Agora também é possível arrancar as pernas do oponente, com um golpe especial chamado Sunder; cada personagem tem seu próprio comando para o Sunder, que só pode ser usado caso o oponente esteja atordoado. O Sunder remove ambas as pernas do oponente simultaneamente, mas ele poderá continuar lutando com os braços normalmente, e até mesmo se movendo para a frente e para trás, usando os botões de chute ao invés do direcional. Um personagem sem os dois braços e as duas pernas, por outro lado, fica completamente indefeso, e pouco pode fazer além de assistir ao oponente acabar com a energia que ainda lhe resta. Um oponente atordoado também está suscetível a uma espécie de Fatality - mais uma vez, cada personagem tem o seu - que encerra a luta automaticamente, independentemente da energia restante. Felizmente, em BloodStorm os atordoamentos não são aleatórios, e sim causados por receber muito dano em pouco tempo - o jogo até mesmo avisa quando um personagem está prestes a ser atordoado, e, se ele conseguir passar um certo tempo sem receber novo dano, a contagem do atordoamento zera.

Os oito personagens são Hellhound, chefe do povo do fogo da província do sul; Freon, chefe do povo do gelo da província do norte (desnecessário dizer, os povos do fogo e do gelo são inimigos mortais, e Hellhound e Freon e odeiam mutuamente); Tempest, a filha do Imperador assassinado, que tem o poder de controlar os ventos; Razor, homem condenado por um crime que não cometeu, que sofreu experimentos na prisão que o transformaram em um ciborgue, e agora, após ter cumprido sua pena, deseja se tornar o novo Imperador; Tremor, homem enorme e extremamente forte, chefe de uma raça conhecida como Earthians, que vive nos subterrâneos; Mirage, chefe de uma tribo de amazonas canibais que vive no deserto e odeia os homens; Talon, cientista que fez experimentos em si mesmo até se tornar pouco mais que um robô com cérebro humano (e bastante parecido com Lex Luthor em sua armadura verde); e Fallout, um guerreiro misterioso vindo de uma parte do planeta onde todos considerável ser impossível haver vida devido à radiação, com motivação e objetivos desconhecidos.

Mais uma vez, após escolher seu personagem, o jogador terá de enfrentar todos os oito disponíveis, incluindo o seu próprio. Depois de derrotar os oito, e antes de enfrentar Nekron, o jogador terá de enfrentar dois sub-chefes: Sin, uma mulher musculosa vestida de couro, e Chainsaw, uma espécie de pterodáctilo que tem a Gauntlet presa à sua cauda, e é difícil de ser atingido porque passa a luta inteira voando. Nekron, o último chefe, é um homem gigantesco, com quase o dobro do tamanho dos demais personagens, que se assemelha a um samurai demoníaco e possui a Gauntlet mais poderosa de todas.

O modo para um jogador, aliás, é bem menos enervante que o de Time Killers, com os oponentes não sendo tão agressivos - de fato, eles defendem pouco, até mesmo Nekron, que pode te matar rapidamente com seus golpes, mas também não é tão difícil de ser atingido, e, diferentemente de Death, possui energia, podendo ser derrotado da forma normal. Uma das maiores novidades do modo para um jogador de BloodStorm são os personagens secretos: existem sete ao todo, cada um possuindo um pré-requisito para que o jogador o enfrente na luta seguinte, e que não contam para o limite de oito lutas antes de enfrentar Sin.

Os sete personagens secretos são Shadow, um demônio invisível (só é possível ver sua sombra no chão); Golem, uma espécie de Monstro de Frankenstein criado por Nekron a partir de partes de corpos de diferentes oponentes que tentaram derrotá-lo; Dimentia, uma mulher careca com três olhos e fortes poderes psíquicos, aliada de Nekron; Crainiac, um robô controlado por um cérebro humano (e exposto em sua cabeça); o demônio ciborgue Wraith; Ratchet, um esqueleto robô parecido com os de O Exterminador do Futuro; e Blood, uma criatura artificial feita inteiramente de sangue, criada por Nekron e cujo único propósito é matar. Assim como ocorre com os oito personagens à escolha do jogador, derrotar um secreto confere ao personagem um de seus golpes - o que também acontece com Sin, mas não com Chainsaw ou com Nekron.

Os personagens de BloodStorm também são feitos com sprites, exceto as Gauntlets, que são feitas por computação gráfica - assim como Chainsaw e Nekron, totalmente feitos por CG. Os cenários também são inteiramente feitos por CG, e alguns deles contêm armadilhas, como espinhos, ácido ou abismos; executando o golpe correto, é possível jogar o oponente contra essas armadilhas, encerrando o round imediatamente - exceto no cenário de Sin, que tem paredes com espinhos que vão se fechando na direção dos personagens, mas somente o personagem do jogador pode ser morto por eles, com Sin não recebendo nenhum dano se os tocar. Alguns outros cenários também possuem bizarrices como a possibilidade de se pular para lutar na parte de trás do cenário, algumas delas usadas para se encontrar as lutas contra os secretos. Também vale citar que o sistema de passwords também pode ser usado para se inserir códigos que modificam alguns aspectos do jogo, mais ou menos como em Mortal Kombat 3 - como tornar os personagens cabeçudos, aumentar o dano dos especiais etc. Oito desses códigos permitem que o jogador controle os sete secretos e mais Sin, com cada um dos oito tendo, inclusive, seu próprio final.

BloodStorm ficou apenas nos arcades, nunca recebendo uma versão caseira; versões para o Saturn e o Playstation chegaram a ser anunciadas no início de 1995, mas acabaram canceladas sem que o motivo fosse divulgado. A Strata também planejava lançar uma sequência, chamada simplesmente BloodStorm 2, mas, com problemas financeiros, a empresa fecharia as portas no início de 1996, e esse projeto seria abandonado.

Para finalizar, vale contar uma história extremamente interessante associada a BloodStorm: o intuito da Strata, logicamente, era fazer com que BloodStorm fosse um concorrente direto para Mortal Kombat, talvez até desbancando o jogo da Midway; para isso, ela não pouparia esforços, contratando até mesmo Daniel Pesina, o intérprete de Johnny Cage, Scorpion, Sub-Zero e Reptile nos dois primeiros Mortal Kombat para estrelar o cartaz promocional de seu jogo. No tal cartaz, Pesina aparecia vestido uma calça preta, munhequeiras, tênis e óculos idênticos aos de Cage, com o cabelo penteado da mesma forma, em frente ao gabinete do arcade de BloodStorm, agindo como se estivesse extremamente empolgado em jogá-lo. O intuito da Strata era dizer que BloodStorm era tão bom que até mesmo Johnny Cage, astro de seu maior rival, o aprovava.

Após posar para o cartaz, não somente Pesina seria demitido pela Midway, como também Johnny Cage, Scorpion e Reptile ficariam de fora de Mortal Kombat 3 - com Sub-Zero aparecendo sem máscara e interpretado por outro ator diferente. Mais do que isso, o texto apresentado na abertura de Mortal Kombat 3 dizia que Cage não estava presente porque havia morrido antes dos eventos do jogo. Ed Boon e John Tobias, criadores e produtores dos três primeiros Mortal Kombat, sempre negaram que a demissão de Pesina e a morte de Cage foram uma retaliação pelo ator ter aceitado posar vestido como o personagem para o cartaz de BloodStorm, mas, mesmo assim, seria essa versão que entraria para a história. Afinal, não é todo dia que um dos personagens principais e mais populares de uma franquia é morto por seus criadores porque seu intérprete resolveu ganhar um dinheirinho trabalhando para a empresa rival.
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Muay Thai

Hoje é dia de muay thai no átomo. Porque sim.

O muay thai é uma luta de origem tailandesa, conhecida em seu país de origem como "a arte dos oito membros", pois seus golpes podem ser efetuados com as mãos, cotovelos, joelhos e canelas; como cada lutador tem dois de cada, são oito pontos de contato possíveis, enquanto a maioria das demais lutas desportivas tem apenas dois (como o boxe) ou quatro (como o caratê). Internacionalmente, o muay thai também é conhecido como "boxe tailandês", o que é uma tradução quase literal de seu nome, já que a palavra muay, em tailandês, significa "luta", e thai é o gentílico usado para se referir aos tailandeses não só em seu próprio idioma, mas também em inglês. Na Tailândia, aliás, já existiram muitas outras artes marciais cujos nomes começavam com muay, como muay chaiya, muay thasao, muay lopburi e muay korat, todas elas hoje conhecidas como muay boran (o que significa algo como "lutas antigas"); no Laos, país vizinho à Tailândia, também existe uma luta desportiva, praticada até hoje, conhecida como muay lao. É errado, porém, chamar o muay thai de kickboxing; o kickboxing é um esporte parecido, mas bem mais recente, e com algumas regras bem diferentes.

Diz a lenda que, no ano de 1767, durante uma guerra entre a Tailândia e a vizinha Birmânia, um soldado de nome Nai Khanomtom foi capturado pelo exército inimigo. Um especialista no combate corpo a corpo, tendo ele mesmo criado várias técnicas de luta, Khanomtom ficaria aprisionado durante sete anos, tempo durante o qual continuou treinando, e até mesmo ensinou suas técnicas para outros prisioneiros. Sua libertação ocorreria em 1774, quando o Rei Hsinbyushin da Birmânia decidiria realizar um festival em honra de Buda, que contaria com música, dança, peças de teatro e demonstrações de luta, ao longo de sete dias e sete noites. Ao saber da fama de Khanomtom, o Rei decidiria que o auge das demonstrações de luta seria um embate entre Khanomtom e o campeão nacional de lethwei, arte marcial de origem birmanesa, para determinar qual estilo de luta era superior, o da Birmânia ou o da Tailândia.

No dia marcado, Khanomtom derrotou o campeão de lethwei (cujo nome se perdeu na história) sem a menor dificuldade. O árbitro da luta, porém, alegou que o nocaute havia sido inválido, pois, antes de o combate começar, Khanomtom havia realizado uma dança ritual, que, segundo ele, havia hipnotizado o oponente. O Rei, então, perguntaria a Khanomtom se ele aceitaria enfrentar outros lutadores birmaneses para provar seu valor, e ele concordou. Khanomtom enfrentaria ao todo mais nove oponentes, sem descanso entre uma luta e outra, o último deles um dos maiores mestres de artes marciais da Birmânia, o qual ele teria aleijado com um chute - depois do qual ninguém mais desejaria enfrentá-lo, e ele seria finalmente considerado o vencedor. Impressionado, o Rei determinaria que ele fosse levado até a fronteira e libertado. Ao chegar a Bangcoc, capital da Tailândia, Khanomtom foi recebido como um herói nacional, e muitos se interessaram em aprender seu estilo de luta. Sob sua supervisão, foram abertas as primeiras escolas que ensinariam seu estilo de luta, o qual ficaria conhecido como toi muay, algo como "luta com as mãos nuas". Rapidamente, o muay se tornaria o esporte nacional da Tailândia, com lutas de demonstração sendo realizadas em várias feiras e festivais, especialmente em templos budistas, nos quais os monges também a aprendiam.

O auge da popularidade do muay se daria em meados do século XIX, com a ascensão ao trono, em 1868, do Rei Rama V, ele mesmo um praticante do esporte e aficionado por suas lutas. Nessa época, o muay era visto não somente como um excelente exercício físico e uma forma de auto-defesa, mas também como forma de recreação e de alcançar a paz espiritual; também seria nessa época que surgiriam os diversos estilos regionais (como os já citados muay chaiya e muay lopburi), com cada escola adaptando as regras de acordo com sua conveniência. O muay ainda não era, porém, visto como esporte, com a imensa maioria das lutas ainda sendo amistosas e efetuadas apenas para demonstração; a transformação do muay em uma luta desportiva só se daria no início do século XX, e graças ao boxe.

Em 1913, por influência dos colonizadores ingleses, o boxe seria incluído no currículo de educação física da Suan Kulap College, a mais importante universidade tailandesa da época. Muitos dos alunos, além do boxe, desejavam aprender também o muay, de forma que, em 1919, o muay também passou a fazer parte do currículo (assim como o judô, embora isso não seja importante para a nossa história). Dois anos depois, em 1921, o Suan Kulap College inauguraria o primeiro ringue permanente da Tailândia, no qual não somente os alunos poderiam treinar e disputar campeonatos, mas também poderiam ser realizadas lutas profissionais de boxe naquele país. Em 1923, seria inaugurado mais um ringue, o Suan Sanuk Stadium, este seguindo os padrões internacionais adotados para os ringues de boxe. Com dois ringues à disposição, as lutas profissionais de muay, que já existiam desde 1909, começaram a se tornar cada vez mais comuns, e conversas começaram a acontecer sobre a realização do primeiro campeonato tailandês de muay. Todas essas conversas, entretanto, esbarravam em um problema básico: as regras.

Na época, o muay não tinha regras unificadas; cada uma das variações regionais tinha regras diferentes, e, quando dois lutadores de duas variações diferentes se enfrentavam, frequentemente ocorriam discussões sobre o que valia ou não - uma das variações, chamada khat chueak, por exemplo, permitia que os lutadores usassem, amarradas em volta das mãos, faixas de tecido com nós sobre os dedos, que serviam tanto para proteger suas mãos quanto para ferir ainda mais o oponente, tornando a luta mais rápida, e que eram consideradas perigosas e desleais pelos praticantes de outras variações. Em 1925, chegaria ao trono o Rei Rama VII, que, assim como seu pai Rama V (Rama VI, seu antecessor, era seu irmão), era praticante e entusiasta do muay, e, vendo a discussão em torno das regras, exigiria que se criasse um conjunto de regras unificadas. Para que isso fosse possível, ele ordenaria que a Associação Profissional de Boxe da Tailândia (PAT), órgão ligado à Autoridade Desportiva Tailandesa (SAT), espécie de Ministério do Esporte de lá, e responsável por regular o boxe dentro da Tailândia, se tornasse também o órgão máximo no que dizia respeito ao muay, sendo responsável por criar um novo conjunto de regras que seria usado em todo o país, além de por supervisionar todas as lutas profissionais de muay que ocorressem dentro do território tailandês, como já ocorria com o boxe. Foi nessa época que surgiu o nome muay thai, para se referir ao estilo considerado oficial pela PAT, assim como o nome muay boran, que passou a ser usado para se referir a todos os outros estilos de muay que existiam até então.

Sendo um órgão originalmente ligado ao boxe, a PAT se inspiraria nas regras do boxe para criar as regras do muay thai, exigindo, por exemplo, o uso de luvas de boxe durante as lutas. Essa regra foi bastante contestada pelos lutadores de khat chueak, o que acabou levando a um recuo da PAT, que permitiu que as faixas de tecido continuassem sendo usadas em lutas entre tailandeses, sendo as luvas obrigatórias apenas em lutas que envolviam estrangeiros; mas, após uma morte durante uma luta profissional em 1935, causada pelo dano sofrido em decorrência do uso das faixas de tecido, elas seriam proibidas de vez não somente em lutas profissionais, mas também em todas as lutas de muay. A PAT também padronizaria a duração das lutas, anteriormente decidida pela organização das mesmas, estabeleceria as categorias de peso, e exigiria a presença de pelo menos três juízes para auxiliar o árbitro da luta na contagem dos pontos.

Já no século XIX, o muay havia ultrapassado as fronteiras da Tailândia, sendo praticado também na Birmânia, no Laos, no Camboja e no Vietnã. No início do século XX, ele chegaria também à Índia e à China, e, após a Segunda Guerra Mundial, chegaria à Europa e aos Estados Unidos. O muay thai começaria a crescer em popularidade no ocidente a partir da década de 1980, o que levaria à fundação, em 1993, da Federação Internacional de Muay Thai Amador (IFMA). Hoje, a IFMA já conta com 130 membros (originalmente eram 20), incluindo o Brasil, e é a responsável por regular, em âmbito mundial, o muay thai, o muay boran, o muay talai (disputado sobre um tronco suspenso no meio da água, com o perdedor sendo aquele que cair do tronco), o muay aeróbico (praticado em academias de ginástica) e o krabi kabong (demonstração dos movimentos do muay com o uso de armas, mais especificamente uma espada e um bastão, de forma semelhante ao taolu do wushu) - essas quatro últimas modalidades, entretanto, são ainda amplamente de demonstração, com pouquíssimos torneios sendo disputados. A IFMA possui uma parceria com o governo da Tailândia, e se compromete a sempre respeitar os princípios do verdadeiro muay thai, sem tentar ocidentalizar o esporte. Apesar do nome, a IFMA também organiza torneios destinados a lutadores profissionais.

Dois anos após a criação da IFMA, em 1995, o governo da Tailândia criaria o Conselho Mundial de Muay Thai (WMC), que teria a responsabilidade de expandir e promover o muay thai profissional internacionalmente, já que a IFMA, originalmente, regulava apenas o muay thai amador. Hoje, o WMC conta com 120 membros, incluindo o Brasil. A rigor, as regras adotadas pelo WMC são as mesmas da IFMA, exceto no que diz respeito aos uniformes, às categorias de peso e à duração das lutas. O WMC também não costuma realizar torneios, usando um sistema de lutas idêntico ao do boxe profissional para determinar seus campeões.

Além de IFMA e WMC, existem três outras federações internacionais que clamam regular o muay thai. Uma delas é a Federação Mundial de Muay Thai Profissional (WPMF), fundada em 2004; as outras duas usam ambas a sigla WMF e ambas foram fundadas em 1995 (e ambas têm um logotipo quase idêntico): a Federação Mundial de Muay, que clama regular o muay thai amador, e a Federação Internacional de Muay Thai, que clama regular o muay thai profissional. As regras das três têm algumas diferenças em relação às da IFMA e WMC, mas, assim como em meus outros posts sobre lutas desportivas que tinham mais de uma vertente ou federação, eu decidi falar apenas sobre as regras da federação considerada oficial pelo Comitê Olímpico Internacional, que, no caso, é a IFMA. Como muitas das lutas transmitidas para o Brasil são organizadas pelo WMC, eu farei pequenas observações quando as regras deste forem diferentes das daquela. WPMF e ambas as WMF serão ignoradas.

O muay thai é disputado em um ringue idêntico ao do boxe, com as mesmas dimensões, mesmos componentes e feito do mesmo material. As luvas também são idênticas às do boxe, sendo usadas sempre as luvas de 10 onças (284 g cada), em todas as categorias de peso. O uniforme é composto de um calção próprio, bem largo mas com um elástico grosso e bem justo; de um capacete acolchoado de proteção, que deixa apenas o rosto, o topo da cabeça e as orelhas à mostra; e de uma camiseta sem mangas, no caso dos homens, ou um top, no caso das mulheres; são usados protetores de gengiva e virilhas, caneleiras, cotoveleiras e, no caso das mulheres, protetores de seios. Um dos lutadores sempre deve usar uniformes, luvas e protetores de cor azul, enquanto o outro sempre os usa na cor vermelha. No muay thai profissional da WGC, são usados apenas as luvas, calção, protetores de gengiva e virilha, caneleiras, e, para as mulheres, top e protetor de seios, e a cor dos uniformes é livre.

Dois elementos característicos do uniforme do muay thai são o mongkon e o prajiad. O mongkon é uma faixa de tecido amarrada na testa, que originalmente era um pedaço de uma roupa de um ente querido, normalmente de um vestido da mãe, que o soldado rasgava e usava como bandana durante a guerra para lhe trazer boa sorte, enquanto o prajiad é uma faixa amarrada no braço, bíceps ou cintura que conta com um pequeno amuleto pendurado, e originalmente era um amuleto budista também usado para trazer boa sorte. Todo atleta deve entrar no ringue usando o mongkon e o prajiad, e retirá-los antes de a luta começar - embora alguns torneios permitam que ele use o prajiad durante a luta, desde que firmemente preso ao corpo e bem coberto, para que não atrapalhe.

Os lutadores de muay thai entram no ringue sem o capacete, e, antes de a luta começar, devem fazer o ritual do wai kru, uma espécie de coreografia acompanhada por música tocada com três instrumentos típicos tailandeses - foi o wai kru, aliás, o responsável pela anulação do resultado da luta de Khanomtom contra o campeão de lethwei, por ter supostamente hipnotizado o adversário. O wai kru possui vários movimentos pré-determinados, com o lutador sendo livre para escolher quais vai realizar; diferentemente de um kata, esses movimentos não estão relacionados às técnicas de luta do muay thai, sendo mais parecidos com uma dança folclórica. O wai kru é um componente puramente ritualístico, sem qualquer influência no resultado da luta, e a IFMA recomenda um tempo de dois minutos para sua realização, embora também não haja qualquer punição se eles o ultrapassarem. Após o wai kru, o lutador retira o mongkon, coloca o capacete, e está pronto para a luta.

Assim como outras lutas desportivas, o muay thai divide seus lutadores em categorias de peso. A IFMA utiliza 13 categorias de peso no masculino e 11 no feminino, sendo nove delas comuns a ambos os gêneros: até 48 kg, até 51 kg, até 54 kg, até 57 kg, até 60 kg, até 63,5 kg, até 67 kg, até 71 kg e até 75 kg. Somente no feminino, existem as categorias até 45 kg e mais de 75 kg; somente no masculino, existem as categorias até 81 kg, até 86 kg, até 91 kg e mais de 91 kg. O WMC usa 13 categorias, que são as mesmas no masculino e no feminino: até 47,62 kg, até 50,8 kg, até 53,52 kg, até 57,15 kg, até 61,24 kg, até 66,68 kg, até 72,58 kg, até 76,2 kg, até 79,38 kg, até 82,55 kg, até 86,18 kg, até 95 kg e acima de 95 kg - os valores são quebrados porque originalmente eram em libras, não em quilos. A pesagem da IFMA é feita no primeiro dia do torneio, e vale para todo o torneio; as do WMC são feitas no dia anterior ao da luta, e valem apenas para aquela luta, com o atleta tendo uma nova chance na manhã do dia da luta caso não passe na primeira pesagem.

Uma luta de muay thai da IFMA dura três rounds de três minutos cada, com um minuto de intervalo entre um e outro, enquanto uma do WMC dura cinco rounds de três minutos cada, com dois minutos de intervalo entre um e outro. A luta é oficiada por um árbitro, que fica no ringue junto aos lutadores, e cinco juízes, que ficam sentados ao redor do ringue. Cada um desses juízes escolherá o vencedor de cada round, usando os seguintes critérios: qual lutador teve a melhor técnica, qual aplicou os golpes com mais potência, qual demonstrou maior domínio das técnicas do muay thai, qual demonstrou mais iniciativa, qual terminou o round menos cansado, e qual infringiu menos as regras. Após cada juiz escolher seu vencedor, aquele que foi escolhido por mais juízes ganhará 10 pontos, e o outro ganhará 9, 8 ou 7 pontos, dependendo da quantidade de juízes que o escolheu como vencedor. Ao final do terceiro round, aquele que tiver mais pontos será o vencedor da luta. É raro, mas pode ocorrer de ambos os lutadores terminarem empatados em pontos; nesse caso, o vencedor será aquele que mostrou ter a melhor defesa, ou seja, aquele que mais evitou que os golpes do oponente o atingissem.

O árbitro possui a função de zelar pelo bom andamento da luta. Ele pode interrompê-la a qualquer momento que julgar necessário com o comando yoot, e reininiciá-la com o comando chok; caso os lutadores estejam em um clinch, ou seja, um abraçou o outro para ganhar tempo, ele usa o comando yaek, com o qual ambos devem se separar imediatamente. É o árbitro quem aplica as punições aos lutadores faltosos, determina que o relógio pare para que um lutador receba atendimento médico, recolhe as papeletas dos juízes ao final de cada round para anunciar os pontos, e anuncia o vencedor da luta ao final, levantando seu braço. O árbitro também pode encerrar uma luta imediatamente caso note que um lutador é absolutamente superior ao outro, que um dos lutadores se feriu de forma que não pode mais continuar, ou para desclassificar um lutador que não esteja agindo com lisura e desportividade.

Quando um lutador comete uma falta, ele pode receber uma advertência ou uma punição. Advertências são usadas em caso de faltas leves, como falta de combatividade ou uso de um golpe inválido que não fira o oponente; para dar uma advertência, o árbitro não precisa interromper a luta, podendo esperar um momento no qual o lutador possa ouvir claramente que está sendo advertido. Já para dar uma punição, o árbitro interrompe a luta, avisa ao lutador e aos juízes que ele foi punido e a reinicia; punições são usadas no caso de golpes inválidos violentos ou que possam ferir o oponente (como cabeçadas e arremessos), falta de respeito (como cuspir ou morder o adversário), acertar o oponente em uma área ilegal de contato (como nuca ou virilha), uso ilegal das cordas, desrespeitar o árbitro, não atender ao comando de yoot ou yaek, ou por insistir em uma conduta pela qual ele já foi advertido mais de uma vez. Um lutador que receba três punições em uma mesma luta está automaticamente desclassificado, com o outro sendo declarado vencedor.

É possível vencer uma luta de muay thai por nocaute: toda vez que um lutador toca o chão com qualquer parte do corpo que não seja a sola dos pés em decorrência de um golpe do oponente (ou seja, sem ter caído sozinho), fica pendurado nas cordas sem conseguir reagir, cai do ringue em decorrência de um golpe do oponente, ou quando o árbitro constatar que ele ficou "grogue" e incapaz de continuar lutando adequadamente após um golpe do oponente, o árbitro pode abrir contagem (em tailandês). Se a contagem chegar até o número 10 sem que o lutador esteja em condições de continuar lutando, ele é considerado nocauteado, e o oponente vence a luta imediatamente. Mesmo que ele esteja claramente em condições de continuar lutando, o árbitro ainda deve, por razões de segurança, prosseguir a contagem até o número 8. Quando um lutador recebe contagem, os juízes devem anotar em seu placar o código KD, ou, se ele recebeu contagem após um golpe na cabeça, o código KD+H; um lutador com três KD ou dois KD+H é automaticamente considerado como nocauteado, sem que seja necessária a contagem. Do momento em que o árbitro começa a contagem até a hora em que a luta reinicia, o relógio fica parado - ou seja, ninguém é "salvo pelo gongo" no muay thai.

Como o muai thay possui oito pontos de contato, ele também tem uma grande quantidade de golpes válidos. Os principais golpes usados são os socos (chok) e chutes rápidos (thip), usados para desestabilizar o oponente; os socos são ao estilo dos do boxe, com a parte frontal da luva atingindo o rosto ou o tronco do oponente, enquanto os chutes rápidos são efetuados com o peito ou a sola do pé. Os chutes (te) são golpes de potência, que atingem o oponente com a canela após um giro de quadril, visando derrubá-lo. Finalmente, temos as cotoveladas (sok) e as joelhadas (ti khao), golpes de oportunismo, que buscam pegar o oponente desprevenido - aplicando uma cotovelada logo após um soco, ou uma joelhada quando ele sobe a guarda, por exemplo. A área válida para acertar o oponente com socos, cotoveladas e joelhadas inclui o rosto, peito, barriga e braços, mas não as costas, nuca ou qualquer parte abaixo da cintura; chutes e chutes rápidos, por outro lado, podem atingir qualquer parte do corpo exceto a nuca, as costas e os órgãos genitais. Para o propósito de se aplicar joelhadas, é permitido um clinch bem breve, chamado chap kho, que possui várias técnicas diferentes, sendo a mais comum entrelaçar os braços ao redor do pescoço do oponente e puxá-lo para baixo; mas, se o árbitro considerar que o clinch está levando mais tempo que o necessário, ele pode dar o comando para que os oponentes se separem, ou até mesmo advertir o que iniciou o clinch.

Torneios de muay thai são disputados no sistema de mata-mata, com os competidores sendo pareados, os vencedores avançando e os perdedores sendo eliminados; dependendo do número de participantes de um torneio, os mais bem ranqueados podem começar já na segunda ou terceira fase. Segundo as regras da IFMA, é proibido um mesmo lutador fazer mais de uma luta por dia. Diferentemente do que ocorre em outras lutas desportivas, torneios de muay thai possuem disputa da medalha de bronze, entre os perdedores das semifinais.

A IFMA está dentre as federações internacionais reconhecidas pelo COI - é a mais recente a conseguir esse feito, aliás, tendo sido reconhecida em dezembro de 2016 - e seu objetivo, como o de todas as nessa situação, é incluir o muay thai nas Olimpíadas. Para tentar convencer o COI de que isso seria um bom negócio, ela se filiou ao IWGA em 2010, e o muay thai estreou nos World Games em 2017, com oito categorias masculinas e três femininas. Atualmente, o mais importante torneio de muay thai é o Campeonato Mundial, realizado anualmente, no masculino desde 1993 e no feminino desde 2010.
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